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Campo de refugiados ganha cara de cidade na Jordânia

Zaatari está virando uma cidade informal: uma metrópole repentina e cheia de gambiarras com quase 85 mil habitantes

16/07/2014 | 02h27
Campo de refugiados ganha cara de cidade na Jordânia Adam Ferguson/NYTNS
Refugiados sírios trabalham no mercado de Zaatari Foto: Adam Ferguson / NYTNS

 

Um jovem comerciante sírio parou na barbearia de Ahmad Bidawi um dia desses. A música vazava pelo ar resfriado a ventilador. Do lado de fora, naquilo que se tornou o principal centro comercial de um dos maiores campos de refugiados do mundo, operários empurravam carrinhos de mão recheados de madeira e utensílios de cozinha em meio à multidão queimada de sol parada na frente das lojas.

Não havia como a cena parecer mais distinta do caos do outro lado da fronteira, do qual Bidawi e muitos outros refugiados fugiram. A Síria fica a poucos quilômetros de distância. Do campo dá para ouvir o bombardeio. Agricultor e pau para toda a obra no país natal, Bidawi chegou aqui com a esposa e os filhos um ano atrás, para ver a filha caçula morrer no campo, vencida pelo gás lacrimogênio lançado por guardas que tentavam controlar um tumulto. Todos em Zaatari têm histórias sobre casas destruídas, familiares mortos e problemas no acampamento.

Agora, no entanto, num ritmo impressionante de se ver, Zaatari está virando uma cidade informal: uma metrópole repentina e cheia de gambiarras de quase 85 mil habitantes com o surgimento de bairros, criação de zonas nobres, economia crescente e, diante das circunstâncias, algo próximo à normalidade, embora todos desejem voltar para casa. Existe até mesmo uma agência de viagem que fornece transporte para o aeroporto e pizzarias com entrega em domicílio, com um sistema de endereçamento para os refugiados que as autoridades do campo penam para entender.

Acelerada pelo caos regional e por sírios empreendedores, a mudança ilustra a pressão civilizatória básica rumo à urbanização que acontece claramente até mesmo em locais desesperados – pessoas deixam sua marca onde quer que vivam, transformando espaços ocupados em propriedades. Ao mesmo tempo, a evolução de Zaatari aponta de forma mais ampla para toda uma nova maneira de pensar sobre uma das crises mais urgentes do planeta.

Em junho, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados informou que o número de refugiados em âmbito mundial passou dos 50 milhões, o maior desde a II Guerra Mundial, cifra elevada de forma substancial pelo conflito sírio. Acrescente-se àquele total um milhão de iraquianos desalojados durante os primeiros meses do ano.

Essas grandes migrações forçadas aceleraram discussões sobre a necessidade de tratar os campos como mais do que centros populacionais de transição, mais do que áreas de confinamento com barracas. Uma série de trabalhadores de ajuda humanitária com pensamento inovador, entre outros, estão encarando os campos de refugiados como potenciais incubadoras urbanas, como lugares que podem crescer, se desenvolver e até mesmo beneficiar os países anfitriões – lugares criados desde o começo para atacar as antigas necessidades desses países – em vez de se tornarem estorvos nessas nações.

Tal pensamento é motivado pela realidade: famílias sírias e iraquianas, sem um caminho claro para a paz nem outra escolha, com seus países entrando em colapso, se encontram diante de um exílio prolongado em lugares como Zaatari, que os refugiados reformam pela necessidade de atender suas necessidades imediatas.

– A gente chama um lugar como o Zaatari de não permanente e não constrói infraestrutura adequada – disse Don Weinreich, sócio da Ennead Architects, em Nova York. A Ennead está colaborando com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados e a Universidade de Stanford para reinventar como e onde os campos de refugiados espalhados pelo mundo deveriam ser planejados e formados.

– Porém, o desenvolvimento orgânico, impelido pelos refugiados, é irreversível – afirmou Weinreich.

– O temporário custa mais a longo prazo. Quer se incentive ou não o crescimento do jeito certo, ele vai terminar acontecendo mesmo.

