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Ainda falta muito

Negros têm trajetória de exclusão e raras conquistas em Hollywood

Confira as dificuldades e as conquistas dos negros no cinema cem anos depois de estrear a primeira produção de Hollywood com um ator negro como protagonista

04/08/2014 | 09h01
Negros têm trajetória de exclusão e raras conquistas em Hollywood Disney/Divulgação
Ano também foi marcado pela premiação de "12 Anos de Escravidão" no Oscar Foto: Disney / Divulgação

O ano em que um cineasta negro ergueu pela primeira vez o Oscar de melhor filme — Steve McQueen, por 12 Anos de Escravidão — marca o centenário da primeira produção de Hollywood com um ator negro como protagonista. Foi no dia 10 de agosto de 1914 que estreou A Cabana do Pai Tomás com Sam Lucas, que não era um branco pintado de preto, a blackface, famigerada herança dos minstrel shows, populares espetáculos de teatro, dança e música do século 19.

Hoje, os negros ocupam altas esferas nos EUA, tanto na política (Barack Obama está em seu segundo mandato de presidente) quanto no showbiz. A última lista da revista Forbes com as cem celebridades mais poderosas traz no top 10 Beyoncé (1º lugar), o jogador de basquete LeBron James (2º), o rapper e produtor Dr. Dre (3º), Oprah Winfrey (4º), Jay-Z (6º), o boxeador Floyd Mayweather Jr. (7º) e Rihanna (8º). Mas o mesmo ranking reflete o acanhamento das conquistas em Hollywood: só quatro negros estão entre os 37 nomes ligados a cinema e seriados.

Entende-se. Se é verdade que os negros se libertaram dos estereótipos de outrora — há heróis de ação, como Will Smith, e filmes e séries anteciparam a chegada de Obama à Casa Branca —, é mentira dizer que as portas foram escancaradas.

— Hollywood é mais racista do que a América — disse em 2013 o comediante Steve Harvey. — Kerry Washington não deveria ser a primeira negra a protagonizar um seriado dramático (Scandal) em 40 anos. Em 40 anos!

O Oscar é o melhor termômetro. Dos 5.765 votantes da Academia, 94% são brancos. Em 86 anos de premiação, mais de 300 brancos ganharam troféus de melhor ator, atriz e coadjuvantes — negros, foram apenas 15. O primeiro Oscar de atriz para uma negra só foi sair na 74ª edição, em 2002 — e parou por aí. Apenas três negros já concorreram como diretor.

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Nesse contexto, deve-se celebrar o triunfo de 12 Anos de Escravidão, história real de um negro livre sequestrado e transformado em escravo no século 19. Convém refletir sobre o que disse Samuel L. Jackson ao jornal britânico The Times. Para o ator, o filme de McQueen limita o racismo americano no passado e concede ao público permissão para não lidar com as práticas discriminatórias do dia a dia:

— Os EUA estão muito mais dispostos a reconhecer o que houve no passado. Nós libertamos os escravos! Que bom! Mas quanto a "ainda estarmos matando negros desnecessariamente", vamos ter de conversar sobre isso.


Blackface: a imposição do estereótipo

Nos primórdios, até atores negros pintavam o rosto de preto, acentuavam o vermelho dos lábios e contornavam os olhos com branco. A blackface não foi longe no cinema, mas seus estereótipos, sim. Os Toms remetiam ao servil Pai Tomás ("Sim, sinhô!", diziam). Coons eram os bobões de olhos esbugalhados, ignorantes e preguiçosos (Stepin Fetchit interpretou vários). Mammies, as criadas das famílias sulistas, como a oscarizada personagem de ...E o Vento Levou. Bucks, os brutais e hipersexualizados negros vividos por brancos no filme de 1915 O Nascimento de uma Nação — que pôs a racista Ku Klux Klan como salvadora da pátria.

Richard Roundtree em "Shaft"
Foto: Reprodução

Blaxploitation: a reinvenção do estereótipo

O movimento nasceu da luta pelos direitos civis com a fome por novos mercados. Os filmes eram dirigidos e estrelados por negros, com tramas calcadas em violência e sexo, nessa ordem — davam vez ao gueto, mas reforçavam estereótipos ("brutais, vulgares, hipersexualizados"). Sweet Sweetback's Baadasssss Song (1971) abriu alas ao gênero, que teve como estrelas Pam Grier (a sexy vingadora de Coffy e Foxy Brown) e Richard Roundtree (o policial Shaft rendeu três filmes e um seriado). O sucesso gerou subgêneros (vide Blácula) e atraiu grandes estúdios — a Paramount lançou em 1975 o controverso Mandingo, inspiração para o Django Livre de Tarantino, que celebrara a Blaxploitation em Jackie Brown.

 
"Vovó...Zona"
Foto: Fox, divulgação

Black FAT woman: a mercantilização do estereótipo

Comediantes americanos negros decidiram ganhar dinheiro explorando o preconceito. Desde os anos 1990, se travestem de obesas para destilar piadas fisiológicas. Eddie Murphy deu a largada, com O Professor Aloprado 1 e 2, ambos com bilheteria superior a US$ 120 milhões nos EUA. Martin Lawrence tentou copiar com a franquia Vovó...Zona. O diretor, roteirista e ator Tyler Perry virou fenômeno com a série Madea, que nasceu no mercado de DVDs e depois pulou para a tela grande. Já os irmãos Marlon e Shawn Wayans reverteram o blackface: em As Branquelas, interpretam dois policiais negros que se disfarçam de loiras — fúteis e burras, como manda o estereótipo.

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