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Treinamentos rápidos e específicos ganham força no Estado

Com origem empresarial, coaching começa a permear o dia a dia da população

16/08/2014 | 16h03
Treinamentos rápidos e específicos ganham força no Estado  Júlio Cordeiro/Agencia RBS
Pessoas como Lisiane Santini, que se diz "viciada em coach", faz girar mercado de treinamentos Foto: Júlio Cordeiro / Agencia RBS

Ansiosas por melhorar sua performance (profissional, sexual, familiar) – e perdidas em um vasto cardápio de papéis para desempenharem (em casa, no trabalho ou no ambiente social), cada vez mais pessoas estão recorrendo ao apoio de coaches. O termo vem do universo empresarial, sempre às voltas com metas a curto prazo, e foi incorporado por outros segmentos. Hoje há treinamentos para quem vai casar, para quem quer melhorar a relação com os filhos, para quem enfrenta uma doença crônica, enfim, para quase tudo na vida. Aliás, um dos nichos mais fortes é o de life coaching, treinamento para a vida.

A multiplicação dessa espécie de personal trainer da mente diz muito sobre a nossa época. Pós-graduada em terapia cognitivo-comportamental, a psicóloga Luciana Brasil entende que a febre do coaching é resultado de pessoas cada vez mais isoladas (você tem centenas de amigos no Facebook, mas quantos estão ao seu lado, mesmo, na vida real?), sem a rede de apoio das famílias (hoje menores e mais fragmentadas).

- Estamos terceirizando responsabilidades - aponta Luciana. - Em uma sociedade sem limites, procuramos o outro para fazer o corte, a punição, para organizar a casa.

É uma sociedade veloz também. A arquiteta caxiense Lisiane Caberlon Santini, 36 anos, reconhece-se como "viciada" nos benefícios de curto prazo. Acaba de concluir seu terceiro coaching, o de estilo, após passar pelo de noiva e pelo de saúde.

- Já fiz terapia, mas o coaching é mais ágil, mais focado - compara.

Um dos life coaches mais conhecidos do Estado, Gabriel Carneiro Costa, autor do livro O Encantador de Pessoas, atende em seu consultório gente de 30, 40, 50 anos que teve pressa para suas conquistas e agora se aflige com os custos de suas escolhas.

- A busca por ser bem sucedido, bonito, saudável, superpai, conhecer o mundo e mulheres e maridos fantásticos cansa. Daí vem a necessidade de ajuda para equilibrar tudo isso. Falta tempo, e também coragem, para pensar no que realmente importa na nossa vida - opina Gabriel.

O trabalho de Gabriel, como coach de vida, é compreender os valores dos clientes e o que desejam para o seu dia a dia. Juntos, eles montam um plano de ação, que envolve, inevitavelmente, renúncias. O processo de mudança, com duração de até um ano, é tão árduo que apenas 35% dos clientes de Gabriel chegam ao final.

- Na hora de colocar o plano em ação, as pessoas ficam com medo. Muita gente vem dizendo que quer mudança, mas não quer percorrer o caminho para isso. Tudo pressupõe perdas e ganhos, e está todo mundo voltado só para os ganhos - lamenta.

Esse vazio de sentido e essa urgência em obter satisfação são, para o psicanalista Robson de Freitas Pereira, da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (Appoa), um fenômeno curioso e paradoxal em uma sociedade em que se vive cada vez mais e com mais qualidade. Mas Robson enxerga como positiva a procura por coaching:

- Não dá para demonizar as invenções. É interessante porque as pessoas reconhecem que têm limites e que sozinhas vai ser difícil conseguir. Também é um reconhecimento de que o mundo se complexizou de tal forma que se precisa cada vez mais de especialistas. O que preocupa é o excesso de imaginário, de soluções mágicas. Querer a perfeição é inevitável, mas a pessoa precisa entender que estará sempre aquém do ideal.

Fechando com a terceirização e a velocidade o triângulo de atratividade do coaching, surge outro espelho de nosso tempo. Em uma era de ostentação e de selfies, ter um coach dá status. No mínimo significa que você tem dinheiro para pagar - o preço de uma sessão pode chegar a R$ 600. O coaching seria mais chique, e seus clientes aparentariam ser menos fracos do que aqueles que recorrem à tradicional terapia.

Mas esse status é discutível. Gabriel Carneiro Costa atende altos executivos de empresas que exigem a assinatura de um contrato de sigilo e chegam a comprar dois horários da agenda do life coach temendo cruzar com o próximo cliente na sala de espera.

Patrícia buscou Sex Coach

A advogada Patricia Moura, 34 anos, ficava tão encucada com o sexo que não se permitia o prazer. Sofria por não aproveitar todo o potencial de intimidade com o parceiro Marco Marczak, 42. Juntos havia quatro anos, eles procuraram ajuda de uma sex coach em 2013. No início, Patricia fez sessões individuais para trabalhar a própria sexualidade, sempre no consultório da sua treinadora. Quando necessário, ultrapassava as cortinas transparentes que separam a sala de conversas dos colchões com lençóis brancos estirados no chão para exercícios de autoconhecimento propostos pela coach.

