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Opinião

Moisés Mendes: a erva chumbada

O colunista escreve às terças e sextas-feiras em ZH

05/08/2014 | 05h03

A guarita de fibra do seu Mércio é quase um microJK. Tem utensílios de cozinha, tudo em prateleiras, num espaço de um metro por metro e meio. Mas seu Mércio, guarda na zona sul de Porto Alegre, não amplia o conforto. Guarda de rua não pode ser tentado a ficar na guarita, tem é que circular.

Seu Mércio tem mate na guarita. É mate mesmo, como ele diz, porque chimarrão é coisa de quem passeia com a termo embaixo do braço na Redenção.

No fim da tarde, pouco antes de passar a guarda para um cunhado, ele toma umas oito cuias, olhando para um sabiá que conhece há mais de 10 anos. Seu Mércio sabe que é o mesmo sabiá porque faltam dois dedos no pé esquerdo.

Toma mate, contempla o sabiá e reflete sobre a situação da erva. Está impressionado com o preço e com a notícia de que a erva gaúcha foi contaminada por chumbo, que não se sabe de onde saiu.

Um quilo de erva boa não sai por menos de R$ 12. Até pouco tempo, custava a metade. Seu Mércio reflete: se esse é o preço da erva com chumbo, imagine se fosse erva com ouro.

Seu Mércio é de família de tronco em São Luiz Gonzaga, com galhos em Bossoroca. Volta e meia fala do Iso e do João Afonso Grisólia, grandes tomadores de mate de São Luiz. E conta que uma vez chegou a pensar em largar a cuia.

Tomou um mate, olhou o sol caindo pros lados do Guaíba e achou que não fazia sentido. Ficou duas semanas sem tomar mate. Mas sentiu um vazio, como se estivesse com dificuldade para pensar.

Foi quando descobriu que devia suas grandes ideias ao mate. Voltou a matear. Mas largou de tomar leite, quando disseram que tinha soda cáustica, e também se livrou da cachaça, quando correu a notícia de que teria cobre.

Para completar, mais esta agora, do chumbo na erva. Seu Mércio chegou a pensar, quando ouviu a notícia, meio por cima, que se tratava de chumbo na maconha, que vinha sendo assunto da moda.

Foi se informar melhor e ficou sabendo que o chumbo pode vir dos agrotóxicos ou da poluição. E ouviu dizer que os venenos também estão enlouquecendo as abelhas. Não há mais abelhas na zona sul, como havia anos atrás. As abelhas sumiram de toda parte.

E se tem chumbo na erva, não terá na alface, no repolho, no brócolis? Seu Mércio fala das suas dúvidas, conta que conversa com o sabiá e aí tem certeza de que o bicho cisca cada vez mais na terra para encontrar cada vez menos minhocas.

***

Seu Mércio conhece gente que não vive sem mate. Tem amigos que passam o dia com a cuia na mão. Na zona sul, tem um mecânico que troca rodas, limpa o carburador e examina embaixo do carro tomando mate.

Tem gente que toma mate e atende o celular. Com a mesma mão. Mas há os que não compartilham o mate. Tomam um atrás do outro, geralmente em cuias grandes. São adeptos dos mates compridos, para não passar a cuia adiante. Estes devem estar bem chumbados, acredita seu Mércio.

Ele andou conversando com um amigo que toma mate no cinema, o Jorge Wisniewski, que tem notado que a cuia anda entupindo mais seguido, e os dois concordaram num ponto: confiam muito no Ministério Público, para que as investigações sobre o chumbo não parem no meio do caminho.

Ontem de manhã, admirando o sabiá, seu Mércio se perguntou: será que as famosas bombas dos Vargas, do Alegrete, aquelas com mil furos, não terão que ter furos ainda mais finos, pra não deixar passar esse monte de chumbo?

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