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“Formação da Literatura Brasileira”, de Antonio Candido, completa 50 anos de publicação

Entre as grandes contribuições de Candido, está a ideia de que a literatura de um país só existe se ela estiver vinculada a um sistema literário

24/10/2009 - 03h24min
 “Formação da Literatura Brasileira”, de Antonio Candido, completa 50 anos de publicação Guilherme Maranhão, Divulgação/
Da biblioteca de sua casa, em São Paulo, Antonio Candido interpreta o Brasil Foto: Guilherme Maranhão, Divulgação  

Há 50 anos, a história da literatura brasileira era modificada, e não apenas pelo engenho de romancistas como Guimarães Rosa, Clarice Lispector ou Jorge Amado, mas também por um crítico que, em 1959, pensou o Brasil a partir da literatura. Com a Formação da Literatura Brasileira, Antonio Candido, hoje com 91 anos, professor aposentado de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo, mostrava que é a partir dela, da literatura brasileira, que se cria uma identidade nacional. E, mesmo levantando polêmica em torno de seu método – alguns outros críticos, ao longo dos anos, insurgiram-se contra ele, como Afrânio Coutinho, Haroldo de Campos e o português Abel Barros Baptista –, Candido se firmou como o mais importante crítico literário brasileiro, acompanhando e resenhando o surgimento de autores como o poeta João Cabral de Melo Neto, autor de Morte e Vida Severina.

Entre as grandes contribuições de Candido em sua Formação da Literatura Brasileira, está a ideia de que a literatura de um país só existe se ela estiver vinculada a um sistema literário, em que autores produzem e publicam suas obras e são lidos por um público leitor, gerando tradição. Ou seja, os escritores, com a bagagem de quem leu seus pares, criam suas obras na tentativa de superá-los.

Foi justamente a noção de sistema literário que causou maior estranheza no ambiente intelectual. Grande parte da crítica dirigida à teoria de Candido iria se apoiar no fato de ela abranger apenas a produção literária do Arcadismo ao Romantismo, não olhando para trás nem indo além. Segundo ele, no entanto, não havia sistema literário antes do Arcadismo – essa foi a sua justificativa para tê-lo como ponto de partida –, e o sistema poderia ser considerado plenamente constituído com o surgimento de um grande autor, Machado de Assis. A partir de então, a formação chegava ao auge.

Logo os conceitos propostos pela Formação da Literatura Brasileira passaram a funcionar como termômetro para a crítica literária, na medida em que contribuem para a avaliação das obras e ajudam a apontar quais serão os autores que passarão a fazer parte do cânone. Na visão de Candido, esses autores colaboraram para pensar a sociedade a partir da literatura – afinal, sociedade e literatura são esferas que se complementam.

> Entrevista: “A literatura é uma transfiguração da realidade”, diz Candido

No ano em que completa 50 anos, a Formação da Literatura Brasileira ganha sua 12ª edição. Para assinalar esse aniversário, Zero Hora reuniu os professores de Literatura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Luís Augusto Fischer e Homero Vizeu Araújo e os doutorandos Marcelo Frizon e Ian Alexander, estudiosos da obra de Candido, para elaborar perguntas ao crítico e fazer comentários sobre sua principal obra. Candido aceitou o convite de ZH e, nestas quatro páginas, relembra ideias propostas em 1959 e faz uma análise sobre seu texto mais célebre, além de refletir, mais uma vez, sobre as relações entre literatura e sociedade. As perguntas, enviadas por e-mail, foram respondidas por Candido em sua máquina de escrever. E, ao redor dos livros que compõem sua biblioteca, ele posou para as fotos que completam esta reportagem.

Luís Augusto Fischer, professor da UFRGS e escritor, comenta:

“Cinquenta anos depois, este livro continua eloquente. É uma história da literatura brasileira muito bem escrita. É a primeira escrita autoconscientemente. Ou seja, é uma história que não é escrita como eram feitas as histórias habituais até então, que eram uma espécie de descrição de um acúmulo de dados, embora todas tivessem algum grau de reflexão científica. A do Candido é a primeira com uma meia dúzia de conceitos muito fortes, muito significativos. Isso faz diferença”

Marcelo Frizon, doutorando da UFRGS, comenta:

“A Formação tem um argumento bem montado porque trabalha com conceitos muito claros, mas que não foram muito bem recebidos na época. Pelo menos não unanimemente. Essa ideia de identificar o que é um sistema literário e, a partir disso, explicar a história da literatura me parece a grande chave de leitura, de interpretação, numa tentativa de explicação do fenômeno literário no Brasil.”

Ian Alexander, doutorando da UFRGS, comenta:

“O que mantém este livro atual é que ele oferece uma maneira de pensar a literatura em relação à sociedade, é uma maneira inteligente de fazer essa ligação, que pode continuar a ser aplicada mesmo com todas as mudanças na sociedade. É possível filtrar certas coisas que são características daquele momento, daquele lugar. Mas a maneira de pensar sociedade e literatura continua muito útil.”

 Marcelo Frizon comenta:

“Machado é um fantasma na Formação, porque Candido não o aborda. Machado é o ponto de chegada desta obra porque soube rejeitar os erros e aproveitar os acertos de seus antecessores para construir uma obra superior.”

 
 
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