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Alguém freará as mortes?

Santa Maria chega a 25 assassinatos, e autoridades apontam as mesmas soluções de sempre

Com o duplo assassinato, cidade alcança a marca de quatro latrocínios, mesmo número de todo 2013

Santa Maria chega a 25 assassinatos, e autoridades apontam as mesmas soluções de sempre  Claudio Vaz/Agencia RBS
Foto: Claudio Vaz / Agencia RBS

O segundo duplo assassinato do ano em Santa Maria, ocorrido na noite de terça-feira, fez a cidade atingir a triste e assustadora marca de 25 mortes violentas. O índice foi alcançado apenas um dia depois do fim primeiro trimestre e representa quase o dobro do que foi registrado no mesmo período do ano passado. No primeiro trimestre de 2013, ocorreram 14 homicídios no município. A marca de 2014 é bem próxima da quantidade registrada em Caxias do Sul, um dos municípios mais violentos do Estado, que já tem 30 assassinatos nestes primeiros três meses de 2014.

Com os dois assassinatos de terça-feira, Santa Maria já registra quatro latrocínios (roubos com morte) em 2014. Em todo 2013, também foram registrados quatro crimes do tipo na cidade. Enquanto a população se preocupa com a violência, autoridades apresentam as mesmas soluções teóricas de sempre e muito pouco se vê de novas iniciativas práticas para resolver o problema.

Apesar de ter ocorrido pouco antes da meia-noite de terça, o crime cometido na região oeste de Santa Maria só foi descoberto cerca de sete horas depois, quando o servidor municipal João Vilnei Teixeira da Silva, marido da proprietária de uma casa de prostituição na Vila Jockey Club, chegou ao local para buscá-la.
- Cheguei de manhã e deparei com aquela cena. Ali, é um local de trabalho. Fui buscá-la, como fazia habitualmente há mais de cinco anos - contou João Vilnei.

Ao entrar na casa, ele encontrou o corpo da mulher, Maria Cecília Gabbi, 46 anos, caído no chão na sala, e do caseiro do estabelecimento, José Henrique da Silva, 47, no chão do corredor. Ambos já estavam mortos. O marido chamou a Brigada Militar, que isolou a área. Polícia Civil e perícia fizeram o levantamento do local. Além da duas mortes, uma jovem estava desaparecida, o que deixava o caso ainda mais misterioso.

Um morador das redondezas, que preferiu não ser identificado, ouviu disparos, mas não saiu para ver o que era:
- Eu estava em casa e ouvi dois disparos. O carro estava na rua, até pensei em sair e colocar pra dentro, mas preferi deixar e ver no outro dia.

E foi só depois das 8h que o crime começou a ser esclarecido, quando uma jovem foi encontrada e relatou o que havia acontecido. Segundo ela, dois homens foram ao local e fizeram programas com a jovem. Depois, um deles com um revólver ameaçou, roubou dinheiro e celulares e matou as vítimas. A dupla fugiu levando a jovem refém.

Para o delegado Carlos Alberto Dias Gonçalves, que conduz a investigação, o caso envolve latrocínio e estupro.
- Descartamos crime passional e estamos nos afastando da possibilidade de homicídio, porque um integrante da dupla tinha desavença com a proprietária do prostíbulo, mas não foi o que atirou. Além disso, segundo as testemunhas, o autor dos disparos pediu dinheiro e pegou celulares das vítimas - avalia o delegado.

No local do crime, foram recolhidas pela perícia bitucas de cigarro, digitais e pelo menos um preservativo. Os materiais serão encaminhados para exame de DNA. Análise dos projéteis encontrados nos corpos deverá apontar o calibre da arma utilizada pelo autor dos disparos. O suspeito já foi identificado pela Polícia Civil, mas nem ele, nem o comparsa foram localizados.
 
