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Imigração

Iniciativa de professora sueca une imigrantes e nativos de Estocolmo

Ideia surgiu quando Ebba Akerman percebeu que a maioria de seus alunos, vivendo em bairros lotados de imigrantes, praticamente não tinha contato com os suecos nativos

13/08/2014 | 02h42
Iniciativa de professora sueca une imigrantes e nativos de Estocolmo Casper Hedberg/NYTNS
Suecos e camaroneses conversam em janta oferecida por Ebba Akerman Foto: Casper Hedberg / NYTNS

No ano passado, quando Ebba Akerman, de 31 anos, ensinava sueco para os imigrantes da cidade, encontrou um de seus alunos no metrô e perguntou se ele estava gostando de viver no país.

E ficou muito perturbada com a resposta que recebeu. O homem deu de ombros, dizendo que a vida não era muito diferente da que tinha deixado para trás, no Afeganistão.

Ficou claro para ela que a maioria de seus alunos, vivendo em bairros lotados de imigrantes, praticamente não tinha contato com os suecos nativos.

Nos meses seguintes, decidiu mudar aquele estado de coisas, chamando a si mesma de "ministra dos jantares", responsável pelo Departamento de Convites, usando o Facebook e o Instagram na tentativa de reunir suecos e imigrantes para desfrutarem uma refeição juntos, quase como acontece nos sites de namoros.

— Permitimos às pessoas entrarem no nosso país, mas não em nossa sociedade — admitiu Ebba.

Era uma noite de sexta e ela picava legumes, com duas mesas de piquenique já montadas e arrumadas no pátio do condomínio onde mora, um retalho imenso de tecido indiano servindo de toalha de mesa.

— Até que finalmente decidi fazer alguma coisa a respeito. Decidi ser o elo de ligação.

Ela conta que, a princípio, a ideia não pegou; muitos suecos clicaram o botão "curtir" do Facebook, mas poucos foram os que se animar a recebê-los em suas casas. Até que, depois de várias aparições na TV e artigos sobre sua iniciativa, o projeto pareceu decolar e agora Ebba tem que se desdobrar para atender às 800 pessoas que querem participar.

Os imigrantes são, na maioria, interessados e flexíveis; já os suecos preferem escolher uma data com dois meses de antecedência.

Dificilmente seu Departamento de Convites poderia ser comparado ao Match.com ou ao eHarmony, pois, embora a ideia tenha rendido a Ebba certa fama no país, ela garante que não passa de uma jovem com uma agenda de papel tentando reunir pessoas em seu tempo livre. De risada fácil e jeito descontraído, descarta a noção de que deveria levar em consideração a idade e os interesses comuns das pessoas. As únicas coisas que lhe interessam são se as alergias alimentares de que por acaso sofram e as datas em que estão disponíveis.

— É só um jantar. É impossível duas pessoas não terem assunto para uma conversa durante uma refeição — resume.

Praticamente todos os encontros são um sucesso — embora já tenha havido problemas, incluindo gente que simplesmente não apareceu, cancelamentos e casos de timidez extrema. Um imigrante chegou horas atrasado, trazendo uma sacola de compras, inclusive iogurte e leite, para se desculpar. Outros se perderam e tiveram que ser "resgatados" porque não entenderam o sistema de numeração das casas.

De uns anos para cá, a Suécia, assim como muitos países europeus, viu o apoio aos partidos anti-imigração crescer, consequência da dificuldade de integração de um número recorde de estrangeiros — e muitos deles acabam morando em prédios em que há poucos ou nenhum nativo. Cerca de vinte por cento da população da Suécia ou nasceram no exterior ou são descendentes diretos de imigrantes, bem diferente dos onze por cento de 2000. Os recém-chegados são quase sempre das áreas que estão ou estiveram em conflito: Afeganistão, Bálcãs, Costa do Marfim, Somália e Síria.

Segundo as pesquisas, muitos suecos apoiam os imigrantes e refugiados, mas uma minoria incipiente os culpa pela criminalidade e se preocupa com os custos decorrentes de sua adaptação; já os que chegam, por sua vez, também descarregam a frustração de serem marginalizados.

Ebba, que tem mestrado em Utilização Sustentável e, como muitos outros jovens suecos, interrompeu os estudos para viajar pelo mundo, sabe muito bem que sua iniciativa não vai solucionar os problemas do país, mas espera realizar muitos outros encontros antes das próximas eleições, em setembro.

— Torço para que essas reuniões sejam um começo, uma abertura com potencial para iluminar a mente de todos os envolvidos — torce ela.

— Eu ia para esses bairros para dar aulas e percebi que, apesar de distantes, eram lugares muito interessantes, um verdadeiro tesouro em Estocolmo, mas infelizmente a maioria dos suecos não vê isso — lamenta.

Reunir as pessoas para comer também é uma maneira de eliminar as diferenças entre elas em termos sociais e/ou econômicos.

— Os encontros que meus alunos tiveram com suecos até agora não foram realmente de igual para igual, mas quando as pessoas se sentam à mesma mesa para comer, essa sensação desaparece. É um lance bem básico — filosofa ela.

Há pouco tempo, Ebba conseguiu reunir doze pessoas, entre elas um casal de meia-idade de Bangladesh que levou um frango que preparou especialmente para a ocasião, uma moça recém-chegada de Camarões com os dois filhos, um especialista em Marketing sueco, a mãe de uma de suas amigas e um médico residente sueco, sendo que todos já tinham participado do projeto. A conversa foi sobre experiências boas, divertidas e mal-entendidos.

O especialista em Marketing, Henrik Evrell, contou que servira espaguete à bolonhesa, o prato mais sueco que conhecia, à convidada da Costa do Marfim. No começo foi difícil se comunicar porque o sueco dela era muito ruim, mas não demorou a descobrirem que ambos falavam francês e gostavam dos mesmo músicos. Depois de comerem, passaram o resto da noite em frente ao computador buscando músicas no Spotify que achavam que o outro ia gostar.

— No fim foi bem fácil — resume Evrell, que acha que Ebba deveria criar uma fundação para continuar o trabalho de unir pessoas em tempo integral.

Becky Faith, que saiu de Camarões para morar na Suécia há um ano e meio, disse que convidou um casal sueco, Jenny e Olaf, para ir à sua casa e preparou peixe, batata e salada. Os jovens — ele, enfermeiro, ela, balconista — levaram as crianças de quem estavam tomando conta.

— Foi ótimo — resume Becky, para quem alguns suecos são muito tímidos, mas que, depois que superam a barreira inicial, são "muito legais".

Já na casa de Ebba, porém, algumas mancadas culturais são inevitáveis. Uma vez um sueco chegou com um cachorro imenso na reunião, o que fez com que os filhos de Becky e duas jovens paquistanesas se encolhessem em um canto.

Fatima Haroon, uma das mulheres presentes, tentando ser corajosa, explicou que cães tão grandes geralmente são usados pela polícia de seu país.

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