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UFRGS, 75 anos de sonhos e projetos

Conheça histórias que começaram a se concretizar nos corredores da universidade

28/11/2009 - 03h41min
UFRGS, 75 anos de sonhos e projetos Genaro Joner/
Instituição foi fundada em 28 de novembro de 1934. Na foto, vista aérea do Campus Centro Foto: Genaro Joner  
Embora a história da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) comece em 1895, com a fundação da Escola de Farmácia, foi em 28 de novembro de 1934 que foi criada a Universidade de Porto Alegre, congregando alguns cursos. Federalizada em 1950, assumiu a atual denominação. Hoje ela completa 75 anos. Ao longo do percurso, passaram pelas salas de aula jovens que posteriormente seriam incluídos na relação das mais influentes personalidades gaúchas.

Além de profissionais talentosos e reconhecidos em suas áreas, surgiram nos campi da universidade ideias que facilitaram a vida das pessoas. Nos pátios, flertes se transformaram em uniões, projetos de vida foram traçados e artistas iniciaram o estrelato. Zero Hora resgata alguns sonhos que começaram a se concretizar nos corredores da UFRGS.

Veja o documentário produzido por estudantes de comunicação da universidade:


1931 — O Hospital de Clínicas

Apresentado por José Heoker em 12 de dezembro de 1906, um trabalho de conclusão do curso de Medicina é interpretado atualmente como a mais antiga referência à criação de um hospital universitário em Porto Alegre. Ao escrever a monografia Crítica e Saneamento do Hospital da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, o então formando relatava que a já centenária casa de saúde não tinha condições de servir a atividades de ensino e pesquisa aos alunos da Faculdade de Medicina.

— Ele fez uma detalhada análise da Santa Casa, sob padrões europeus da época. Fica claro, nesse trabalho, o sonho de ter um hospital próprio — analisa o professor da Faculdade de Medicina da UFRGS Waldomiro Carlos Manfroi, que em 1971 participou da discussão do estatuto do Hospital de Clínicas, que nasceu ligado à universidade.

Referência estadual em ensino, pesquisa e atendimento em saúde, com cerca de 60 especialidades médicas, o Clínicas dos anos 2000 deixou para trás a trajetória de dificuldades que antecederam sua inauguração. Em 1931, o então presidente Getúlio Vargas autorizou a construção de um hospital universitário, mas a pedra fundamental da obra só foi lançada em 1943.

O início da obra, porém, foi retardado por vários problemas e restrições de recursos. Em uma das ocasiões, um erro no projeto levou à demolição de parte da estrutura, que estava em fase inicial. Os trabalhos atravessaram as décadas de 40, 50 e 60. Em 1971, foi iniciado o atendimento médico, ainda com o prédio inacabado.

— Hoje, é uma satisfação muito grande ver o hospital funcionando, era algo inimaginável no passado — conta o professor Manfroi.

1961 — O BRDE

Descontente com a concentração de investimentos do governo de Juscelino Kubitschek no eixo Rio-São Paulo, o então governador gaúcho Leonel Brizola decidiu em 1959 criar um banco para fomentar a economia do Estado. A alternativa foi buscar o apoio dos grandes nomes da área econômica gaúcha, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Por solicitação do governador, o então diretor da Faculdade de Ciências Econômicas, professor Pery Pinto Diniz, estruturou a proposta, que se concretizaria em 15 de junho de 1961 com a criação do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE). Comandado pelos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, o banco foi a primeira autarquia interestadual brasileira.

— Como condição para organizar o banco, Pery fez o Brizola se comprometer que o quadro não seria preenchido por indicação política, mas sim por critérios técnicos. Assim, os primeiros funcionários saíram de dentro da universidade — afirmou o professor titular da Faculdade de Ciências Econômicas Pedro Fonseca, autor do livro Da Hegemonia à Crise do Desenvolvimento: A História do BRDE.

Pery foi nomeado o primeiro diretor-presidente do BRDE. A história do banco se entrelaça com a da UFRGS ao longo de toda a sua trajetória. Conforme Fonseca, nos anos iniciais, professores atuaram no banco. Posteriormente, funcionários da instituição passaram a fazer concurso público para trabalhar na universidade. Um exemplo de envolvimento com as duas instituições é Guilherme Socias Villela, que chegou a eleger-se prefeito de Porto Alegre.

