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Insegurança

Crise econômica em Honduras fortalece gangues que migram para o país

Instabilidade política, pobreza profunda e falta de segurança faz grupos crescerem e adquirirem armamento militar

14/08/2014 | 02h35
Crise econômica em Honduras fortalece gangues que migram para o país Ian Willm/NYTNS
Criança assiste à polícia militar algemar um homem durante investigação de assassinato em Honduras Foto: Ian Willm / NYTNS


O pastor veio uma tarde examinar sua igreja, ou o que restou dela: uma placa de boas-vindas caindo aos pedaços e partes uma guirlanda de Natal ainda pregada à parede.

A gangue levou as cadeiras. Levou as luminárias. Levou as portas. Seus membros haviam dado 24 horas para que sua família saísse e assim foi feito: abandonaram a casa e a pequena igreja evangélica que ele liderava.

— Não tinha outro jeito. Morreríamos se ficássemos lá — disse o pastor Jorge Rivas, na varanda de uma casa em outra parte desta violenta cidade, onde se refugiou com a família.

Quando se mudou, há 20 anos, Rivas era respeitado até mesmo por membros de gangues. O bairro, Chamelcón, ainda não era o mais perigoso em uma das cidades mais perigosas do continente.

Ele costumava pescar nas águas calmas e frescas do Rio Chamelecón muito antes de corpos baleados aparecerem ao longo das margens e nos canaviais adjacentes.

Seus seis filhos jogavam futebol pelas ruas empoeiradas e depois corriam para a sorveteria do bairro. Mas isso foi muito antes de balas perdidas acertarem um vizinho na frente do estabelecimento, do outro lado da rua.

Rivas viu o declínio de Chamelcón, espelho da deterioração de toda Honduras nas últimas duas décadas. Fustigado por uma sucessão de catástrofes naturais e outras provocadas pelo homem, o país tornou-se um dos mais pobres do hemisfério e, agora, o estopim da crise de migração infantil, quando muitos dos seus jovens fogem para os Estados Unidos, às vezes sozinhos, outras, na companhia de familiares ou vizinhos.

Um furacão devastador, em 1998, fez transbordar o rio inundando várias casas. O que se seguiu foi a crise econômica. Ninguém encontrava trabalho e os delinquentes, sempre presentes no bairro humilde, se fortaleceram, afastando até a polícia.

As fábricas de roupas nas proximidades, que sustentavam tantas famílias, deslocaram-se para a vizinha Nicarágua. O governo sofreu um golpe de estado em 2009, e mesmo a ordem tendo sido restaurada, o futuro tranquilo prometido ainda parece um sonho distante.

As gangues passavam de casa em casa exigindo "aluguel" ou "imposto de guerra", às vezes até mesmo a propriedade em si. Noite após noite, famílias fugiam, aterrorizadas, para outras partes de Honduras, para o México, para os Estados Unidos, muitos delas parte da onda de migração que sobrecarrega centros de detenção no sudoeste dos EUA.

Inúmeras casas vazias são deixadas para trás, despojadas de mobília, janelas e até peças de banheiro.

Mesmo assim, o pastor persistiu, porque acredita em Deus e tem esperança. Então, membros de uma gangue apontam uma arma para seu filho de 15 anos de idade.

"Levante a camisa", eles exigiram, procurando tatuagens de grupos rivais em seu corpo.

— Eu não conseguia nem falar — disse o menino, recordando-se de seu terror.

E, por fim, a gangue chegou à casa. Eles queriam tomá-la. E a igreja também.

Faz quase dois anos que ele saiu.

O distrito de Chamelcón é um labirinto de modestas casas de bloco de cimento, com pintura em tons pastel, agora lascada e esmaecida.

Duas das gangues mais poderosas de Honduras, a Mara Salvatrucha e a Barrio 18 e suas inúmeras facções, brigam por territórios em cujas fronteiras impera a violência. O crime mais espetacular ocorreu há dez anos, quando 28 pessoas em um ônibus que passava pela vizinhança foram mortas por membros de uma gangue revoltada com a possibilidade do restabelecimento da pena de morte.

Mas é a rotina de assassinatos e caos que mais atormenta as pessoas daqui.

