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“O momento histórico me deu essa projeção”, diz Lula

Presidente concedeu entrevista exclusiva a Zero Hora

26/06/2009 - 04h25min
“O momento histórico me deu essa projeção”, diz Lula Ricardo Stuckert, Divulgação/
Presidente Lula concedeu entrevista exclusiva a Zero Hora Foto: Ricardo Stuckert, Divulgação  

São 10h10min de quinta-feira, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não consegue apoiar os pés no chão por conta da altura demasiada da cadeira na qual está sentado, numa sala de reuniões do Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília.

– Alguém senta nessa cadeira quando eu não estou aqui? – questiona o presidente, antes de pedir para alguém baixar o assento.

Lula se levanta e puxa a primeira cadeira que encontra pela frente.

– Agora, sim. Tem que botar o pé no chão – justifica.

Apesar do contratempo, Lula está de bom humor. Antes de começar a entrevista exclusiva a Zero Hora, dá início a um animado papo sobre futebol. Lamenta os gols perdidos pelo Grêmio na derrota da véspera diante do Cruzeiro e reclama com o chefe de gabinete, Gilberto Carvalho, sobre uma agenda marcada para o horário do jogo entre Brasil e África do Sul pela Copa das Confederações:

– Ô, Gilberto, você marcou agenda na hora do jogo da Seleção. Não faz sentido.

Lula, que estará hoje em Porto Alegre para inaugurar o Parque Gráfico Jayme Sirotsky, do Grupo RBS, conversou com os jornalistas de ZH por 70 minutos. A sua frente, folhas de papel com números, cifras e estatísticas do governo. A seu lado, o ministro de Comunicação Social, Franklin Martins, guardava outros documentos com dados específicos do Rio Grande do Sul.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Zero Hora – Porto Alegre será uma das sedes da Copa do Mundo. O que podemos esperar do governo na área de transportes e infraestrutura?

Lula
– Dia 30 haverá uma reunião do governo com governadores e prefeitos para decidir as prioridades de mobilidade urbana em cada Capital. Os estádios são problemas dos clubes, federações e governos estaduais. Não acredito que o poder público tenha de colocar dinheiro para construir estádio. Precisamos evitar que a megalomania tome conta de algumas pessoas. Precisamos criar um comitê que irá funcionar até 2014 e fazer um pacto sobre a responsabilidade de cada um.

ZH – O que é melhor para a campanha de Dilma Rousseff nos Estados em 2010? Chapa puro-sangue, com o PT na cabeça, ou alianças com o PMDB?

Lula
– Trabalho sempre com a hipótese de construir aliança entre PT e PMDB, PDT e PTB. Parte importante da base do governo precisa compor nos Estados para que a gente possa ganhar e governar. É você ter um grupo de pessoas dispostas a trabalhar para destravar um país, um Estado, para que a gente possa apresentar à sociedade uma perspectiva. Dilma tem de trabalhar com a possibilidade de um grande leque de alianças para ganhar bem e governar bem.

ZH – No Rio Grande do Sul se fala na possibilidade de o PT apoiar o PMDB e que o senhor teria simpatia pela candidatura de Germano Rigotto. Qual é sua posição sobre a eleição no Estado?

Lula –
O presidente precisa tomar cuidado quando fala, senão as pessoas pegam algo como fato consumado. Trabalho com a hipótese de que o PT tenha um leque de alianças no Rio Grande do Sul. Tarso Genro está numa posição muito confortável do ponto de vista das pesquisas. É sempre muito difícil você convencer alguém que está liderando a sair para dar lugar ao segundo ou ao terceiro. Estou dizendo porque já vivi essa experiência. Quando fui ao segundo turno com Fernando Collor, em 1989, Leonel Brizola disse que a minha vitória sobre ele havia sido empate técnico. Portanto, teríamos de retirar a candidatura em favor do Mário Covas (PSDB). Eu falei: “Brizola, não tem essa de retirar a candidatura porque você não é mais candidato, você caiu fora. Segundo, se o povo quisesse votar no Covas, teria votado”. Mas ainda assim estou convencido de que é possível construir uma aliança que envolva PMDB, PDT, PTB e PC do B. Se não der certo, temos de ter maturidade de saber como vamos nos tratar no primeiro turno. Sempre há possibilidade de essa aliança se concretizar no segundo turno.

ZH – Essa posição em relação ao Rio Grande do Sul vale para todo o país? O PT está disposto a fazer sacrifícios?

