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Padre Fábio de Melo: "Aprendi a amar a cultura gaúcha"

Religioso faz show nesta quarta-feira no Ginásio Gigantinho

16/12/2009 | 07h23
Padre Fábio de Melo: "Aprendi a amar a cultura gaúcha" Robson Siqueira, Divulgação /
A base do repertório do show será o DVD "Eu e o Tempo", mas estão previstas canções natalinas e algumas faixas do recém-lançado CD "Iluminar" Foto: Robson Siqueira, Divulgação
Um fenômeno musical canta hoje no Ginásio Gigantinho. Com 500 mil CDs vendidos em 2008 e mais de 2 milhões em toda a carreira — marca excepcional em tempos de pirataria — , o Padre Fábio de Melo apresenta a partir das 21h o seu Especial Natalino, em uma promoção do Diário Gaúcho e da Rádio Farroupilha.

A base do repertório será o DVD Eu e o Tempo, mas estão previstas canções natalinas e algumas faixas do recém-lançado CD Iluminar. Está programada a participação especial dos músicos gaúchos Rodrigo Grecco e Maninho, parceiros do religioso mineiro. Ainda se recuperando de uma amigdalite, o padre fez questão de conceder entrevista por email.

Confira a íntegra da entrevista com o Padre Fábio de Melo:

Zero Hora — No teu site, falaste sobre teu passado reafirmando a importância que as lembranças têm na formação de uma pessoa, nos modelos que ela elabora para a vida. Que tipo de memória musical trazes da tua infância? Chegaste a cantar em algum coral? Demonstraste o talento de cantar precocemente?

Padre Fábio de Melo — Minha memória musical é antiga. Eu já nasci ao som da música do Roberto Carlos, "Jesus Cristo", cantada pelo médico que fez o parto. Comecei a cantar ainda na infância. A arte sempre fez parte do meu contexto. Minha mãe trabalhava cantando. Ela tem bom gosto musical. Lavava roupa cantando Lupicínio Rodrigues, Dalva de Oliveira. Ela me fez gostar de música. Quando entrei para o Seminário isso foi muito valorizado pelo reitor. Ele me ajudou a descobrir os caminhos.

Zero Hora — Ainda sobre a formação musical que tiveste. Como religioso, dás muita importância às palavras. Quando eras pequeno, prestavas atenção às letras? Quem era teu letrista preferido? Lembras de alguma música que tenha mudado a tua vida?

Padre Fábio de Melo — A palavra sempre teve muita importância para mim. É nela que os significados moram. São muitas músicas que marcaram a minha vida. Recordo-me do quanto fiquei emocionado ao ouvir pela primeira vez "Resposta ao tempo", composta por Cristovão Bastos e Aldir Blanc e cantada por Nana Caymmi.

Zero Hora — De que maneira a música se tornou uma ferramenta tua na tarefa de pregar? Quando começaste a cantar? Qual foi a reação dos fieis?

Padre Fábio de Melo — Eu é que sou ferramenta da música. Ela é muito maior do que eu. Eu me rendo à ela. Deixo que ela aconteça em mim. Como padre faço o que devo fazer: evangelizo. A música sempre fez parte do contexto das religiões. Não há rito sem música. Não fiz nada de novo. Já tivemos padres cantores que fizeram e fazem trabalhos importantes na Igreja do Brasil. Padre Zezinho é um exemplo.

Zero Hora — No teu site, descreve a arte como algo que pacifica, que indica caminhos. Isso é uma responsabilidade muito grande. Como enfrentas esse desafio? Quando te dispões a escrever uma letra, pensas na repercussão que ela pode ter na vida de quem a ouve?

Padre Fábio de Melo — Com certeza. A fidelidade do meu público me reporta a uma fidelidade ainda maior. Preciso ter cuidado com tudo o que componho. A música que faço nasce do evangelho que creio. Minhas palavras se desdobram das palavras de Jesus. Às vezes é simbiose.

De maneira aproximada, comparaste a importância da música na nossa vida à importância que uma trilha sonora tem para um desenho animado. Ou seja: a música pontua momentos da vida, se afina com os sentimentos que a pessoa tem.

Zero Hora — Nesse sentido, como vês músicas como o rap, que registra de forma crua a realidade, ou gêneros claramente identificados com o entretenimento e que não pretendem maiores reflexões?

