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De cara nova

Imigrantes sul-americanos altamente instruídos vêm criando raízes em Miami

Influxo de sul-americanos leva à reinvenção de Miami

29/07/2014 | 03h02
Imigrantes sul-americanos altamente instruídos vêm criando raízes em Miami Angel Valentin/NYTNS
Onda sul-americana insurge em Miami Foto: Angel Valentin / NYTNS



Enquanto se desenrolava a Copa do Mundo, colombianos vestidos de amarelo lotavam a casa noturna Kukaramakara, no centro de Miami, com cervejas Aguila em mãos, gritando: "Colômbia, Colômbia!" Do lado de fora, brasileiros em comboios de carros tocavam samba no último volume. Os argentinos, alguns em camisas brancas e azuis, enchiam churrascarias e casas de empanadas. Por toda a cidade, crianças lotavam a missa de domingo, suas camisas ostentando os heróis do futebol da América Latina.

Isso foi menos uma análise de futebol do que uma viva imagem da nova Miami. A cidade, antes definida por cubano-americanos, na última década passou a ser cada vez mais turbinada por uma onda de sul-americanos instruídos e bem de vida. Seus números e influência cada vez maiores, como imigrantes e turistas, transformou o centro de Miami, antes amortecido pela recessão, enriqueceu sua cultura e ampliou seu poder de atração para empresas do mundo todo como uma encruzilhada do mundo de língua espanhola.

— Hoje esta é a indiscutível capital da América Latina. O boom econômico latino nos últimos dez anos levou à criação de uma enorme classe média em países como Brasil, Peru e Colômbia, e eles veem Miami como um local inspirador — declarou Marcelo Claure, milionário colombiano que fundou a Brightstar, empresa global de distribuição wireless localizada aqui.

A transformação, o mais recente capítulo na evolução da cidade, é especialmente aparente nos guindastes de construção, na vida nas ruas e nas casas noturnas do centro. Mas ela é vista por todo o Condado de Miami-Dade, onde imigrantes sul-americanos altamente instruídos e proprietários de casas de veraneio vêm criando raízes e desempenhando um papel crucial em renovar uma região que há pouco tempo era assolada pela recessão.

Sua relativa riqueza lhes permitiu alavancarem negócios como empresas de exportação e importação e bancos, e a abrir restaurantes que servem arepas da Venezuela, coxinhas do Brasil e alfajores da Argentina.

Em parte como resultado desse influxo, a região de Miami-Fort Lauderdale eclipsou Los Angeles em 2012 como a grande área metropolitana com a maior quantidade – 45% – de empresários imigrantes, segundo um relatório do grupo de pesquisa Fiscal Policy Institute.

A presença sul-americana também remodelou a política e as rádios locais. Mais moderados do que os cubano-americanos tradicionais, os sul-americanos empurraram a política na direção do centro. As estações de rádio deixaram de servir exclusivamente ao público cubano; elas trazem mais notícias sobre a América Latina e menos ataques a Fidel Castro.

Em julho, Charlie Crist, que está concorrendo a governador pelo Partido Democrata, nomeou uma americana de origem colombiana de Miami, Annette Taddeo-Goldstein, como sua vice.

Os colombianos, que começaram a se estabelecer por aqui na década de 80, são o maior grupo de sul-americanos. Hoje, formam quase 5% da população de Miami-Dade. Eles têm a companhia dos argentinos, peruanos e um crescente número de venezuelanos. Os brasileiros, relativamente novos na miscelânea hispânica da cidade, hoje também são uma presença de destaque. A população venezuelana cresceu 117% em 10 anos, número que não considera a onda de recém-chegados. Mais da metade dos moradores de Miami são nascidos no estrangeiro, e 63% falam espanhol em casa.

O influxo está expandindo as fronteiras de bairros imigrantes em locais como West Kendall, Hammocks e Doral. Seus números também estão crescendo significativamente no restante do condado, até Broward, onde uma cidade, Weston, ganhou tantos venezuelanos que está sendo carinhosamente apelidada de Westonzuela.

Segundo Jorge Pérez, rico empreendedor imobiliário e fundador do novo museu Pérez Art Museum Miami, a mais recente onda de sul-americanos está transformando a cidade num destino permanente e atraindo mais empreendedores e empresas internacionais. Bancos latino-americanos proliferaram para seguir sua clientela até aqui.