Oscar Ramón, de 20 anos, que ajuda seu pai a cultivar um pedaço de terra ao longo do rio, disse que pelo menos 20 corpos foram abandonados nas margens e nos canaviais no ano passado. Ele perdeu a conta.

— Acho que esse lugar não é para mim — disse em um inglês simples que aprendeu em uma escola da capital para onde seu pai o havia mandado em busca de segurança.

Muitos jovens concordam com essa ideia e acabam saindo, mas outros ficam e vivem trancados em casa, acalentando sonhos de uga.

Embora Honduras tenha sido poupada das guerras civis de seus vizinhos nas décadas de 80 e 90, a instabilidade regional preparou o palco para uma onda de migração, que se acelerou depois que o furacão Mitch devastou o país, em 1998. Ele matou milhares de pessoas em Honduras, deixou 1 milhão de desabrigados e destruiu o que restava da indústria da banana que já se encontrava em declínio, mas que outrora fora sua força vital.

Na primeira década deste século, o número de imigrantes hondurenhos nos Estados Unidos, a maioria sem visto de permanência, dobrou em comparação com os dez anos anteriores, indo de 283 mil para quase 500 mil, de acordo com um relatório do Instituto de Política de Migração.

Após a Guerra Fria, Honduras abraçou o capitalismo, investindo pesado na indústria manufatureira para exportação — vulgarmente conhecida como "maquiladoras" — e a base industrial de San Pedro Sula cresceu, produzindo roupas íntimas, camisetas, jeans e outros produtos de baixo custo para o consumo nos Estados Unidos e outros países.

Mas o golpe de estado de 2009, juntamente com a recessão mundial, cobrou seu preço, e o choque econômico foi profundamente sentido em Chamelcón, disseram os moradores.

Inúmeras famílias passaram por demissões e redução da jornada de trabalho. Parecia que, cada vez mais, era necessário conhecer alguém para conseguir um emprego e mantê-lo.

A crise econômica e a migração prepararam o terreno para o surgimento de poderosas gangues de rua, e a inépcia do governo garantiu sua permanência.

Suas raízes vêm de Los Angeles, para onde refugiados de El Salvador foram na tentativa de escapar da guerra civil. Após a guerra, membros de gangues foram deportados e, aproveitando-se das instituições fracas que encontraram, ressurgiram em seu país graças à falta de controle.

Honduras mantém há muito tempo tem laços estreitos com El Salvador e, pelo menos no início da onda de migração, muitos hondurenhos se estabeleceram em comunidades salvadorenhas.

Analistas criminais dizem ser esse o motivo de as gangues de um país e outro se assemelharem tanto, mas em Honduras, com a instabilidade política, a pobreza profunda, e o histórico de um poder judicial e de forças de segurança deliberadamente fracos, a força desses grupos cresceu e eles rapidamente adquiriram armamento militar.

Para piorar as coisas, nos últimos anos, organizações de tráfico de drogas que enfrentam obstáculos crescentes no Caribe começaram a passar mais cocaína através da América Central, forjando alianças com as gangues que agem como seus soldados.

Uma tarde, Rivas chegou à sua pequena igreja abandonada para verificar os danos. Quase toda a mobília sumiu. A realidade é que ele já não pode pagar o aluguel da casa em outra parte da cidade, então provavelmente será forçado a voltar.

O pastor disse que iria para os Estados Unidos se houvesse uma forma legal de fazê-lo, mas acrescentou que a longa espera e o custo para um visto faz essa ideia ser impraticável. E ele não tem dinheiro para pagar um contrabandista.

Seu filho Jorge sonha com a vida nos Estados Unidos, ou mesmo em outra parte de Honduras. O menino está dividido sobre a ideia de voltar para o bairro; sente falta dos amigos, mas nem tem certeza de quantos ainda estão lá.

Ele teme, porém, a repetição das coisas ruins.

— Tínhamos que nos jogar no chão e rezar para que as balas não nos acertassem. Estávamos sempre trancados. Não era muito divertido — disse ele.

A tarde se arrastava. Riva olhava a sobrinha de 7 anos de idade desenhando em seu caderno. Ela desenha uma casa cor de laranja. Usa cores brilhantes. Um longo caminho corta um gramado verde. O sorridente sol de óculos escuros brilha em um canto do céu.

Não era a casa que ela conhecia.

— É nessa casa que eu gostaria que vivêssemos — disse a garota Astrid.

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