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Transporte público

Vandalismo marcou protesto em Porto Alegre contra a tarifa de ônibus

Impulsionados por atos em São Paulo, manifestantes voltaram às ruas da Capital nesta quinta

14/06/2013 | 01h35
Vandalismo marcou protesto em Porto Alegre contra a tarifa de ônibus Ricardo Duarte/Agencia RBS
Noite teve fachadas depredadas, agências bancárias atingidas, contêineres destruídos e 23 prisões Foto: Ricardo Duarte / Agencia RBS

Mesmo com o valor das passagens de ônibus reduzido após manifestações de rua, outra passeata contra o reajuste de tarifas foi convocada para esta quinta-feira, e terminou em quebra-quebra, em Porto Alegre. Em um protesto que começou de forma pacífica em frente à prefeitura e se radicalizou noite adentro, contêineres foram incendiados, bancos quebrados e veículos depredados.Vinte e três manifestantes foram detidos — 18 homens e cinco mulheres.

Os ativistas não se contentaram com a redução da passagem de R$ 3,05 para R$ 2,85 em abril, após passeatas semelhantes à desta quinta, ocorridas em março. A causa agora tinha mais uma motivação: solidariedade aos manifestantes cariocas e paulistas que há uma semana invadem as ruas e tentam baixar a tarifa, mimetizando o sucesso dos ativistas gaúchos. Só que os porto-alegrenses reprisaram aqui a depredação registrada em Rio e São Paulo. Ecoa também uma onda de protestos com motivações econômicas, como a crise financeira da Europa, que sacode a juventude de Atenas a Istambul, de Barcelona a Paris, tudo alimentado pela internet e encorpado pelas imagens que rodam o planeta via redes sociais.

O protesto em Porto Alegre começou às 18h, durou cerca de quatro horas e bloqueou o trânsito nas principais vias. A manifestação foi convocada sob justificativa de tentar reduzir ainda mais o valor da passagem, já que houve isenção de tributos PIS/Cofins para as empresas de ônibus. Os manifestantes, na maioria jovens, formavam uma miscelânea: anarquistas e ativistas sociais e estudantis, mesclados a militantes de partidos de esquerda. O refrão entoado aos gritos era: "Se a passagem aumentar, a cidade vai parar".

Após saírem da prefeitura, seguiram pela Avenida Júlio de Castilhos até a rodoviária. Alguns subiram no arco da Trensurb em frente ao Mercado Público, acenderam sinalizadores, picharam a estação do trem e impediram que jornalistas registrassem os atos, ameaçando tirar-lhes os equipamentos. Bancos tiveram vidros quebrados e ônibus foram depredados, em gestos repudiados pela maioria.

— Mostra a cara! — gritava a maioria a um pequeno grupo de 20 depredadores, tentando impedir que a quebradeira virasse marca.

Não conseguiram, mas vaiaram seus colegas manifestantes. O trânsito foi bloqueado sucessivamente nas avenidas Júlio de Castilhos, Loureiro da Silva, Salgado Filho, João Pessoa e Erico Verissimo. A Brigada Militar e a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) acompanharam o trajeto, que chegou à Avenida Borges de Medeiros, trancando a circulação nos dois sentidos.

A unidade da mobilização ficou comprometida no momento em que os mascarados quebraram vidros e viraram mesas de um bar na Rua da República.

— Não se esqueçam que o protesto é contra o aumento da passagem — relembrou um manifestante.

Ao passarem em frente à sede do Tribunal de Justiça, onde a tropa de choque da BM fazia proteção, manifestantes atiraram pedras no edifício e fizeram pichações pelo caminho. Na Avenida João Pessoa, algumas pessoas atearam fogo a contêineres, bloqueando a via por cerca de uma hora.

A falta de comando entre os próprios manifestantes — muitos não queriam confusão e quebradeira — fez com que o tumulto começasse ainda internamente.

A BM estava orientada só a acompanhar o protesto, mas o contêiner queimado foi o ponto crucial para a mudança de postura da tropa de choque. Policiais identificaram manifestantes consumindo maconha e cocaína e portando objetos como soco-inglês e pedras, que vão bem além das bandeiras de partidos políticos e de diretórios estudantis. A BM reagiu com bombas de gás lacrimogêneo. Ao final do protesto, os detidos foram encaminhados a uma companhia do 9º Batalhão de Polícia Militar, na Rua José Montaury (Centro).

Dos 23 presos, pelo menos duas pessoas já eram conhecidas da polícia. Eles assinaram termos circunstanciados por dano ao patrimônio privado e público e serão investigados. A grande diferença em relação a São Paulo e Rio é que em Porto Alegre não foram registrados feridos graves. Só na capital paulista, dezenas de pessoas foram machucadas por balas de borracha, incluindo sete repórteres.

O curioso nesse episódio é que, ao contrário de outras capitais, a redução das passagens já aconteceu em Porto Alegre e acaba de receber novo apoio. Além do Tribunal de Justiça, que deu liminar garantindo o rebaixamento da tarifa, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) emitiu ontem medida cautelar reforçando a decisão. Mesmo imersos na euforia da vitória, manifestantes promoveram a quebradeira.

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