Versão mobile

Investimento

Catar busca respeito nos campos importando talentos do futebol

Somente no primeiro ano do plano para alavancar o esporte no país, o Catar avaliou quase 430 mil garotos em 595 localidades em sete países africanos

Catar busca respeito nos campos importando talentos do futebol Jason Florio/NYTNS
Abdoulaye Sall, 16, recebe uma visita de seus pais na academia da Aspire Football Dreams em Sali, no Senegal Foto: Jason Florio / NYTNS


Há pouco mais de uma década, Andreas Bleicher, então diretor de um dos centros de treinamento Olímpico da Alemanha, chegava à pequena nação do Catar no Golfo Pérsico, a pedido da família real, para ajudar a transformar o programa de futebol nacional em algo que mereça o respeito mundial.

Havia inúmeras razões para que isso fosse difícil — o país está longe de ter uma tradição de excelência nesse esporte. Contudo, havia um problema que parecia insuperável. Com uma população original de apenas 300 mil pessoas, o Catar simplesmente não tinha jogadores para formar a seleção que poderia ter esperanças de competir.

— Estamos tentando criar um programa nacional usando um grupo de talentos do tamanho do que encontraríamos em uma pequena cidade dos Estados Unidos — Bleicher declarou.

Uma das suas primeiras contratações foi Josep Colomer, ex-olheiro que geralmente recebe os créditos pela descoberta de Lionel Messi, talvez o melhor jogador de futebol do mundo.

Colomer, conhecido por suas ideias não ortodoxas, logo começou a falar em importação de talentos para o Catar vindos da África, onde crianças nas mais remotas aldeias já crescem jogando bola. E se o Catar pudesse enviar olheiros especialistas por toda a África com a missão de identificar garotos de talento e lhes oferecer bolsas para treinarem na Aspire Academy do Catar, o novo e brilhante instituto esportivo bancado pela família real?

Partindo dessa simples premissa, surgiu um plano ambicioso que alcançou os campos empoeirados do Senegal e do Quênia e até um estádio em ruínas em um canto pacato da Bélgica rural.

Somente no primeiro ano, o Catar avaliou quase 430 mil garotos em 595 localidades em sete países africanos. Depois de mais de sete anos, a Aspire já avaliou 3,5 milhões de jovens atletas em três continentes e fez uma seleção criteriosa dos garotos mais promissores.

A dimensão ilimitada do programa é manter os desejos mais abrangentes do Catar de se estabelecer como um grande nome no futebol. E, quanto as suas ambições futebolísticas, o país tem prazo de entrega de uma equipe que pareça ser parte do palco mundial: a Copa do Mundo de 2022, que será sediada lá.

Bleicher e Colomer afirmam que procuraram os melhores jovens atletas africanos como uma forma de fornecer uma concorrência de alto nível para os meninos do Catar, e não para que os jogadores africanos possam assumir a camisa da seleção nacional. Mas existe uma possibilidade, embora remota, de que alguns jogadores africanos possam representar o Catar em 2022.

Porém, as regras de naturalização dificultam o processo. Bleicher disse acreditar que seja mais provável que os atletas africanos acabem representando seus países de origem, e seu sucesso teria reflexos no Catar e seu programa de treinamento.

— Se naturalizarmos alguns jogadores, o que acontecerá? Todos nos criticariam. Mas veremos. Não somos burros. Ninguém é burro — comenta Bleicher.

Os críticos, no entanto, há muito têm sido céticos em relação ao Aspire Football Dreams, nome do programa de recrutamento internacional.

Alguns acreditam que o Catar por fim tentará naturalizar alguns dos garotos. Outros insinuaram que o programa foi projetado para bajular o painel da Fifa que escolheu a sede do torneio de 2022. E alguns temem que os garotos, selecionados aos 13 anos de idade, estejam sofrendo exploração.

Contudo, o Catar defende que existe um propósito maior, um impulso humanitário para ajudar uma região em grande parte carente, mesmo já tendo sido criticado por grupos de direitos humanos pelo tratamento abusivo a trabalhadores imigrantes.

Desde o princípio, o programa foi vendido como uma chance para os jovens africanos terem uma nova vida, uma que poderia drasticamente mudar as possibilidades deles e de suas famílias e até das suas comunidades.

A Aspire originalmente planejou oferecer bolsas para apenas três finalistas, que então viriam morar e treinar em Doha. Mas assim que os olheiros viram a riqueza de talentos, acabaram aumentando esse número para até 24 garotos, muitos dos quais viveriam e treinariam em uma academia satélite inaugurada no Senegal.

— Percebemos que o nível dos jogadores era alto. E conseguimos organizar uma academia para lhes dar esperança e uma chance de atingir níveis mais alto — Colomer disse.

Nos anos seguintes, a abrangência expandiu-se para até 17 países, inclusive três nas Américas (Guatemala, Costa Rica e Paraguai) e dois na Ásia (Vietnã e Tailândia).

Ao trazer os garotos em uma idade tão tenra para as academias no Catar e no Senegal, a Aspire assumiu a responsabilidade do desenvolvimento deles não só como atletas, mas também como pessoas.

A transição nem sempre foi fácil. Existem diferenças de idiomas, e os jogadores sentem saudades de casa. Alguns de dentro da Aspire também expressaram preocupações de que os garotos estavam treinando demais, e que eles estavam escondendo as lesões por medo de serem enviados para casa.

— Tínhamos medo. A maioria veio de famílias pobres. Estar no Catar ou na Aspire foi uma grande experiência. Foi uma grande oportunidade. Tínhamos medo de perder tudo isso — disse Franck Cedric Tchoutou, um camaronês que esteve entre os primeiros alunos bolsistas que moravam e treinavam em Doha.

O programa atraiu forte crítica logo que os olheiros da Aspire começaram a procurar talentos africanos. O desconforto foi em parte devido à história recente do Catar que importou atletas estrangeiros para representá-lo em competições internacionais. O jornal britânico The Observer fez uma reportagem em novembro de 2007 informando que alguns consideravam a Aspire África como sendo "tráfico humano" disfarçado de humanitarismo, "com a intenção única de conseguir jogadores para a futura seleção do país".

Bleicher reconheceu que no começo do projeto, chegou-se a levantar a possibilidade de alguns participantes um dia jogar pelo Catar, mas foi descartada.

— Isso não estava em sintonia com o propósito do projeto e com os valores da Aspire — disse.

Mesmo que, conforme insistem Bleicher e outros, os garotos não joguem pelo Catar em 2022, alguns enxergaram o programa de recrutamento como uma peça na campanha para conquistar a concorrência pela Copa do Mundo.

Das 24 nações com representantes no comitê executivo da FIFA, cinco eram países nos quais a Aspire Football Dreams estava operando. Alguns na Aspire acharam que isso fortaleceria as chances do Catar na Copa do Mundo.

— Todos os países onde os projetos são conduzidos devem votar no Catar. Cinco votos podem ser favoráveis devido à influência da Football Dreams — dizia uma proposta escrita pela Aspire.

Bleicher disse que o departamento de marketing da Aspire, que criou a proposta, não teve nenhuma relação com a campanha da Copa de 2022:

— Ela mostra a paixão, mas não deve ser confundida com a ação, a realidade e a responsabilidade — ele disse.

Mesmo que eles não vistam as camisetas cor de vinho do Catar, os jogadores trarão ao país o respeito internacional que a família real até agora não conseguiu estabelecer.

— A próxima Copa do Mundo será a "nossa" Copa do Mundo — Bleicher declarou.

VEJA TAMBÉM

     
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.