É isso o que transforma esse campo bagunçado e gigante no deserto da Jordânia em um estudo urbanista tão sedutor – ou, nas palavras de Kilian Kleinschmidt, representante da ONU responsável por Zaatari, "o projeto mais fascinante do mundo em termos de desenvolvimento de campos".

Não que Zaatari lembre o centro de Amã, a capital jordaniana. É um lugar esquálido, sombrio e assolado pelo crime. A maioria das empresas e lojas não tem autorização. Boa parte do local continua sendo uma cidade de barracas. Porém, é muito diferente de um campo como Azraq, que a Jordânia e o Alto Comissariado abriram recentemente para os sírios, ou de campos similares na Turquia, coordenados pelo governo turco, que tem instalações de primeira, mas que foi projetado para suprimir o urbanismo improvisado que modificou Zaatari.

Localizado a quilômetros de qualquer outro lugar, Azraq tem policiamento rigoroso, com abrigos metálicos fixos em ordem militar, pisos sujos, banheiros públicos e sem eletricidade. Até agora, perto de 11 mil sírios estão abandonados aqui. O campo foi planejado para abrigar mais de cem mil pessoas.

Kleinschmidt citou os números de Zaatari: 14 mil casas, dez mil latrinas e privadas, três mil lavadoras de roupa, 150 hortas particulares, 3.500 novas empresas e lojas. A pouca distância da barbearia de Bidawi, Zaatari tem uma loja para animais, uma floricultura e uma sorveteria caseira. Os refugiados compram frango assado numa estabelecimento na rua principal, chamada Champs-Élysées.

A transformação de Zaatari aconteceu depois que Kleinschmidt começou a conversar e, dessa forma, neutralizar os grupos meio mafiosos que haviam tomado o controle do campo. Ao mesmo tempo ele atuou para recrutar aliados entre os refugiados, encorajando iniciativas populares e ouvindo os moradores. Na verdade, ele começou a tratar Zaatari como uma cidade e não como um campo.

– Nós projetamos os campos para refugiados; os refugiados constroem cidades.

Os refugiados roubam a eletricidade que abastece suas lojas e máquinas de lavar roupa ao custo de US$ 750 mil mensais, um fardo muito grande para a ONU. Kleinschmidt incentivou os lojistas a instalarem disjuntores para que o sistema não entrasse em colapso, e agora está trabalhando num plano para instituir tarifas mensais para lojistas e refugiados com máquinas de lavar, pensando em vir a fazer o mesmo com água e esgoto – na verdade, formalizando paulatinamente a economia do campo, numa abordagem justa e inteligente em termos políticos.

A Jordânia recebe US$ 1 milhão por dia em ajuda internacional e alguns jordanianos, incluindo locatários, bancos e pequenas empresas, se beneficiam com o influxo sírio. Porém, os jordanianos pobres, que pagam por serviços como água e luz, reclamam que os sírios roubam empregos, empurram para cima o preço dos aluguéis, superlotam escolas e drenam recursos.

As reclamações explicam em parte Azraq que, antes de tudo, parece concebido para impedir que os sírios escapem ou utilizem serviços públicos. Se crescer como previsto, certamente ele irá sucumbir às forças urbanizadoras inevitáveis em ação em Zaatari, e será ocupado nos próximos anos se não por sírios, então por jordanianos. Instalar ali um sistema de água municipal permanente custaria o que a ONU agora gasta anualmente transportando água de caminhão ao campo, num investimento no crescimento a longo prazo.

Defendendo essa filosofia, Kleinschmidt está conversando, entre outros, com representantes do Google para fazer a instalação elétrica do campo e com a agência de urbanismo de Amsterdã a qual ofereceu dez mil bicicletas, ideia que levou refugiados sírios astutos a abrir bicicletarias antes mesmo que as magrelas chegassem.

Esse tipo de empreendedorismo deve ajudar a economia jordaniana. Um sinal de que as autoridades jordanianas possam estar abraçando esse pensamento a longa prazo é a promessa recente do Ministério do Ambiente de entregar milhares de árvores ao campo.

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