Vítimas devem ser sepultadas nesta quinta-feira

Maria Cecília será sepultada no Cemitério Jardim da Saudade, no bairro Caturrita. Ela era casada com João Vilnei há 15 anos. O casal tinha uma filha de 9 anos. Maria também era mãe de uma adolescente de 14 anos, filha de um relacionamento anterior.

José Henrique da Silva será enterrado nesta quinta-feira, às 10h30min, no mesmo cemitério. Ele era solteiro e não teve filhos. Segundo a cunhada, Deise Silva, 36 anos, ele trabalhava como caseiro há anos no local e, durante o dia, era pedreiro.
- Ele era muito tranquilo, quieto, dava-se bem com todo mundo - disse a cunhada.

COMO FOI
- Por volta das 23h da última terça-feira, dois homens chegaram à casa de prostituição na Rua Herotildes Costa, na Vila Jockey Club, bairro Juscelino Kubitschek, região oeste da cidade
- A casa, que estava fechada há cerca de um mês, reabriu naquela noite
- No local, estão a proprietária do estabelecimento, Maria Cecília Gabbi, 46 anos, o caseiro José Henrique da Silva, 47, e uma jovem que realizava programas. Em depoimento à Polícia Civil, a jovem disse que não conhecia Maria Cecília, que tinha sido indicada por outra pessoa para trabalhar na casa e que aquela era a primeira noite dela naquele estabelecimento
- A jovem teria feito programa com um dos homens, que teria durado menos de 10 minutos, e depois com o outro, que teria levado cerca de 15 minutos
- Nesse meio tempo, outros dois clientes teriam chegado à casa, dois jovens, soldados do Exército. Eles ficaram esperando a jovem terminar os programas com os dois homens
- Quando o segundo suspeito saiu do quarto, trazia a jovem sob ameaça de um revólver e pediu dinheiro a Maria Cecília, que teria entregue cerca de R$ 290 a ele. O suspeito também pegou dinheiro - cerca de R$ 190 - e um celular dos militares. Um dos soldados teria sido atingido com uma coronhada na cabeça
- Depois de pegar o dinheiro, o suspeito teria disparado contra Maria Cecília
- Os militares teriam se escondido em um banheiro
- O suspeito teria atirado outras duas vezes contra Maria Cecília - dois disparos acertaram a cabeça, e um, uma das mãos
- Nesse momento, o caseiro que estaria em outra peça, teria vindo ao local e também foi baleado na cabeça. Ele e a dona do estabelecimento morreram no local
- Os bandidos fugiram levando a jovem como refém
- Os militares viram os bandidos correndo na rua com a jovem, deixaram o local e foram para o quartel
- Os criminosos levaram a jovem por ruas da vila até um beco que fica ao lado do Parque da Jockey. No trajeto, eles ainda assaltaram um pedestre e roubaram uma mochila com roupas
- Os bandidos desceram um barranco que fica no fim do beco, atravessaram uma sanga e foram pela encosta até um matagal, onde teriam passado a noite com a jovem
- Os bandidos teriam abusado da jovem durante toda a noite (com preservativos), até que, pela manhã, o autor dos disparos teria se afastado. Ela conseguiu, então, convencer o outro a deixá-la fugir
- Por volta das 7h, o marido de Maria Cecília chegou à casa para buscá-la, deparou com os corpos e chamou a Brigada Militar. A Polícia Civil também foi acionada, assim como a perícia, que fez o levantamento do local
- Depois de fugir, a jovem foi até uma rua onde havia uma parada de ônibus, momento em que teria passado uma viatura da Brigada Militar que a resgatou e a levou até a 2ª Delegacia de Polícia Civil, por volta das 8h
- A partir dos depoimentos das vítimas, a polícia identificou o autor dos tiros. Até o fechamento desta edição, o outro ainda não havia sido identificado
- À tarde, a jovem indicou aos policiais o trajeto de cerca de um quilômetro, até um beco, que foi obrigada a fazer enquanto estava refém
- A polícia fez buscas aos suspeitos, mas eles não foram localizados, assim como a arma
* Fonte: Polícia Civil





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