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Patricia Pranke responde perguntas de leitores sobre células-tronco

A pesquisadora explicou o que são, para que servem e qual o potencial dos estudos com células embrionárias

10/03/2008 | 17h21
Patricia Pranke responde perguntas de leitores sobre células-tronco Reprodução/
Patrícia Panke, membro do Instituto de Pesquisa com Células-tronco Foto: Reprodução

Na semana passada, os leitores de Zero Hora foram convidados a entrevistar a professora da Faculdade de Farmácia da UFRGS e membro do Instituto de Pesquisa com Células-tronco, Patricia Pranke, sobre o uso de células-tronco em pesquisas científicas. O assunto veio à tona, gerando tanto dúvidas quanto polêmicas, devido à iminência da votação que decidiria se as células-tronco embrionárias poderiam ser usadas em pesquisas científicas, como determinou a Lei de Biossegurança de 2005, ou se deveriam ser protegidas pela Constituição. Durante a votação no Supremo Tribunal Federal (STF), realizada no dia 5 de março, o ministro Carlos Alberto Menezes Direito pediu vista do processo, interrompendo a sessão e adiando a decisão.

Patricia ressaltou que não há resposta única sobre uma das principais polêmicas gerada pelo assunto: o momento em que a vida humana se inicia. Existem, admite ela, várias respostas, dependendo da crença de quem responde. Aos leitores que a interrogaram sobre este tema, ela apresentou sua perspectiva: "se a morte das células neuronais é considerada o marco final da vida (o que ocorre na morte encefálica e faz com que se permita a doação de órgãos), o aparecimento dessas células poderia ser considerado o marco zero. E isso só ocorre após 14 dias". Além de questionamentos amplos sobre a definição e possíveis rumos das pesquisas, os participantes da entrevista também questionaram sobre a aplicação de tratamentos com células-tronco para casos de doenças específicas.

Mario Correa, Porto Alegre - Explique, de uma forma objetiva, o que são células-tronco, de onde podem ser retiradas (embriões, cordão umbilical) e qual o uso em potencial destas células-tronco para a Medicina.
Patricia Pranke -
Prezado Mário, as células-tronco têm sido vista como uma recente esperança terapêutica para o tratamento de inúmeras doenças. Células-tronco (CT) são células que apresentam grande capacidade proliferativa e podem se diferenciar em diversos tipos celulares, podendo participar da regeneração de órgãos que tenham sofrido uma lesão. Além disso, as CT apresentam a propriedade de auto-renovação, ou seja, gerar cópias idênticas a si mesma. Há dois tipos de células-tronco: as células-tronco adultas (CTA) e as células-tronco embrionárias (CTE). As CTA, mais facilmente disponíveis e comumente utilizadas na clínica, são as células-tronco presentes na medula óssea e no sangue de cordão umbilical. As CTE são definidas por sua origem, e são derivadas do estágio do blastocisto do embrião. A CTE é normalmente utilizada, em alguns países, a partir dos blastocistos gerados em clínicas de fertilização, onde o casal doa, para a pesquisa com fins terapêuticos, os blastocistos não-utilizados para a fertilização in vitro. O blastocisto corresponde às células entre o quarto e quinto dias após a fecundação, mas antes ainda da implantação no útero, que ocorre a partir do sexto dia. O blastocisto compreende cerca de 150 células. Esse estágio precede a fase embrionária. A maior importância da terapia celular através do uso das células-tronco está na sua capacidade de plasticidade, que é a propriedade de uma célula originar diferentes tipos celulares. As CTE são células não-especializadas com alta capacidade de auto-renovação e que podem ser expandidas indefinidamente. Por possuírem grande plasticidade, quando as CTE estão sob certas condições fisiológicas ou experimentais, elas podem se tornar células com funções especializadas podendo, por exemplo, se diferenciar em células musculares, células produtoras de insulina, entre várias outras.

Mauro Moraes, Porto Alegre - Tenho dúvidas: quando o indivíduo tem morte cerebral, apesar de os outros órgãos continuarem vivos, normalmente este indivíduo é declarado morto. Sabemos que, quando da concepção, o cérebro levará alguns dias para se formar. Então não é de se afirmar que não há vida também?
Patricia -
Prezado Mauro, sim, no meu ponto de vista, o seu raciocínio está totalmente correto. Nós temos defendido também esse aspecto, para mostrar que o embrião ainda não seria uma vida humana, já que não há nenhum resquício de células do sistema nervoso central.