Lula
– Vale para todo o país. E nem acho que seja sacrifício. Não temos o direito de não fazer sacrifício e permitir que o desejo pessoal de alguém prevaleça sobre os interesses coletivos de um partido, seja estadual ou nacional. É preciso um debate para saber o seguinte: o que nos interessa neste momento, quais os Estados que temos de disputar, em quais temos chance, que tipo de aliança poderemos fazer e o que queremos construir. Se fizermos essa discussão corretamente, fica fácil construir as alianças. É preciso construir um time que vá do goleiro ao ponta-esquerda para trabalhar junto na campanha. Essa minha concepção vale do Oiapoque ao Chuí. Mas quem decide isso são os partidos. Eu só espero que as pessoas tenham aprendido.

ZH – O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, foi ao Rio Grande do Sul e uma das missões era convencer os deputados do PDT a assinar uma CPI contra a governadora Yeda Crusius. Foi uma iniciativa isolada do ministro ou orientação de governo?

Lula
– Não existe iniciativa de governo. Aprendi a respeitar as particularidades e a autonomia de cada Estado. Quando você quer fazer uma CPI, tem de ter uma coisa muito concreta e objetiva. Não dá para fazer de cada CPI um samba do crioulo doido. É preciso um fato determinado em que você faça uma investigação. Na maioria das vezes, essas CPIs são pirotecnia e pouco resultado prático. É preciso mais seriedade. Usar CPI apenas para a disputa política não é recomendável.

ZH – Esta semana o senhor criticou a imprensa por dar tanto espaço à crise no Senado. O senhor segue apoiando o senador José Sarney ou defende o afastamento dele da presidência da Casa?

Lula
– Não critico a imprensa por conta do Senado. É pelo denuncismo desvairado que às vezes não tem retorno. Há uma prevalência da desgraça sobre as coisas boas. Talvez venda mais jornal. Eu citei um jornal quando fiz a crítica. Você tinha a volta do crescimento do emprego, cento e poucas mil vagas criadas. E a manchete era desse tamanho (faz um gesto com as duas mãos para indicar altura) sobre um emprego equivocado no Senado. Os milhares de empregos criados estavam lá embaixo, numa notícia secundária. A nação precisa de boas notícias, de autoestima, para poder vencer esse embate com a crise internacional. Sobre as denúncias no Senado, que se faça uma investigação, se apresente o resultado. Quem estiver errado deve ser punido, e mata o assunto. Todos os senadores têm mais de 35 anos de idade, portanto estão na idade adulta. Sarney já anunciou que vai investigar.

ZH – A defesa que o senhor faz de Sarney tem a ver com a eleição de 2010? A crise do Senado pode agravar a relação do governo com o PMDB?

Lula –
Não acho que algum senador vá renunciar ao mandato. Eles vão se acertar e prestar contas. A minha cabeça não trabalha pensando em 2010. Agora, tenho clareza de que nós sairemos bem em 2010 se a gente estiver bem em 2009.

ZH – O vice ideal para Dilma seria do PMDB?

Lula
– Vamos discutir isso. Veja a importância do PMDB no Brasil, um partido que tem mais vereadores, mais deputados, mais senadores, mais governadores. É um partido com um potencial muito grande. Mas não é apenas isso que credencia alguém para ser vice. Primeiro, o vice tem que ser da concordância de quem vai ser candidato a presidente. Não pode receber um vice porque é do maior partido ou do menor. Ela vai ter que dizer: “Olha, eu quero para vice Beltrano, Fulano, Sicrano”. Você não pode ter um vice que não tenha uma afinidade política, ideológica e visão de Brasil. Por isso eu agradeço a Deus pois é uma bênção um presidente encontrar um vice como José Alencar.

ZH – O senhor tem acompanhado o tratamento de saúde da ministra. Como é que ela está? Há risco de prejuízo à campanha dela?

Lula –
Por tudo que eu tenho conversado com os médicos, eu não acredito (em prejuízo). Mas doença é doença. No momento certo o médico vai dizer se parou ou não o tratamento. Dilma tem trabalhado a mesma coisa de antes. Ela não parou. Ela tem um ou dois dias por semana em que se sente mais cansada, depois da quimioterapia, então diminui um pouquinho o ritmo. Todo mundo que já teve esse tipo de câncer diz que é curável. Dilma vai ficar extraordinária, e a hora que tiver de anunciar, estará pronta para o embate. Se ela for candidata – porque depende ainda dos partidos e dela própria –, aí a partir de março ela se afasta e começa a campanha.

ZH – O ex-ministro Antonio Palocci vai para o lugar dela na Casa Civil?

Lula
– Não, não, não. Eu não posso discutir agora o que vou fazer. Mas não pretendo colocar nenhum ministro novo.

ZH – Pelo menos 14 ministros devem sair do governo até abril para concorrer nas eleições. Como o senhor pretende conduzir as substituições: com indicações políticas ou recorrendo a técnicos?

