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40 anos da enchente

"A cidade cheirava a lama podre", diz fotógrafo que vivia em Tubarão em 1974

Paulo Maluche conta como cobriu a enchente e depois deixou a cidade com a família

21/03/2014 | 18h33
"A cidade cheirava a lama podre", diz fotógrafo que vivia em Tubarão em 1974 Paulo Maluche/Arquivo Pessoal
No registro de Maluche, caixões de funerária atingida pela cheia secando na rua Foto: Paulo Maluche / Arquivo Pessoal

Natural de São Francisco do Sul, eu me criei em Florianópolis e fui trabalhar em Tubarão. Eu tinha 23 anos, trabalhava na Texaco, e era técnico de lubrificação industrial. Eu era casado e tinha um filho de três anos. Nós morávamos na rua São Manoel, onde é o calçadão hoje, bem central mesmo, no terceiro andar de um prédio, ao lado do cinema.

No dia 24 aconteceu a enchente, foi um negócio muito rápido. Em menos de meia hora a água subiu 1,50 metro na rua no final da tarde. Quando já estava anoitecendo a luz deu duas piscadas, apagou e pronto, não voltou mais. Mas o único estrago que eu tive foi com o meu carro, um fusca, que estava na garagem, e ficou coberto pela água. Os estofados acabaram apodrecendo e o motor fundiu.

No dia 27, de manhã cedo a água baixou e eu saí com a máquina fotográfica. Em alguns lugares tinha lama até a altura do joelho. Andei mais no centro da cidade. Nos bairros não tinha como ir pela quantidade de lama e entulho. Em ruas de nível mais baixo a água acumulou mais.

Na verdade, não era bem barro. Era de um cinza bem clarinho, depois aquilo ficou sólido. Batendo em cima parecia talco, de tão fininho que era. E por toda a cidade tinha aquele cheiro de lama podre, de animais que morreram, cachorros, galinhas.

O que mais me chamou atenção foram as pessoas desnorteadas, que andavam de um lado para o outro. Eu estava mais tranquilo em termos de segurança, a água não tinha atingido meu apartamento. Mas 80% da cidade era de residências baixas, áreas planas. E foi em meia hora. Não deu tempo de as pessoas correrem. Teve lugares que a água subiu de três a quatro metros de altura. Não deu tempo pra nada. E as pessoas já estavam limpando nesse segundo dia.

Fiz uma foto de vários caixões na rua. Eram de uma funerária. A água veio misturada com a lama e sujou tudo. Então eles colocaram os caixões na rua para secar no sol. Depois de um mês, dois, você ia a Tubarão e ainda sentia o cheiro de podridão e via a sujeira nas ruas. Outra imagem impressionante foi dos trilhos torcidos, carros tombados e casas destruídas.

No dia 28, eu, minha esposa e meu filho pegamos uma sacola com roupas e saímos da cidade a pé, pelo meio da lama, até a BR-101, por todo aquele cenário de destruição. Tinha lugares que a lama vinha até o joelho, como se estivéssemos em um mangue. Pedimos carona para vir embora para Florianópolis, como flagelados mesmo.

>> Leia mais na página especial sobre a enchente em Tubarão

>> Veja a galeria do fotógrafo Paulo Maluche




 
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