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Qualidade de vida

Saiba mais sobre a distimia, transtorno psiquiátrico crônico que abala a vida social

Problema atinge neurotransmissores em regiões do cérebro que comandam o humor e se confunde com a depressão, o que dificulta o diagnóstico

13/02/2012 | 12h33
Saiba mais sobre a distimia, transtorno psiquiátrico crônico que abala a vida social Felix atsoram/Stock.Xchng
Tratamento combina psicoterapia e antidepressivos Foto: Felix atsoram / Stock.Xchng

Se chove, é ruim. Se faz sol, pior ainda. Para o distímico, nada é bom o suficiente e, com certeza, piorará, como se ele fosse uma vítima eterna da Lei de Murphy. Ou, como manifesta Hardy Har Har, a hiena ranzinza de desenho animado, aquela que vive resmungando "Oh dia, oh céu, oh vida, oh azar!". Brincadeiras à parte, o fato é que a maioria não sabe que tem a doença por achar que a característica faz parte da sua personalidade — o que dificulta muito a sua aceitação e, principalmente, a iniciativa de buscar ajuda.

Transtorno psiquiátrico crônico, a distimia pode vir desde a infância e se estender por toda a vida, prejudicando bastante a qualidade de vida de quem a possui e a dos que estão ao seu redor. Como se carregasse um grande peso, o portador do transtorno, que atinge mais de 3% da população mundial segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) — diferentes estudos mostram uma prevalência entre 2,9 e 6,3% da população — acaba tornando a convivência com os mais próximos atribulada e pouco prazerosa. No depoimento abaixo, uma dona de casa de 70 anos revela como é conviver com a distimia do marido, de 72 anos, que começou a se manifestar há cinco anos. Prova de que é possível alguém "tornar-se" distímico em uma determinada etapa da vida:

— Ele sempre foi comunicativo, feliz, gostava da companhia das pessoas. Há cinco anos, começou a manifestar uma depressão leve, que o deixou sonolento, sem ânimo. Parou de conversar com as pessoas e largou o nosso grupo de canastra, enfim, tornou-se uma pessoa diferente. E não aceita de jeito nenhum, diz que o jeito dele é assim e pronto, ficando brabo com quem tenta ajudar. Esses dias veio um amigo dele convidá-lo de novo para jogar e ele disse que ia pensar em voltar. Eu sinto que vou acabar sofrendo junto.

De acordo com o psiquiatra Flávio Milman Shansis, a patologia não impede alguém de viver socialmente, trabalhar ou ter amigos. Entretanto, o portador do transtorno deve ficar atento, pois as consequências a longo prazo do não tratamento podem ser muito sérias, em especial com repercussões sobre a qualidade de vida de seus portadores.

— Os pacientes relatam que é como viver com um freio de mão puxado, que os impedissem de serem completamente felizes — diz Shansis.

Variável da depressão

Por causa do problema, muitos se isolam, usam álcool e outras drogas, enquanto poderiam estar bem se fizessem o uso combinado de medicamentos e psicoterapia. Aliás, as doses de antidepressivos para a distimia devem ser sempre mais altas do que para a depressão e o tempo de resposta das medicacões que para depressão é de quatro a seis semanas, pode levar de dois a três meses.

Segundo a psiquiatra Ana Paula Filippon, como no início a distimia é uma variável da depressão, com sintomas mais leves e mais prolongados, o diagnóstico preciso costuma ser feito depois que o problema está instalado, sendo que o paciente tem dificuldade para determinar quando seu problema começou.

Quando sente que a patologia está realmente prejudicando sua vida, o indivíduo procura ajuda, o primeiro passo para começar a melhorar.

— O diagnóstico da distimia requer que estas alterações estejam presentes pelo período mínimo de dois anos em adultos e um ano em crianças e adolescentes e causem sofrimento — coloca Ana Paula.

A psiquiatra Ângela Paludo diz que entre as causas da doenças estão a suscetibilidade genética, alterações neuroquímicas, traumas, situações de estresse e circunstâncias sociais, entre outras, com uma tendência a ocorrer mais frequentemente em mulheres e podendo afetar também crianças e adolescentes:

— Para esses, os problemas parecem mais difíceis de serem resolvidos e causam muito sofrimento, o que piora ainda mais o quadro. Esses sintomas, ocorrendo de forma crônica, tendem a deixar o cérebro mais sensível ao estresse, aumentando a vulnerabilidade a um episódio depressivo.

Psicoterapia e antidepressivos

Não há dúvidas de que a combinação de psicoterapia e antidepressivos é tratamento ideal para aliviar os sintomas da distimia, problema que atinge uma série de neurotransmissores em regiões do cérebro que comandam o humor, como o sistema límbico, o hipotálamo e o lobo frontal. Eles ajudam a restabelecer o equilíbrio da serotonina e noradrenalina.

— Houve uma época que a distimia era tratada apenas com psicoterapia. Hoje, discute-se uma nova denominação para a doença, que deve vir a se chamar transtorno depressivo crônico, e se ela pode estar associada com transtorno bipolar. Isso melhorará o diagnóstico — diz a psiquiatra Juliana Tramontina.

Quanto ao tratamento psicoterápico, há estudos animadores com o uso da técnica cognitivo-comportamental e psicoterapia de orientação analítica, uma derivação da psicanálise freudiana.

De acordo com Ângela Paludo, a psicoterapia ajuda o paciente a entender melhor a doença.

— Como o paciente tem dificuldade de aceitar sua condição, indicamos livros para que ele entenda que não é o único — finaliza Juliana.

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