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Dia dos Avós

Conheça duas avós que mimam os netos, mas também trabalham para sustentá-los

Neste sábado em que se comemora o Dia dos Avós, o Diário Gaúcho conta a história de duas avós que contribuem na composição do orçamento familiar e também participam ativamente da criação dos netos

26/07/2014 | 11h01
Conheça duas avós que mimam os netos, mas também trabalham para sustentá-los Mateus Bruxel/Agencia RBS
Ivone de Miranda Policena, 66 anos, e o neto Rafael na casa dela, no bairro Partenon Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Dizem que os avós são pais duas vezes, com mais tempo e paciência para os netos. Com a maior expectativa de vida dos idosos e as mudanças nos arranjos familiares - filhos adultos descasados, que voltam para a casa dos pais, que estão desempregados, ou que têm renda insuficiente - o tempo de muitos vovôs e vovós vêm sendo ocupado não só com os mimos para os netos, mas principalmente com alternativas para ampliar o orçamento para além da aposentadoria. Grande parte chega a ser responsável pela família.
 
O Censo 2000 apontou que 62,4% dos idosos (pessoas com mais de 60 anos) eram responsáveis pelos domicílios brasileiros. Em 1991, o percentual era de 60,4%. O trabalho na terceira idade não é visto como problema pelos órgãos que zelam pelos direitos dos idosos. Mas há o alerta para quando a jornada de trabalho existe por obrigação e gera sofrimento.
 
"Não dá para ter preguiça" 
Avó de 14 netos (e bisa de sete), a recicladora Ivone de Miranda Policena, 66 anos, do Bairro Partenon, concorda que nos últimos tempos o papel dos avós foi se modificando.
 
- É difícil achar uma avó que não trabalhe e que não ajude a criar os netos. A função dos avós tinha que ser estar com os netos, conversar com eles, e não precisar trabalhar para dar as coisas e ajudar na criação - opina.
 
Na casa de Ivone moram o esposo Milton, 64 anos, um filho de 30 anos (ela é mãe de oito) e o neto de 21 anos, que foi criado por ela, desde que a mãe dele faleceu. Para compor o orçamento familiar, além da aposentadoria de Milton e da ajuda do filho e do neto, Ivone circula por todo o bairro atrás de material reciclável para vender. Até pouco tempo atrás, vendia churrasquinho na frente de casa.
 
- Dá um dinheirinho bom, que uso para comprar as coisas que precisamos para a casa. Acho que não vou parar tão cedo. Para não ficar parada e também por causa do dinheiro, que vai fazer falta - explica.
 
Em casa, Ivone tem as lidas domésticas, o cuidado com o esposo (que teve um AVC) e ainda repara o neto Rafael, nove anos, no turno em que ele não está na escola para a mãe dele trabalhar.
 
- Por invalidez, nunca vou me aposentar! Não dá para ter preguiça, eles dependem de mim - diverte-se.
 
A idosa ainda acha tempo de fazer coisas típicas de avó: preparar a mamadeira de café com leite para Rafael e fazer folia com ele e os cãezinhos Pituca e Negão. A hora da novela das seis é o descanso de Ivone, na cadeira da vovó.
 
- E eu levanto às 5h30min para fazer a torrada para o meu neto levar (para o trabalho) e faço o café. Vale a pena porque estou vendo eles crescerem.
 
Tão importante como a mãe


Vovó Dóris Teixeira Antunes com a pequena Luiza
Foto: Mateus Brruxel, Agência RBS
 
- Ela é uma segunda mãe.
 
Assim, a estudante Kamila Antunes Bock, 11 anos, resume a participação da avó Dóris Teixeira Antunes, 57 anos, na vida dela. A maninha dela, Luiza, três anos, concorda:
 
- Eu amo a minha vó porque ela é minha mãe.
 
Kamila é criada pela avó, que vive na Vila Safira, desde que nasceu. Chegou a viver com a mãe uma época, mas já adaptada à rotina da avó, decidiu voltar. Já Luiza passa o dia na casa de Dóris porque a mãe delas trabalha. São muito apegadas à avó.
 
- Eu me acho muito importante para elas! Sou eu quem vai na escola, leva no médico. Não deixo a Kamila sair sozinha. Dou a mesma educação que dei para os meus (três filhos, de 35, 33 e 30 anos) - explica Dóris, que tem outros três netos.
 
