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Lítio pode ser o segredo da luta contra o Alzheimer

A velocidade e a agressividade com que a doença compromete a capacidade cognitiva impressionam

Por: Carlos Etchichury
26/12/2010 - 18h10min
Lítio pode ser o segredo da luta contra o Alzheimer Robero Vinícius/
O Alzheimer é um distúrbio cerebral progressivo, que leva à destruição das células do cérebro Foto: Robero Vinícius  

Aos 65 anos, a aposentada Marilaine da Luz elaborou uma maratona mental diária que envolve navegar pela internet, ler jornais, desafiar palavras cruzadas e espantar a solidão conversando com familiares e amigos. A estratégia de exercitar o cérebro se iniciou há cinco anos, quando dona Ilsa, mãe de Marilaine, hoje com 79 anos, foi diagnosticada com Alzheimer.

Como a maioria das pessoas que têm familiares com a enfermidade, Marilaine teme desenvolver a doença degenerativa, progressiva e incurável.

— Sinto medo e fico estressada só de pensar nessa doença. Já pensou esquecer de tudo? Se tivesse um remédio eficiente para prevenir, eu me atiraria de cabeça nele.

A droga sonhada por Marilaine ainda não existe. Mas talvez esteja próximo de ser encontrada. Uma pesquisa inédita, coordenada pelos professores Wagner Farid Gattaz e Orestes Forlenza, do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) indica que doses de lítio (empregado no tratamento de pacientes com transtorno bipolar) podem prevenir o surgimento da doença.

Com Gattaz e Forlenza à frente, pesquisadores do IPq aplicaram lítio em cerca de 200 voluntários com idade igual ou superior a 65 anos, sem diagnóstico de nenhum tipo de demência, mas que apresentavam transtornos cognitivos leves. Trata-se de um público-alvo de alto risco porque, embora saudáveis, em um ano é provável que entre 10% e 15% dos idosos com esse perfil demonstrem sintomas de Alzheimer. Os resultados obtidos são considerados auspiciosos.

— Dos que usaram lítio, 18% desenvolveram Alzheimer após um ano. Dos que tomaram placebo, o dobro foi diagnosticado com Alzheimer — diz Gattaz, presidente do Conselho Diretor do Instituto de Psiquiatria.

De acordo com o pesquisador, há dois fatores que contribuem para a morte acelerada de neurônios na doença de Alzheimer: a deposição de placas de um peptídeo chamado beta-amiloide, que acarreta a morte neuronal, e a hiperfosforilação da proteína tau, que leva a uma perda de sustentação do esqueleto celular. A enzima GSK contribui para esses dois mecanismos. Assim, supõe Gattaz, a inibição da GSK por meio do lítio pode prevenir as lesões neuropatológicas da doença O trabalho deverá ser publicado nas próximas edições da revista científica British Journal of Psychiatry.

Embora seja um passo importante em direção à prevenção, as perspectivas para o tratamento dos sintomas ou mesmo da cura da doença ainda estão distantes — para desilusão de Marilaine e dos familiares dos cerca de 1,2 milhões portadores de Alzheimer apenas no Brasil. A velocidade e a agressividade com que a doença compromete a capacidade cognitiva impressionam.

— Em três anos, pacientes submetidos a tratamento apresentarão os mesmo sintomas daqueles que não são medicados — afirma a Gattaz.

Alheia aos avanços da medicina, Marilaine dedica-se a ministrar doses diárias de carinho à mãe — o mais eficaz "remédio" descoberto, até hoje, para amenizar

o sofrimento dos que vão e a dor dos que ficam.

— Minha mãe fez tudo por nós. Agora, estou retribuindo e fazendo tudo por ela — diz Marilaine, que desfruta de cada detalhe dos momentos de lucidez de dona Ilsa, hoje residindo em uma clínica especializada.

O que é Azheimer

Doença de Alzheimer é um distúrbio cerebral progressivo, que leva à destruição das células do cérebro, à perda de memória e a outras funções cerebrais. A doença geralmente se desenvolve lenta e gradualmente, piora à medida que mais células cerebrais morrem. Em última instância, a doença de Alzheimer é fatal e, atualmente, não existe cura.

Os sintomas

O sintoma inicial mais comum é a dificuldade de lembrar as informações aprendidas recentemente. Com o avanço da doença, surgem sintomas cada vez mais graves como desorientação, alterações de comportamento, confusão sobre eventos, hora e local, suspeitas infundadas sobre a família, amigos e cuidadores profissionais. A perda de memória se acentua e surgem dificuldades para falar, engolir e andar.

As causas

Enquanto os cientistas sabem que a doença de Alzheimer envolve a progressiva falência dos neurônios, a razão pela qual as células a doença se instala ainda não não está clara. Como em outras patologias crônicas, especialistas acreditam que o Alzheimer se desenvolve como um resultado complexo de múltiplos fatores, em vez de uma causa primordial. A idade e a genética têm sido identificados como fatores de risco, mas não os únicos. A descoberta de fatores de risco adicionais deverá ajudar a explicar o porquê de o Alzheimer se desenvolver em algumas pessoas e não outras.

Descobertas recentes

— Pesquisadores identificaram um gene que provavelmente aumenta o risco de Alzheimer de início tardio. O MTHFD1L está no cromossomo 6, e sua alteração foi identificada em 2.269 pessoas com Alzheimer. Indivíduos com mutação nesse gene teriam o dobro de riscos de desenvolver a doença.

— Uma pesquisa publicada no Archives of Neurology, desenvolvida no Medical Center da Universidade de Columbia, em Nova York (EUA), faz uma relação com a dieta. Cientistas descobriram que os participantes adultos que incluíam mais frutos oleaginosos, peixe, aves, frutas e verduras em sua alimentação, diminuindo a quantidade de laticínios gordurosos, carne vermelha e manteiga, apresentavam risco menor de sofrer de demência. O segredo pode estar em nutrientes como ômega 3, vitamina E e ácido fólico.

— Cientistas japoneses publicaram um estudo no periódico online especializado The Faseb Journal, anunciando a descoberta de uma nova ferramenta que poderá revolucionar o diagnóstico da doença. O exame mede o nível da proteína beta- amiloide no fluido espinhal do paciente. Quanto maior a presença da substância, maior a probabilidade de o indivíduo ser portador de Alzheimer.

10 sinais do Alzheimer

1) A perda de memória que perturba a vida diária

2) Desafios no planejamento ou resolver problemas

3) Dificuldade em completar tarefas familiares, no trabalho ou em lazer

4) Confusão com o tempo ou lugar

5) Problemas para compreensão visual

6) Problemas para falar ou escrever

7) Trocar o lugar das coisas

8) Dificuldades para tomar decisão

9) Ausência de atividades sociais

10) Alterações de humor e de personalidade

FONTE:

Site alz.org da Associação Nacional de Alzheimer (EUA)

 
 
 
 
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