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40 anos da enchente

Notícias da catástrofe de Tubarão em 1974 eram marcadas pela imprecisão

Jornais da época diziam que seria impossível prever a quantidade de mortos

21/03/2014 | 17h19
Notícias da catástrofe de Tubarão em 1974 eram marcadas pela imprecisão Reprodução/Reprodução
Falta de informações precisas e estado de calamidade era o que noticiavam os jornais Foto: Reprodução / Reprodução

"Na realidade, nunca ninguém ficará sabendo quantos mortos fez a segunda enchente de Tubarão".

O Jornal de Santa Catarina de 28 de março de 1974, cinco dias após 90% da cidade ficar debaixo d'água, previa algo que 40 anos mais tarde segue sem a real dimensão conhecida. Os registros da imprensa na época já sinalizavam que isso aconteceria.

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Como justificativa, as reportagens apontavam a falta de acesso a alguns lugares, as vítimas soterradas entre a lama, as árvores e os pedaços de casas, corpos em diversos pontos do rio ou enterrados em valas comuns.

De fato, os catarinenses e o Brasil todo se voltaram para o Sul nos dias e até semanas seguintes ao 23 de março de 1974, cientes de que dificilmente a catástrofe viria algum dia a ser totalmente medida.

Foi a segunda grande enchente que Tubarão vivenciou — a primeira havia sido em 1928, mas com proporções menores.

A imprensa registrava que boatos desencontrados e que não mereciam crédito impediam a confirmação do número de mortos. Assim seguia o então Diário Catarinense, que pertencia aos Diários Associados de Assis Chateaubriand:

"A maioria das notícias procedentes de Tubarão com relação ao número de vítimas fatais até o momento não pode ser levada em consideração, devido a forma desencontrada com que essas notícias são divulgadas".

Esperava-se que quando o rio Tubarão voltasse ao leito normal poderia surgir a noção das vidas perdidas ou que o número exato seria confirmado após a remoção dos escombros, mas nem assim isso foi possível. Calculava-se um número elevado, centenas de mortes. Mesmo assim, as informações eram transmitidas sob forte carga emocional, conforme registrava o noticiário de capa nos dias seguintes.

No município havia 100 mil habitantes, sendo 70 mil na sede e 30 mil nos distritos. Estimava-se que 60 mil estavam desabrigados. Os corpos localizados eram fotografados e enterrados logo, depois de terem as digitais recolhidas.

A população lamentava a segunda calamidade. Naquele momento, Tubarão deixava de ser conhecida como cidade simples e pequena sulina, a Cidade Azul, para virar um lugar de flagelo, desespero, medo, fome, sede, luto.

Na edição de 28 de março, o Jornal de Santa Catarina projetava mil mortos. Não havia tempo para reconhecimento pelos familiares por causa do perigo de deterioração da cidade. Os dias seguiam com relatos de cenas desesperadoras.

Por exemplo, homens e mulheres corriam para os lugares mais altos. Lá, estavam expostos às cobras venenosas. Uma outra narra o ato insólito de 200 pessoas devorando um boi em decomposição.

Impressos faziam apelo contra turismo de tragédia

A operação de mobilização para resgate de vítimas, atendimento e proteção mobilizava o governo do Estado e federal, principalmente com a Marinha e Exército. Foi decretado um toque de recolher às 20h. Vacinar as pessoas e evitar um cenário ainda pior era a grande preocupação.

Habitantes deixaram Tubarão. Pelo menos 20 mil saíram da cidade em direção a Laguna e cidades do Rio Grande do Sul, dando ares de cidade fantasma à Cidade Azul.
Os jornais também apelavam a moradores de outras regiões para que não fizessem o caminho inverso, buscando Tubarão, Orleans e Araranguá para turismo de tragédia. As lavouras da região tiveram 70% de destruição e o conserto da estrada de ferro Dona Tereza Cristina era prioritário.

"É preciso que volte a vida e a correr no sangue da bravura do povo tubaronense", apelava o governador Colombo Salles no Diário Catarinense de 9 de abril.

Ministros vieram a Tubarão em diferentes ocasiões para acompanhar a reconstrução.

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