Padre Fábio de Melo — Música é sempre música. Se alguém compõe é porque há alguém que quer escutar. Não sou preconceituoso, mas tenho muito receio quando vejo a cultura de massa produzir e consumir o grotesco. Há raps muito bons. Letras boas, inteligentes. Eu, particularmente, sou seletivo. Só escuto o que me faz bem.

Zero Hora — És mais letrista? Vi que fazes algumas melodias também. Onde buscas inspiração para as letras? Falaste que parte da inspiração vem do que tu ouves ou ficas sabendo, na condição de "ladrão bem-intencionado". É assim que surgiu "Jesus, meu Deus Humano"? A letra é muito original porque lida com o amor por Deus e o amor mais terreno.

Padre Fábio de Melo — Escrevo e componho. O cotidiano é o lugar da minha inspiração. Não tenho uma vida especial. Sou homem comum. É no ordinário dos meus dias que encontro a matéria prima da minha arte. Sou padre, e por isso tenho contato com os bastidores do mundo. Nesses bastidores eu encontro muita coisa bonita. Histórias humanas que me afetam, que me inspiram. A música a que você se refere nasceu de uma dor muito concreta. Perdi um grande amigo, vítima de câncer. Fazer uma música para ele é um jeito que tenho de fazê-lo continuar no mundo.

Zero Hora — Com mais de 700 mil cópias vendidas, o álbum Vida foi o disco mais vendido no Brasil em 2008. Em época de pirataria, é uma marca impressionante. A que atribuis isso? Teus fãs, pelo jeito, recusam música pirateada.

Padre Fábio de Melo — O público que tenho é muito fiel. Desde que comecei a trabalhar com música e depois me enveredei pela literatura eu percebi isso. Eles sabem que eu vou fazer alguma coisa e fazem questão de prestigiar. Acho que o resultado desse sucesso passa o tempo todo por essa fidelidade.

Zero Hora — Como foi a experiência de gravar com nomes consagrados como Roupa Nova, Elba Ramalho, Zezé Di Camargo & Luciano? A presença deles é uma estratégia para conseguir abranger ainda mais o alcance da tua mensagem?

Padre Fábio de Melo — Foi uma experiência interessante, pois tenho muito respeito pelo trabalho artístico deles. São todos artistas que admiro muito. É a primeira vez que convido participações seculares. Gostei muito do resultado final.

Zero Hora — Com quem gostarias de cantar ainda? Algum sonho de consumo?

Padre Fábio de Melo — Não sei. Vivo o sonho de cada dia. Há muitos cantores que admiro. Há compositores também. É melhor esperar.

Zero Hora — Vários tipos de igrejas usam a música como ferramenta para arrebanhar fieis. Fenômenos musicais de massa como tu e o Padre Marcelo Rossi de alguma maneira recuperam terreno para a Igreja Católica. Como vês essa questão?

Padre Fábio de Melo — É uma questão simples. A natureza da música é religiosa. Ela ata as pontas do coração humano ao Sagrado. Não vejo a música como instrumento de "cruzada". Não quero recuperar terreno. Quero apenas propor um mundo melhor. Quero propor a vida de Jesus como modelo para a humanidade. Quero entrar nas casas das pessoas através dela. Isso é fabuloso. Ela nos permite chegar longe. Ela nos permite viajar pelo mundo dos outros, sem tirar os pés de nossos lugares.

Um exemplo? Nunca morei no Rio Grande do Sul, mas aprendi a amar a cultura de vocês. Quando era menino li toda a obra de Erico Verissimo. Desbravando aquelas páginas eu andei pelos pampas, tomei chimarrão e conheci Ana Terra, uma das personagens mais ricas da nossa literatura. A obra de Veríssimo tornou-se parte de mim. Isso é uma experiência religiosa. É nisso que acreditamos. Uma música tem o poder de nos fazer pensar, sentir. É a força da linguagem simbólica. É o impacto da beleza e seu desdobramento ético. A gente fica melhor depois que a beleza do mundo nos atinge. Foi o que aconteceu comigo depois que ouvi pela primeira vez os versos sensíveis e inteligentes do poeta e compositor gaucho, Jairo Fernandes, o Lambari. "Meus olhos teimam em beber distâncias. Na busca antiga de varar caminhos. Onde as porteiras não limitam sonhos. Nem são cativos os que são sozinhos." O poeta sabe das coisas. Eu faço questão de aprender.

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