Mais notavelmente, eles estão adquirindo propriedades em Miami, Miami Beach e Key Biscayne, uma ilha sofisticada a duas pontes de Miami. Desenvolvedores creditam os sul-americanos por estimular o atual boom imobiliário.

— Os sul-americanos são os elementos de mudança. Foram eles que permitiram o renascimento do mercado imobiliário — afirmou Pérez.

Os cubanos ainda dominam Miami, formando pouco mais da metade dos hispânicos e um terço da população total, e os centro-americanos vêm para cá há décadas. Mas numa região onde os hispânicos foram de 23% da população, na década de 70, a 65% hoje, o que mais impressiona é a influência cada vez maior dos sul-americanos.

Muitos vieram para cá fugindo de crises políticas, como fizeram os venezuelanos após a eleição presidencial de Hugo Chávez, em 1998, e então de seu protegido, Nicolás Maduro, ou para escapar de economias turbulentas, como os argentinos e colombianos há mais de uma década.

Mas a onda mais recente de sul-americanos trouxe uma nova característica. Ela inclui muitos não-imigrantes – investidores em busca de negócios e propriedades, incluindo casas de veraneio em Miami e Miami Beach. Para eles, Miami é um lugar cada vez mais atraente para manter seu dinheiro com segurança e passar períodos prolongados.

O espanhol, que há tempos é o idioma comum em grande parte da cidade, hoje domina até mesmo áreas mais amplas. Em lojas, bancos, academias e salas de conferencias, o espanhol é a linguagem padrão.

— Você pode vir para cá como empresário ou profissional, e realizar cinco ligações telefônicas, todas em espanhol, para montar a infraestrutura de sua empresa — garantiu Guillermo J. Grenier, professor de sociologia da Universidade Florida International.

O efeito sobre o mercado imobiliário é especialmente visível na área de Brickell, o centro bancário internacional de Miami, e em partes antes maltratadas do centro. A paixão sul-americana pela vida urbana gerou uma explosão de novas e luxuosas torres de condomínios, com mais por vir.

Há inclusive quadras de futebol na cobertura, como se oferece na América do Sul. No ano passado, David Beckham e Claure anunciaram que trarão um grande time de futebol a Miami.

Sente-se num restaurante e você ouvirá uma gama de sotaques – a melodia argentina, a clareza do espanhol colombiano, a vivacidade dos venezuelanos e a veloz pronúncia dos cubanos. Os brasileiros juntaram o português à mistura.

A onda de construção de apartamentos se aproxima daquela antes da crise de 2008, levantando o espectro (para alguns analistas) de outra arriscada bolha imobiliária.

Um novo estudo da Miami Downtown Development Authority, realizado com desenvolvedores e investidores, descobriu que mais de 90% da demanda por novas unidades residenciais no centro e em Brickwell vieram de compradores estrangeiros; 65% vieram da América do Sul.

— Status é possuir um apartamento em Miami — alegou Juan C. Zapata, o primeiro colombiano a servir como comissário de Miami-Dade County e, antes disso, na assembleia legislativa estadual.

Os subúrbios também continuam crescendo, agora que mais sul-americanos se mudam para regiões tomadas por pessoas de seus países. Doral, uma cidade de classe média perto do aeroporto, é hoje uma panóplia de sul-americanos, a maioria de venezuelanos. Oitenta por cento dos habitantes de Doral são hispânicos, e em 2012, um venezuelano, Luigi Boria, foi eleito prefeito.

— A cada ano recebemos mais e mais venezuelanos — declarou Lorenzo Di Stefano, dono do El Arepazo 2, restaurante venezuelano local. Neste ano, com a piora da economia na Venezuela, Di Stefano disse esperar mais uma grande onda.

Mesmo assim, exceto pela vice de Crist e por Boria, o influxo sul-americano não se traduziu num grande sucesso eleitoral. Os sul-americanos ficam bem atrás dos cubano-americanos em poder político, em parte porque sua taxa de cidadania é menor. Muitos ainda não podem votar ou se candidatar, uma realidade que, segundo Zapata, precisa mudar.

— O que vemos aqui é uma mudança econômica; ela está muito mais diversificada do que costumava ser. Mas os cubanos cresceram economicamente, e transformaram isso em poder político — afirmou Zapata.

Essa transformação, disse Zapata, será o próximo capítulo de Miami.

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