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Opinião

Paulo Sant'Ana: a Árvore da Serra

07/08/2014 | 04h25
Jesus alimentava-se de mel, peixes e pães. Os pães são filhos legítimos do trigo, o mel é produzido pela abelha, e os peixes são o fruto das águas do mar ou do rio, ou dos regatos e das lagoas.

Os vegetarianos, pelo que me consta, foram além de Jesus, não comeram peixes, embora haja vegetarianos que comam peixes e frutos do mar.

Mas o que eu queria dizer principalmente é que os vegetarianos são seres bondosos, puros, e por isso não admitem o sacrifício animal, e ao não comerem carne querem dizer que não se tornam assim cúmplices do sacrifício animal.

Sabem os leitores por certo a forma como o gado é abatido para ir ao frigorífico, ao açougue e para a mesa dos carnívoros?

Pois o gado é posto num brete, e lá na ponta lhe esperam dezenas de marretadas na cabeça até que ele morra.

Só essa imagem já é suficiente para que cada vez haja mais vegetarianos na face da terra.

É uma colossal judiaria.

Ocorre-me agora a forma doméstica com que há milhões de anos se mata a galinha.

Torce-se o pescoço da ave, e ela fica estremunhando durante minutos, agitando-se.

Experimente degolar a galinha com uma faca, ela vai ficar só com a cabeça parada e o corpo se agitando, certamente num sofrimento atroz, durante a eternidade de cinco minutos, assim como uma minhoca que é cortada pela metade mas suas duas metades continuarão se movendo, creio que por horas.

Os vegetarianos portanto são filhos de uma crença: a de que não se pode provocar sofrimento em nenhum ser vivo.

Só existe uma oposição à ideia vegetariana de que os vegetais não têm alma, ela foi expressada no soneto célebre de Augusto dos Anjos, que passo a transcrever a seguir.

– As árvores, meu filho, não têm alma
E esta árvore me serve de empecilho.
É preciso cortá-la, pois, meu filho
Para que eu tenha um velhice calma.

– Meu pai, por que tua ira não se acalma?
Não vês que em tudo existe o mesmo brilho?
Deus pôs alma nos cedros, nos junquilhos
E esta árvore, pai, possui minh’alma.

Disse e ajoelhou-se numa rogativa:
“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”.

E quando a árvore, olhando a pátria serra,
Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra.

Belíssimo, fulgurante soneto que decorei quando eu tinha 14 anos.

Augusto dos Anjos, pois, ao contrário dos vegetarianos, acreditava que os vegetais possuíam alma.

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