Elenice Mello, Porto Alegre - Cara professora, por que se coloca os embriões como únicos fornecedores de células-tronco? Se os embriões não forem utilizados, ainda há outras fontes, como o cordão umbilical, ou estou enganada? Estão apresentando esta questão como se fosse preciso fazer a opção entre o obscurantismo religioso e a abnegação da ciência na luta para salvar vidas. Com isso, não estão obliterando um debate muito mais filosófico, de valores éticos, de conceituação do que é a vida humana e do que o critério do utilitarismo pode atingir?
Patricia -
Prezada Elenice, sim, você está certa. Há outras células-tronco como as que citaste. Os cientistas precisam estudar todas, pois elas têm características diferentes, o que pode significar que algumas podem ajudar em algumas doenças, e outras células-tronco em outras doenças. Por exemplo, as células da medula óssea estão sendo usadas com sucesso para as doenças cardíacas. Então, para essas doenças, provavelmente não precisaremos usar as células-tronco embrionárias. Mas há outras doenças, com a diabete e lesão de medula espinhal (paralisia), para as quais as células-tronco da medula óssea (ou outras células-tronco adultas) não têm mostrado bons resultados, enquanto as células-tronco embrionárias parecem que deverão ajudar melhor essas doenças.

Dalva Bervian, Porto Alegre - Sabe-se hoje que os estudos que envolvem as células-tronco já trouxeram respostas satisfatórias em prol da recuperação de órgãos doentes. Trabalhei em um grande hospital de Porto Alegre, onde o estudo era voltado para pacientes com doenças coronarianas. Gostaria de saber, quais os estudos que existem no RS, e a forma de ingresso para participar do mesmo?
Patricia -
Prezada Dalva, há três hospitais no RS autorizados a tratar pacientes com cardiopatia com células-tronco: Instituto de Cardiologia, Hospital de Clínicas e Hospital São Lucas. Para ingressar no estudo, deve-se marcar uma consulta, para saber se o paciente tem indicação clínica para esse tratamento.

Claudemir Santana, Jacareí (SP) - Como é feito o processo de tirar uma célula para colocá-la em outra pessoa? Sou totalmente leigo nesse assunto. O que se tira, na verdade? Não faz falta? E por que usar embriões?
Patricia -
Prezado Claudemir, para usar células-tronco de um paciente em outro, precisa haver compatibilidade no sistema imunológico chamado HLA, para evitar rejeição. Quando o material doado for medula óssea ou sangue de cordão umbilical, retira-se o sangue de medula e do cordão umbilical e, geralmente, separa-se uma fração celular chamada de mononucleares. Essa é a fração que se doa para a outra pessoa e, nessa fração, estão as células-tronco. Para retirar de embriões, precisamos destruir esses embriões. Mas como são embriões que estão congelados e serão descartados, a lei de biossegurança permite usar as células-tronco dos embriões como se fosse uma doação de órgãos. Os pesquisadores precisam estudar as células-tronco embrionárias, porque as células-tronco do embrião são diferentes das outras células-tronco e, muitos estudos mostram que elas são mais capazes de regenerar órgãos e tecidos.

Carla Stel, Porto Alegre - Escutei que algumas substâncias produzidas pelos embriões estão curando câncer. Isto é verdade?
Patricia -
Prezada Carla, o uso de células-tronco para o tratamento do câncer ainda está sendo investigado e não podemos ainda afirmar se, de fato, as células-tronco poderão ser usadas para esse fim em pacientes.

Maria I. de P. Silva, São Leopoldo - Gostaria de saber se no caso do diabetes tipo II, um transplante de células poderia curar um paciente? E quem poderia ser o doador?
Patricia -
Prezada Maria, os estudos com células-tronco para diabetes são principalmente para diabetes tipo 1.

Ro Court, Porto Alegre - O tratamento com células-tronco é eficaz para Alzheimer?
Patricia -
Prezada Ro Court, a doença de Alzheimer é uma das doenças para a qual vários pesquisadores estão estudando as células-tronco para o seu tratamento. Porém, por se tratar de uma doença bastante complexa, achamos que ainda serão necessários alguns anos para podermos ver bons resultados para essa doença.

Valdir Dotta, Carlos Barbosa - Olá, no RS qual o foco ou os focos a que a pesquisa se dedica? O que se teria já de concreto?
Patricia -
Prezado Valdir, no RS, as doenças cardíacas são as que mais foram beneficiadas com o tratamento com células-tronco, sendo que vários pacientes já deixaram a fila de espera por um doador para o transplante cardíaco.

