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40 anos da enchente

Dados extraviados impedem identificação das vidas que se perderam em Tubarão

Números da época indicam que até 199 pessoas morreram. Mas extravio de documentos e falta de dados dificultam a apuração sobre todas as possíveis vítimas

21/03/2014 | 17h34
Dados extraviados impedem identificação das vidas que se perderam em Tubarão  Caio Marcelo/Agencia RBS
Texto da placa afixada em escultura na praça Orlando Francalacci Foto: Caio Marcelo / Agencia RBS

Tubarão não tem dados oficiais, mas indícios das vidas que se perderam na enchente de 74. O relatório final da Superintendência Nacional de Abastecimento do Ministério da Agricultura, a extinta Sunab, documentava naquele ano a dimensão da tragédia com números imprecisos.

A soma era de 193 mortos e quatro desaparecidos em 13 municípios do Sul do Estado. Das vítimas, 78 seriam de Tubarão. Uma nota ao pé da lista alerta para a possível inconsistência "os dados são oficiosos e sujeitos a alterações".

>> O relatório de mortes da Sunab



>> Leia mais na página especial sobre a enchente de Tubarão

O historiador Amadio Vettoretti considerou no livro História de Tubarão: das origens ao século XX, publicado em 1992, o número de 199 mortos na enchente de 1974.

Ainda assim, o autor, falecido em 2011, observou que a quantidade era uma referência entre "informações desencontradas". O Arquivo Histórico de Tubarão iniciou uma nova pesquisa para apresentar até março de 2015.

Aos 74 anos, o médico Irmoto Feuerschuette, que era prefeito de Tubarão na época da catástrofe, é outra fonte que busca encontrar os nomes com registro de morte ou desaparecimento durante a enchente.

Ele vasculha em cartórios, repartições e arquivos policiais. A pesquisa tardia, segundo o ex-prefeito, pode suprir uma lacuna na história que não foi preenchida em um momento de grande transtorno e resgate de vidas. 

— Estou fazendo um esforço hercúleo. Penso que nós não chegamos a 199 mortos. Não sei se nós vamos chegar a um dado oficial, mas eu quero fazer um trabalho o mais próximo da realidade — declara Feuerschuette, que carrega consigo uma lista de 70 nomes.

Fotos e digitais dos corpos para identificação não foram mais encontradas

As limitações de comunicação e a falta de sistema de atendimento em uma cheia que pegou a cidade no meio da noite ajudaram a apagar muitos dos registros oficiais existentes, como fotos e até impressões digitais que teriam sido coletadas na época para o reconhecimento posterior dos mortos.

Em uma busca de documentos junto às polícias Civil, Militar e aos bombeiros em Tubarão e do Estado, a reportagem do Diário Catarinense obteve a resposta de que registros da época não constam mais nos arquivos regionais e que o paradeiro das informações sobre as vítimas é desconhecido.

Em reportagem do jornal O Estado sobre os dois anos da enchente, em 26 de março de 1976, uma lista com 48 nomes de mortos na tragédia, cedida pelo fórum de Tubarão, foi veiculada. A reportagem soava como um tipo de correção ao alarde da cobertura durante os dias da enchente, em que chegou a anunciar a possibilidade de 2 mil mortos.

O exagero foi comum entre os veículos da época. Levando em conta as vítimas desaparecidas e não registradas, o jornal considerou um número próximo de cem pessoas.

 
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