Mesmo perto da terceira idade, Dóris diz ter muita energia. Para reforçar o orçamento familiar - o esposo é pedreiro e, com ela vive também o pai, de 86 anos -, há quatro anos lava e seca roupa para fora. E também faz artesanato para complementar. Antes disso, foi faxineira, doméstica, babá e auxiliar de enfermagem.
 
- O que eu ganho dá para pagar a água e a luz. Enquanto aguentar, vou fazer - explica.
 
Ela explica a missão que tem a cumprir:
 
- Ser avó é contribuir para um ser (o neto) vir e fazer o que tem que fazer.
 
Trabalho não é problema. Excesso, sim
O secretário adjunto do Idoso, da Secretaria Municipal de Direitos Humanos de Porto Alegre, André Canal explica que, com o aumento da expectativa de vida, os avós foram tomando outro papel na família. Segundo ele, o desemprego ou o fim do casamento dos filhos adultos faz com que muitos retornem para a casa dos pais idosos, o que gera a busca de uma forma de complementar a renda para além da aposentadoria. Outra situação comum é o caso de mães solteiras que transferem a responsabilidade da criação dos netos para os avós.
 
- Vemos o trabalho do idoso com bons olhos, desde que seja prazeroso, para mantê-lo ativo - explica.
 
Conforme o secretário, quando o uso da renda do idoso na composição do orçamento é consensual, não há problema. A dificuldade aparece quando há violência financeira.
 
- É a apropriação do benefício, de imóveis, de bens materiais, ou quando o idoso é obrigado a fazer empréstimos, gerando o endividamento - explica.
 
Nos últimos anos, segundo André, há o crescimento do registro desse tipo de violência. Em 2012, representava 21% dos casos e, no ano passado, 40%. O delegado Antônio Paulo Machado, da Delegacia do Idoso, afirma que abandono e maus-tratos ainda lideram a lista.
 
- Precisamos verificar se houve aumento da violência financeira, ou se ela está sendo mais registrada - revela o secretário.
 
- Para orientações e denúncias: 0800-6420100 (Disque Centro de Referência às Vítimas de Violência). O Disque 100 também recebe denúncias.
 
Números
- Em 2009, conforme dados do Ipea, cerca de 13,8 milhões de pessoas com mais de 60 anos eram chefes de família.

- Em aproximadamente 6 milhões de famílias nas quais o idoso era chefe, havia filhos adultos, e em 2,3 milhões, havia netos. Nessas famílias, os idosos contribuíam com mais da metade da renda familiar (54,8%).

- O levantamento apontou que 77% da população idosa (16,6 milhões de pessoas) tinha a aposentadoria como origem da renda. O trabalho representava uma parcela de 32,6% para os homens e de 11,9% para mulheres.
 
Dicas
- Desconfie de ligações oferecendo empréstimos consignados. Nunca aceite serviços que não pediu.

- Não entregue seu cartão magnético e nem peça ajuda a estranhos. Em caso de dificuldade, procure um funcionário do banco.

- Ao sacar dinheiro, oculte suas ações o máximo possível.

- Nunca deixe a senha junto com o cartão. Memorize os números. Caso não seja possível, mantenha a senha distante do cartão, em sigilo.

- Procure andar sempre acompanhado, principalmente quando levar bens de valor, como o dia de ir ao banco, ou às compras.

- O empréstimo pode ser uma boa maneira de auxiliar a família, o que gera a satisfação do idoso em ajudar, mas é preciso cuidado na hora de contratar. É importante buscar bancos que existam no Estado. Fale com o gerente, informe-se antes de decidir.

- Evite fazer a renovação da dívida. Com a renovação, o cliente que já está comprometido consegue um novo empréstimo pagando o mesmo valor da parcela, porém com mais prazo. Quite primeiro as parcelas para depois buscar crédito novamente.

- O comprometimento da renda com um empréstimo pode ser de até 30%.
 
*Dicas do coordenador de Relações Institucionais do Procon Porto Alegre, Roberval Barros e da cartilha Dicas de Segurança, da Secretaria Adjunta do Idoso de Porto Alegre.

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