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Desastres naturais

Dez anos depois do Furacão Catarina, SC ainda pena para avançar na prevenção

O que melhorou foi a divulgação de informações sobre as condições meteorológicas

22/03/2014 | 15h17
Dez anos depois do Furacão Catarina, SC ainda pena para avançar na prevenção Ulisses Job/Agencia RBS
Há uma década, Furacão Catarina devastou parte do Sul de SC. Na foto, casas atingidas em Criciúma Foto: Ulisses Job / Agencia RBS

Dez anos depois do Furacão Catarina, Santa Catarina pouco evoluiu no que diz respeito ao alerta para desastres naturais. O que melhorou foi a divulgação de informações sobre as condições meteorológicas. Há um ano, as previsões – com hora marcada e prazos exatos – viraram rotina nos sites do Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia de SC (Epagri/Ciram) e da Defesa Civil. De resto, o Estado pena para avançar.

Além disso, até mesmo o tamanho do fenômeno ainda é questionado. Nos dias 27 e 28 de março de 2004, uma equipe de cinco cientistas esteve em locais atingidos pelo Catarina. Integrantes do Grupo de Estudos de Desastres Naturais (GEDN), do Departamento de Geociências da UFSC, formaram uma parceria com a Defesa Civil e fizeram estudos in loco para identificar a intensidade do fenômeno.

Dos estudos nasceu o artigo Impacto do furacão Catarina sobre a Região Sul Catarinense: monitoramento e avaliação pós-desastre. Os dados apontaram que o Catarina chegou perto de 180 km/h, alcançando o nível 2 (até 177 km/h) na escala Saffir-Simpson, que mede a velocidade do vento dos furacões. A conclusão, porém, não foi unanimidade no meio científico. Até hoje, boa parte dos meteorologistas considera que o nível foi 1, com velocidade máxima de 153 km/h. Há ainda quem não admita sequer a classificação de furacão, mantendo a concepção de ciclone.

O debate sobre o Catarina se prolongou, gerou artigos científicos, congressos e, na prática, nenhuma medida para minimizar os efeitos de um hipotético novo furacão para a população que não consegue melhorar a qualidade de suas moradias ou vive em lugares de risco, lamenta o geógrafo Emerson Vieira Marcelino, um dos autores do estudo. Ele acredita que um novo Catarina um dia pode surgir.

Os primeiros passos de evolução na área de prevenção só começaram a aparecer em 2008, quatro anos após o fenômeno arrasar as costas Sul de SC e Norte do RS. Foi só a partir deste ano – quando ocorreram grandes enchentes do Vale do Itajaí – que novas estações meteorológicas começaram a ser adquiridas. E foi só em 2011 que a Defesa Civil virou, de fato, uma secretaria de Estado, com orçamento próprio. Antes não passava de um departamento vinculado à Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania.

Imagem do furacão vista pelo satélite
Foto: Reprodução

Pouco foi feito para prevenção

Há apenas um ano foi instalada a primeira e única boia oceanográfica em águas catarinenses, que ainda não é monitorada por instituições de pesquisa locais. E só a partir de julho um radar conseguirá dar a assistência que SC precisa para prever grandes desastres naturais. Com ele, 77% do território catarinense está protegido.

– Antes só íamos lá contabilizar o prejuízo, hoje vamos formar uma cultura de autoproteção. – diz o secretário da Defesa Civil, Milton Hobus.

Mas, para alguns técnicos, a estrutura disponível atualmente não é suficiente. Para o meteorologista Leandro Puchalski, do Grupo RBS, pouco ou quase nada foi feito em relação à previsão e prevenção de fenômenos extremos.

– O radar é um instrumento de curtíssimo prazo. Se for um furacão muito forte, o raio de monitoramento só vai ter informações quando estiver quase chegando à costa. Não haverá tempo para evacuar uma cidade, por exemplo.

A pós-doutora Magaly Mendonça, coordenadora do Laboratório de Climatologia Aplicada e do Grupo de Estudos de Desastres Naturais da UFSC, acredita que a possibilidade de uma nova ocorrência acabou subestimada. Na opinião da especialista, caso ocorresse um novo furacão, o Estado estaria despreparado para enfrentá-lo, sem um plano para ser executado. Além disso, por não estar orientada, a população também seria incapaz de entender o que fazer e evacuar com rapidez das áreas de risco.

Para Magaly, os governantes estão mais envolvidos na reconstrução pós-desastres do que na prevenção. E são coniventes com a ocupação do território nas recorrentes áreas de risco.

Coordenadora da Sub-Rede Desastres Naturais, da Rede Clima, a pós-doutora em oceanografia e professora da UFSC Regina Rodrigues diz que, por ser uma área cara, o governo federal demorou para começar a liberar dinheiro para pesquisas, mas avançou quando criou o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, em 2011.

O pesquisador Carlos Frederico de Angeliz, geógrafo especialista em radar meteorológico, do Cemanden, lembra que após o Catarina o governo federal investiu na aquisição de estações pluviométricas. Hoje são aproximadamente três mil estações espalhadas pelo país. As estações estão mais concentradas em locais de ocorrência de desastres naturais como, por exemplo, o Vale do Itajaí, Minas Gerais e as regiões serranas do Rio de Janeiro e São Paulo.


Boia aquática está instalada no local onde passou o Catarina
Foto: USP/Divulgação

Boia no mar poderia ajudar na previsão

A única boia oceanográfica em águas catarinenses é também a primeira desenvolvida e fabricada totalmente no Brasil. Está ancorada a 600 quilômetros da costa de Florianópolis desde abril de 2013 – no ponto exato onde, há 10 anos, o Furacão Catarina passou em direção ao Sul do Estado. Porém, as instituições meteorológicas catarinenses ainda não têm acesso ao monitoramento dos dados atmosféricos e oceânicos captados por ela. A maior parte dos meteorologistas sequer sabe onde está equipamento.

Todos os dados obtidos via satélite são monitorados e analisados por técnicos da Universidade de São Paulo (USP), que os disponibiliza publicamente em sites internacionais. O projeto nasceu no Instituto Oceanográfico da USP. Foi lá também que o método foi aperfeiçoado. No mês que vem, a boia será trocada pelo modelo mais completo já produzido com peças novas. Mas, por enquanto, os órgãos catarinenses não passarão a acompanhá-la.

O Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia de Santa Catarina (Epagri/Ciram), por exemplo, não conseguiria aproveitar as informações. Não há um modelo numérico de previsão de trajetória de tempo e clima que seja próprio com as características do Estado. Hoje os meteorologistas do órgão usam um modelo de previsão global que vem pronto dos EUA. Para dar fim a esse impasse, pesquisadores da UFSC e do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) elaboraram um projeto para iniciar as pesquisas por aqui e disponibilizá-las aos técnicos do Ciram. A ideia é que em dois anos sejam feitos estudos para reajustar os dados com parâmetros mais regionais. O projeto foi apresentado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) na semana passada.

Para fazer a previsão, a boia precisa de um conjunto de equipamentos. Sem estrutura, a boia não faz rastreamento e atua só no trecho onde foi instalada. Coordenadora da Sub-Rede Desastres Naturais, da Rede Clima, Regina Rodrigues, diz que é muito difícil prever com muita antecedência a intensidade que um furacão vai atingir a costa, mesmo com a melhor tecnologia.

 
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