Christian Kinopp, Porto Alegre - Cara professora Patricia Pranke, tendo em vista todas essas opiniões acerca do uso ou não de células embrionárias, gostaria de saber qual é a sua opinião sobre esse assunto. Quando, em seu ponto de vista, inicia a vida? Pra mim, ela inicia após a Nidação; até esse momento, a mórula não passa de um monte de células. A mórula, para o corpo materno, é um corpo estranho e, por isso, pode ser atacado sendo calcificado, abortando naturalmente. Logo, se nem o corpo reconhece a mórula, ela não pode ser considerada um ser humano. Professora, estou errado pensando assim? Aguardo essas respostas.
Patricia -
Prezado Christian, essa é uma pergunta que deve ter várias respostas, dependendo da crença de quem responde. No entanto, eu compartilho totalmente com você a sua forma de pensar.

José Alberto Fernandes, São Leopoldo - Escutei o programa Polêmica, na Rádio Gaúcha. Achei a discussão muito interessante. A princípio sou a favor de qualquer pesquisa que possa ajudar no desenvolvimento da Medicina, mas em primeiro lugar sou a favor da vida. Tu disseste no programa que a vida inicia a partir da fixação das células (não lembro o termo certo) no útero, certo? Tu tens certeza disso? Seria ótimo poder pensar que estamos progredindo na ciência sem eliminarmos alguma vida já existente. Como foi dito no programa, "minha convicção é do tamanho do meu conhecimento". Neste caso, meu conhecimento praticamente não existe. Obrigado por sua atenção e, como o Lauro Quadros disse, tu pareces ser apaixonada pela tua área de atuação. Parabéns, precisamos de jovens apaixonados pelo conhecimento.
Patricia -
Prezado José Alberto, o termo que devo ter usado é Nidação, que é quando o embrião se fixa no útero materno, o que ocorre a partir do sexto dia. Mórula é o embrião de poucos dias, logo após a fase do zigoto, que é o embrião no momento da fecundação. Então, primeiro temos o zigoto, logo depois a mórula, quando começam as primeiras divisões celulares e, entre quatro e cinco dias, o embrião é chamado de blastocisto. Os embriões usados para pesquisa são, geralmente, até a fase de blastocisto (cinco dias), que é quando usamos as células-tronco. Quanto a sua pergunta sobre eu ter sugerido que a vida começa apenas após a Nidação, bem, essa é a minha opinião. Quando perguntas se eu tenho certeza, eu acho que esse é um assunto muito complexo e haverá diversas teorias diferentes, dependendo da crença de quem responde a pergunta. Sinceramente, não acho que alguém pode dizer que tem certeza em sua resposta. No entanto, assim como vários cientista, eu considero que, antes de 14 dias, não podemos considerar um embrião como uma pessoa humana, pois só após duas semanas é que as primeiras células neuronais começam a aparecer. Essa teoria seria a mesma da doação de órgãos. Se a morte das células neuronais é considerada o marco final da vida, o que ocorre na morte encefálica e faz com que se possa fazer doação de órgãos, o aparecimento dessas células poderia ser considerado o marco zero. E isso só ocorre após 14 dias.

Silvia Silva, Porto Alegre - É possível fazer a doação de sangue do cordão umbilical aqui no Rio Grande do Sul? Em julho vou ter filho, e queria mais informações.
Patricia -
Prezada Silvia, ainda não temos um banco público de sangue do cordão umbilical no Estado, mas estamos trabalhando para abrir um em breve. Então, por enquanto, não há como doares o sangue de cordão. Mas não se preocupe, pois não há necessidade de todas as mães doarem o sangue de cordão.

Alex Borges Uhlrich, Porto Alegre - Primeiramente me manifesto contrário a qualquer pesquisa com embriões humanos. Gostaria de saber se não poderá acontecer a seguinte situação: um casal tem um filho com algum problema que possa ser curado com células-tronco, mas não foram guardadas as provenientes do cordão umbilical. Não haveria o risco de este casal, com especialistas em fertilidade, "produzirem" um embrião in vitro, com a finalidade de curar seu filho? Não se estaria transformando o embrião em um "medicamento"? E mesmo que se saiba que as células-tronco embrionárias têm um potencial gerador de outros tecidos muito grande, por que não se investe mais em pesquisas com células-tronco de outras fontes, como a já citada proveniente do cordão umbilical?
Patricia -
Prezado Alex, a lei que permite o uso de embrião para retirar células-tronco é bem clara quanto a essa sua preocupação, que também era minha quando dei assessoria aos parlamentares para escrevermos a lei: é proibido produzir embriões para pesquisa. Só se pode usar os que não foram usados para a fertilização in vitro. Quanto a investir em pesquisar as outras células-tronco: isso é importante, e estamos investindo em estudar todas elas. Mas não podemos parar de estudar as embrionárias, pois algumas doenças podem ser beneficiadas com as embrionárias, e não com as outras. Assim, entendemos que devemos estudar todas e poder comparar os resultados.

 
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