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História de craque

Cristiano Ronaldo é lembrado por moradores da cidade onde nasceu

Conterrâneos do vilareijo de Madeira, em Portugal, lembram do início da carreira do astro do futebol

04/06/2014 | 02h17
Cristiano Ronaldo é lembrado por moradores da cidade onde nasceu Samuel Aranda/NYTNS
No bar ao lado de um campo de futebol, uma grande foto do jovem Ronaldo, vestindo as cores do Andorinha, ocupa a parede da entrada Foto: Samuel Aranda / NYTNS

As ruas de Madeira se torcem como cordas de alcaçuz, suas finas curvas começando no litoral e subindo os degraus desta ilha íngreme num labirinto similar às favelas do Rio de Janeiro. A lenta subida também traz um sentimento parecido ao dos barracos brasileiros: um de total isolamento, uma separação completa das áreas turísticas logo abaixo.

Esse sentimento é forte com os moradores. Em maio, na paróquia de Santo Antonio, no meio da montanha, dois homens faziam hora num modesto bar ao ar livre. Conversavam sobre o nativo mais famoso de Madeira, o astro jogador de futebol Cristiano Ronaldo. Mas não estavam revivendo um dos mágicos gols de Ronaldo pelo Real Madrid, tampouco discutindo uma de suas jogadas épicas na seleção de Portugal. Em vez disso, relembravam a época em que Ronaldo quase arruinou sua carreira profissional – antes mesmo dela começar.

Isso aconteceu muito antes de Ronaldo, de 29 anos, ser um astro do Real Madrid, o gigante espanhol que derrotou seu vizinho de cidade, o Atlético de Madrid, na final da Liga dos Campeões, em maio. Foi antes dos seis anos de Ronaldo no Manchester United, antes dele se tornar um ícone global e antes de ser nomeado capitão de sua seleção, função que retomará nessa Copa do Mundo. O momento que os homens recordavam veio quando o jogador era apenas um adolescente, contou seu padrinho, Fernão Souza, no bar. Foi quando Ronaldo ainda se agarrava ferozmente ao isolamento proporcionado por este pequeno arquipélago conhecido como Pérola do Atlântico. Foi quando ele não queria ir embora.

— Eu o ajudei a ir para Lisboa —, disse Sousa. Sousa, naturalmente, estava falando da série de transferências que trouxeram um jovem Ronaldo de seu primeiro clube, o Andorinha, a um clube madeirense maior, o Nacional, e finalmente para fora da ilha quando ele entrou na academia do Sporting Clube de Lisboa, em 1997. Ronaldo tinha 12 anos. — Ele estava pronto — , garantiu Sousa.

Sousa, ele próprio um ex-jogador do Andorinha e do Nacional, tinha contatos que facilitaram a mudança de Ronaldo. Ele se lembrou da mãe e do pai de Ronaldo apoiando a oportunidade; Ronaldo também parecia animado. — Seu filho é o seu futuro —, Sousa disse a eles.

No entanto, alguns meses após o início da primeira temporada de Ronaldo em Lisboa, Sousa ouviu que seu afilhado estava de volta à ilha. Ele não deveria estar em casa; o contrato com o Sporting permitia apenas algumas viagens por ano, e somente para visitas curtas. Sousa rapidamente dirigiu pelas ruas estreitas de Santo Antonio até a casa de Ronaldo, uma construção de telhado de zinco e três quartos para uma família de seis pessoas.

Ele descobriu que o afilhado não estava feliz, mas não entendeu por que. Ronaldo amava o futebol mais do que qualquer coisa. Em Santo Antonio, todos sabiam que ele estava sempre jogando, sempre carregando uma bola. — Faltava na escola para jogar—, contou Ludgero Castro, vizinho de longa data. —Seus livros escolares eram a bola de futebol—.

Em Lisboa, porém, Ronaldo não havia encontrado o santuário que Sousa esperava. Ronaldo sentia falta do pai, Jose Dinis, que era jardineiro (e gerente de equipamentos para o time sênior do Andorinha). Ele sentia falta da mãe, Dolores, do irmão e das duas irmãs. Ele sentia falta de perseguir sapos nas ravinas secas com seu primo. Ele sentia falta da familiaridade de viver numa vizinhança onde a maioria dos telhados é cor de laranja e ninguém precisa saber os nomes das ruas, pois toda família mora na mesma casa onde sempre morou.

