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Amistoso entre Brasil e Alemanha

Conheça a mulher à frente das estratégias de comunicação da Alemanha na Copa

A joinvilense Elen Mary Machado, que presta consultoria para o país germânico, fala sobre a carreira, a vida pessoal e as saudades que sente do município brasileiro

07/03/2014 | 19h01
Conheça a mulher à frente das estratégias de comunicação da Alemanha na Copa Rodrigo Philipps/Agencia RBS
Foto: Rodrigo Philipps / Agencia RBS

Se há rivalidade dentro de campo, Elen Mary Machado, 45 anos, cuida para que fora dele o clima seja o mais amistoso possível. Realizando o sonho de muitos brasileiros, ela está ligada à Copa do Mundo Fifa de 2014. Mas se você pensa que as habilidades da sul-mato-grossense criada em Joinville são futebolísticas, está redondamente enganado.

Ela é craque mesmo em integrar equipes de trabalho multiculturais e fazer com que se sintam à vontade, apesar das diferenças e divergências culturais. Pela primeira vez em uma longa carreira de consultoria e gestão intercultural, Elen está assessorando a Alemanha em temas ligados à estratégia de comunicação do grupo na Copa.

Para entender como ela chegou a esse importante posto, precisamos voltar 22 anos no tempo. Formada em letras pela antiga Furj, em Joinville, ela lecionava inglês na Casa da Cultura. Um dia, seu então marido contou que havia recebido uma proposta de trabalho irrecusável na Alemanha.

Jovem, sem entender uma palavra do idioma europeu, apesar de todos os receios, ela escolheu partir. Mas lá o seu diploma de nada valia, e Elen não conseguiu emprego como graduada em nível superior.

Foram dois anos trabalhando em áreas não relacionadas à sua profissão. Primeiro, arrumando os produtos de uma verdureira. Quando aprendeu a falar alemão, passou a operar o caixa do lugar. Em seguida, se tornou assistente de locação de carros em um aeroporto.

Nessa mesma época, separou-se do marido. Sem conhecer quase ninguém no país, procurou o consulado do Brasil em uma cidade no Sul da Alemanha e deixou seu currículo para qualquer vaga que se encaixasse no seu perfil.

Talvez tenha sido um pouco de sorte ou a força do pensamento positivo, ou quem sabe ela estivesse no lugar certo, no momento certo. Mas o fato é que a primeira vaga que apareceu mudou completamente a carreira e a vida de Elen. Uma grande empresa de automóveis do Sul da Alemanha procurava uma professora brasileira para montar um currículo escolar bicultural para que os filhos dos funcionários brasileiros que estavam se mudando para a Europa conseguissem se adaptar com mais facilidade. Após esse trabalho, Elen percebeu que aquele era o caminho que deveria seguir.

– Eu me senti uma agente de sinergia.

Sem grande investimento em propaganda, apenas no popular boca a boca mesmo, Elen foi ganhando novos clientes. Em 1996, criou a Machado Intercultural – Consulting e K. Na Universidade de Jena, cursou pós-graduação em gestão intercultural nos negócios. Mais tarde, à distância, fez MBA em marketing na Fundação Getúlio Vargas, de São Paulo.

Hoje, sua empresa atende a mais de 30 clientes, sendo 90% deles do setor automobilístico e os demais, da indústria de maquinário pesado. O segredo de tanto sucesso, diz Elen, é uma fórmula que aprendeu já com o primeiro trabalho: qualidade, seriedade e discrição.

A consultoria que Elen presta segue as linhas de desenvolvimento pessoal e organizacional, com treinamentos, coaching e gestão de projetos. Ela faz workshops, por exemplo, para empresários brasileiros e alemães, de forma que aprendam a respeitar suas ideias, com base na realidade de cada país, e objetivando a sinergia de competências.

Para a Copa, entre outras atividades, ela participou da produção de um vídeo de boas-vindas da Alemanha no Brasil e assessorou a produção de um anúncio no jornal Folha de S. Paulo para o sorteio dos grupos em dezembro de 2013. Para não criar um estereótipo germânico ou brasileiro, ela garante que precisa se atualizar constantemente.

– O mundo globalizado está em ação, não posso me acomodar. Eu noto grandes diferenças toda vez que venho ao Brasil. Por isso, tenho que observar muito as pessoas e sua cultura corporativa. Não posso dizer "o brasileiro é assim" e achar que ficará assim para sempre. Cada pessoa é uma cultura, um mundo, precisa ser tratada individualmente, apesar das semelhanças que a fazem pertencem a uma coletividade. Meu trabalho é, realmente, um grande e interessante desafio.

Amor pelo Brasil

Ainda que tenha construído a vida profissional na Alemanha e visitado 41 países nos últimos anos, é inegável a paixão de Elen pelo lugar onde nasceu e foi criada. Até para facilitar o convívio familiar, ela procura trabalhos por aqui sempre que pode. A mãe, o pai e o irmão ainda vivem em Joinville. Com nostalgia e muita saudade, lembra-se das escaladas e caminhadas que fazia com o Clube Excursionista Barriga Verde.

– Sinto falta da natureza desta região, de olhar o mar de árvores, ir às praias de São Francisco do Sul. No Mato Grosso do Sul está minha alma, em Joinville está meu coração.

Em seu trabalho, Elen lida com empresas e pessoas em fase de transição e mudança. Mas é, também, um período de esperança e desenvolvimento para ambos os países. Por tudo isso, é importante que ela esteja muito equilibrada e se mantenha saudável.

Para garantir o bem-estar físico e mental, a consultora faz meditação quando levanta e antes de dormir, não come carne vermelha e procura correr com frequência. Ela viaja semanalmente, então, na mala, sempre carrega seu par de tênis, sanduíche e água. Nas poucas horas de descanso, não abre mão de uma caipirinha de vodca.

– Os brasileiros que me perdoem, mas neste sentido sou bem russa – conta, aos risos, mostrando que o bom humor não precisar ser antônimo da seriedade.

 
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