Lula
– Não vou trazer uma pessoa para chegar sem conhecer o histórico do próprio ministério, das obras, dos projetos. Desse jeito irei paralisar o governo por 10 meses. Na hora em que o ministro for sair, o secretário executivo assume.

ZH – Na oposição, o senhor e o PT criticavam muito o antecessor, Fernando Henrique Cardoso, por viajar demais. Nenhum presidente colocou o Brasil tão em evidência como o senhor nessas missões internacionais. O que mudou?

Lula
– Se pegarem meu discurso verão que eu dizia: “Ele (Fernando Henrique) tem o direito de viajar para fora, o que é lamentável é que não viaje aqui dentro”. Eu viajo muito lá fora e muito aqui dentro. É inexorável. O número de aliados que o Brasil estabeleceu nesses seis anos é muito grande. As pessoas querem ouvir o Brasil.

ZH – Qual é a utilidade desse seu trabalho no Exterior?

Lula
– O momento histórico me deu essa projeção. Levamos cinco anos para poder consolidar o Bric (sigla do grupo formado pelos grandes países emergentes: Brasil, Rússia, Índia e China) como uma instituição. Agora vamos ter a segunda reunião, no Brasil, no final do ano que vem. O Brasil está muito importante. Lembro quantas críticas recebi quando fiz a primeira viagem à África. “Mas por que na África? Não tem nada para vender na lá.” Pergunta para o ministro Miguel Jorge (de Indústria e Comércio), que voltou com uma caravana empresarial da África agora. A gente não tem o que vender é para Alemanha, Suécia, Estados Unidos, porque precisa mais valor agregado, competitividade tecnológica. Mas à África, à América Latina, a uma parte do mundo asiático, ao mundo árabe o Brasil só tem é que vender.

ZH – A sua política externa continua criticada internamente. Atribuíram ao senhor a derrota da ministra Ellen Gracie na Organização Mundial do Comércio?

Lula
– Ninguém atribuiu a mim a derrota de Ellen. Ela reconheceu, com muita gentileza, que deveria ter estudado mais. Não tenho dúvida de que ela era, do ponto de vista jurídico, a pessoa mais competente para assumir a vaga. Mas há outros critérios em que ela não foi bem. Mas ela é muito nova e não faltará oportunidade de estudar outras coisas. Nós temos um pensamento pequeno, que fica sempre achando: “Ah, não conseguiu indicar tal pessoa para tal lugar, perdeu, é derrota”. Você precisa ver que tem 300 pessoas querendo o mesmo cargo e que todo mundo pede para todo mundo. Nós agora fomos atrás da Olimpíada do Rio como jamais um presidente foi. Estou conversando com todos os presidentes. Você perde uma, você elege outra, você empata outra.

ZH – Está ainda na Comissão de Relações Exteriores do Senado a questão da entrada da Venezuela no Mercosul, prevista para o segundo semestre. O senhor acredita que vai passar? O senhor alertou a sua base para isso?

Lula
– Espero que haja maturidade no Senado e que eles votem a entrada da Venezuela no Mercosul. É só olhar o fluxo da balança comercial entre Brasil e Venezuela para se ter noção de que é importante. Não tem outro jeito. Chávez tem de se adequar às regras que já estão estabelecidas. São regras que já têm duas décadas, portanto não tem como imaginar que Chávez pode entrar e criar confusão.

ZH – Sobre as eleições do Irã, o senhor comparou os protestos a reclamações de uma torcida de futebol. O senhor se precipitou?

Lula
– Às vezes fico meio chateado acompanhando o noticiário, porque a vitória do presidente do Irã (Mahmoud Ahmadinejad) não foi pequena. Foram 62% dos votos. Ora, se houve fraude, então estabeleçam a necessidade de pedir apuração. Agora, o fato de a oposição não se conformar de ter perdido e achar que tem o direito de bagunçar o que a maioria deu, a gente não pode aceitar nem lá, nem aqui, nem em lugar nenhum. O que eu condeno no Irã? A morte, a violência. E vocês da imprensa precisam ter cuidado com o material que vem de lá, porque é feito pela oposição. Já que a imprensa internacional não está podendo participar, estão pegando o material da oposição. Fico indignado porque tudo que é no Irã, na Venezuela tem uma dimensão que não tem em outros países. Lembro quando o (George W.) Bush ganhou a primeira eleição, na Justiça. Ou seja, se fosse no Irã, se fosse na Venezuela, teria ocupado oito meses de jornal no mundo inteiro de crítica.

Confira a outra parte da entrevista:

> "Teve gente que acendeu vela para o Brasil ser afetado"

 
 
 
 
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