Ele sentia falta de ouvir pessoas falando como ele; em Lisboa, os outros meninos na academia zombavam dele sem piedade, fazendo gozação de seu sotaque madeirense.

Ele não queria voltar ao continente. Sousa e Jose Dinis, que morreu em 2005, não sabiam o que fazer.

— Convencemos sua mãe a conversar com ele —, afirmou Sousa, balançando a cabeça. — Ele sempre escutava a mãe. Então o colocamos no carro e o levamos de volta ao aeroporto. Foi difícil, mas ele voltou —.

Sousa sorriu. — Ainda bem que ele voltou, não?— disse.

Então sorriu, reconhecendo o eufemismo. O bar onde estava era ao lado de um campo de futebol com uma grande foto de um jovem Ronaldo, vestindo as cores do Andorinha, acima da entrada. Este campo não existia quando Ronaldo era menino – seu primeiro campo ficava um pouco abaixo da colina e — nem mesmo tinha grama, apenas terra—, segundo Rui Santos, presidente do Andorinha quando Ronaldo jogava ali. Nessa ilha, porém, a presença de Ronaldo é inevitável.

No modesto aeroporto, anúncios mostrando Ronaldo recebem os passageiros que entram no terminal. Peça a um taxista pelo "tour Ronaldo" e ele o levará aos locais de infância do jogador. No bairro Quinta Falcão, região onde cresceu, o café frequentado por sua família tem fotos dele e uma de suas camisas na parede. — Ele ainda vem aqui quando está visitando —, garantiu o barman. — Ele gosta de um prato cheio de peixe português — .

Aborde uma pessoa nas ruas deste bairro e ela lhe apontará o espaço logo atrás da Casa Azul, o prédio que serve como centro comunitário. Aquele lote vazio é onde ficava a casa da infância de Ronaldo. A casa foi demolida há vários anos, e moradores oferecem diversos motivos do porquê: alguns dizem que foi porque vândalos e vagabundos teriam transformado a casa em alvo depois que Ronaldo se mudou com a família para uma área mais agradável; outros afirmam que o governo madeirense, assim como Ronaldo, temia que a casa projetasse uma imagem pobre da infância do astro.

A irmã mais velha, Elma, que opera uma loja de roupas da marca de Ronaldo na parte mais comercial de Funchal, não especificou por que a casa da família foi demolida. — Ela era pequena—, afirmou ela. — Mas era nossa casa. E agora as coisas são diferentes—.

Isso também foi um eufemismo. Hoje Ronaldo mora em Madri com sua namorada, uma modelo russa, e seu filho de 3 anos. Sua mãe mora perto dele. Sua outra irmã, Katia, é cantora. Sua renda anual, de acordo com uma recente estimativa da revista "Forbes", é de US$44 milhões.

Sem nenhuma surpresa, Ronaldo visita Funchal apenas — algumas vezes por ano—, disse Elma, e —quando vem, precisa ficar escondido—. Sempre há visitantes, pessoas que querem algo.

Recentemente, Ronaldo estava ali para celebrar a inauguração de seu museu, uma elegante galeria próxima das áreas turísticas. Todo tipo de troféu está em exposição, além de camisas, fotografias da infância do jogador e uma coleção de bolas de cada jogo de sua carreira em que Ronaldo marcou um gol.

O primo do jogador, Nuno Viveiros, comanda o museu. Dois anos mais velho do que o astro, Viveiros era o capitão do time júnior onde Ronaldo ganhou seu primeiro troféu de torneio (também exposto no museu). Questionado sobre se não seria presunçoso Ronaldo abrir um museu enquanto ainda está no auge de sua carreira, Viveiros acenou com a mão.

— Ele já tinha tantos troféus que era bom expô-los—, explicou Viveiros. —Além disso, ganhará outros e também os colocará aqui—.

Esse é um sentimento comum entre os madeirenses, que há uma crença inabalável na mágica de seu jogador favorito. Eles se lembram dos dias antes de ele se tornar um mago dos campos, os dias em que chorava após perder jogos com o Andorinha. Eles se lembram de quando seu toque com a bola sempre parecia um pouco mais suave do que os dos outros garotos.

Eles se lembram, também, da época em que ele não queria ir embora.

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