Com quase 50 anos de história, o BRDE tem números expressivos. Já financiou mais de US$ 17,8 bilhões, distribuídos entre mais de 80 mil projetos. O banco estima que esse montante resultou na geração e manutenção de 1,3 milhão de postos de trabalho e adicional de arrecadação para os três Estados de mais de US$ 4,7 bilhões.

1978 — O primeiro modem fabricado no Brasil

Alçado a um dos principais centros tecnológicos do país, o Rio Grande do Sul deve muito ao pioneirismo da UFRGS na área de tecnologia da informação (TI). Dos corredores da universidade brotaram ideias que facilitaram a comunicação entre as pessoas, como o primeiro modem para canal de voz telefônico (aparelho conversor de sinais) lançado em 1978 pelo professor Jurgen Rochol em parceria com a empresa Parks. O produto foi amplamente utilizado pela Embratel.

Embora o Instituto de Informática tenha sido fundado apenas em 1989, a TI faz parte do cotidiano da universidade desde 1968, quando foi criada a Divisão Acadêmica do Centro de Processamento de Dados, que posteriormente passou a se chamar Departamento de Informática.

– Fomos pioneiros, com os primeiros casos de sucesso de empresas que se consolidaram no mercado – avalia o professor Luís Lamb, atual vice-diretor do Instituto de Informática da UFRGS.

Na história da internet também se destaca o ano de 1987, quando foi criada por ex-alunos a Nutec, empresa de software que posteriormente deu origem ao Zaz, um dos pioneiros em serviços de internet no país.

1985 — O Engenheiros do Hawaii

Uma greve na UFRGS deu origem a uma das grandes histórias de sucesso do rock brasileiro. Por causa da paralisação, as aulas de 1984 entraram 1985 adentro. Presos na Capital calorenta em pleno janeiro, estudantes da Faculdade de Arquitetura realizaram uma espécie de festival para sacudir a modorra do verão. A ideia era que cada um apresentasse aos colegas seus dotes artísticos. Quatro estudantes se reuniram, ensaiaram um punhado de canções e subiram ao palco do auditório da faculdade para o que pensavam ser a primeira e única apresentação da banda, em 11 de janeiro de 1985. Era o nascimento dos Engenheiros do Hawaii.

Humberto Gessinger – que integrava a formação original com Carlos Maltz, Marcelo Pitz e Carlos Stein – conta que o ambiente da universidade foi decisivo para a criação dos Engenheiros.

– Estudei a vida inteira no mesmo colégio, onde era tudo muito homogêneo. A UFRGS foi a oportunidade de entrar em contato com gente muito diversa. Os Engenheiros refletem muito esse espírito rico da universidade – diz.

O nome também é consequência da vida acadêmica. Gessinger conta que havia na época uma implicância bem-humorada entre estudantes de Arquitetura e de Engenharia. Para ironizar os colegas da outra faculdade, que apareciam com pinta de surfista no bar da Arquitetura, surgiu a ideia.

2005 — A obra de Altair Martins

Uma das obras mais celebradas da recente literatura brasileira é uma dissertação da UFRGS. O romance A Parede no Escuro, de Altair Martins, foi escrito como trabalho de mestrado do autor e ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura, de R$ 200 mil, o maior em valor no país.

Martins é um exemplo perfeito do dedo da universidade na produção literária no Estado. Suas tentativas inaugurais como escritor ocorreram nos anos 90, quando frequentava a faculdade de Letras e se sentiu estimulado pelas leituras indicadas pelos mestres. A primeira vez que viu um texto seu impresso foi também na UFRGS: o conto Tem um Palhaço Sorrindo, escrito especialmente para um fanzine e depois incluído no livro de estreia do autor. Em 2005, Martins fez uma proposta pouco usual: apresentou como projeto para o mestrado em Letras uma ideia de romance:

– Eu queria usar a universidade para resolver os problemas de construção do livro.

Como trabalho de conclusão, apresentou A Parede no Escuro e uma dissertação que justificava as opções e esmiuçava o processo de composição. Quer fazer o mesmo com o dourado, em um livro de contos.
 
 
 
 
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