- Eu tinha vergonha do meu corpo e culpa em relação ao sexo - confessa Patricia, que contratou um pacote de três encontros. - Hoje enxergo com mais naturalidade, sem o peso imposto pela sociedade, pela Igreja.

Os efeitos se estenderam para a relação. O casal, que vivia entre idas e vindas, desde então passou a morar junto. Para ela, Marco tornou-se mais amoroso. Para ele, Patricia passou a expressar mais suas vontades.

- O homem cresce com uma visão distorcida de que a mulher tem que suprir todas as fantasias dele - comenta Marco. - Consegui colocar a Patricia fora desse contexto, a nossa comunicação melhorou e saiu um peso das nossas costas.

- Ainda temos ideia de contos de fada, de que tudo se resolve naturalmente, que o outro vai adivinhar as nossas necessidades, mas isso não acontece de forma romântica. Aí vem a frustração, e é nesse momento que o coach entra - afirma a sex coach Paula Fernanda Andreazza.

Ela diz ser mais procurada pelos perfeccionistas do que pelos "problemáticos":

- Querem aprender a expandir suas experiências sexuais, serem melhores do que já são.

Paula conta que a diferença entre seu trabalho e o de um terapeuta sexual é que esse último foca no passado para compreender a situação, enquanto ela busca ensinar, na prática, o que fazer e ajuda a planejar o futuro. A sex coach não se intromete corporalmente na relação do casal durante a consulta, mas, quando necessário, a observação faz parte do treinamento. Já teve quem pedisse para ela assistir à transa dos dois e apontar pontos a aprimorar.

Carlos compreendeu a rebeldia do filho

Silvia Blank, 50 anos, é educadora desde os 22 e, há três anos, virou coach parental.

- Você pode se capacitar para ser o melhor pai para o seu filho, é possível se organizar melhor como família - sustenta.

Era do que precisava o casal Carlos Roberto de Melo Cortez, 47 anos, e Maria Adélia Figueiredo Eusébio, 49. Dono de uma empresa de autopeças em Londrina (PR), o gaúcho, por conta do ofício, viajava frequentemente a São Paulo. Ficava semanas fora. O filho único, Murilo (hoje com oito anos), passou de menino dócil a problemático.

- Eu sempre fui muito presente e, de uma hora para a outra, estava sumindo de casa. Família sempre veio em primeiro lugar para mim, mas tratava-se do meu trabalho, que também era importante para dar o conforto que a minha família merece - pondera Carlos.

Ao dividir o problema com um amigo, surgiu a ideia do coach parental. O tratamento com Silvia durou cerca de um ano. Foram apenas quatro encontros presenciais – dois no escritório em Porto Alegre e dois em Londrina. O restante fazia por skype ou e-mail.

- Nunca tinha feito nem terapia, mas foi a solução que encontramos. Ela nunca disse o que fazer, mas nos fazia pensar, ter insights para tomarmos nossas próprias decisões. Não sei o que teria sido da nossa família sem esse apoio - afirma Carlos.

Foram meses até enxergar que o problema não era a rebeldia do filho, e sim a causa dessa rebeldia. Carlos decidiu recuar nos negócios e tornar as viagens mais raras, mesmo que isso significasse deixar de atender grandes clientes:

- Perdi dinheiro, mas o que ganhei não tem preço.

Lilly voltou a planejar

Há quase um ano, em setembro de 2013, Lilly Paltian da Silva foi diagnosticada com câncer de mama. Apesar de Lillly sempre manter o astral elevado diante dos problemas, a doença (com quatro meses de quimioterapia intensa), a desestabilizou. Viu-se diante de uma doença que lhe impunha um objetivo para sobreviver. Só que não tinha. Lembrou-se do livro O Encantador de Pessoas, de Gabriel Carneiro Costa, e visualizou em um life coach a solução.

- Sempre levei muito a sério o meu trabalho, agora levo as coisas mais leves. Me dou ao luxo de ir para casa no meio do expediente se eu quiser tirar uma soneca. Viajo com as amigas sem perguntar para onde vamos. Consegui enxergar os projetos e colocar ordem neles - comemora Lilly, 50 anos, dona de uma loja de confecções femininas em Camaquã.

Lilly vai às consultas com seu coach de vida sempre que tem médico em Porto Alegre. As enfermeiras do hospital aguardam ansiosas pela chegada da paciente, que já se sente apta para aplicar técnicas de coach - por diversão, "sem cobrar nada", ri. Pergunta sobre os sonhos das pessoas e arrisca até a dar tema de casa para aproximá-las dos seus objetivos. Lilly já tem a sua próxima meta:

- Encontrar um novo amor.

O que é coaching

- A principal diferença entre coaching e terapia é que os coaches não "mexem" no passado. Focam no futuro dos clientes, que participam da construção da solução, estabelecendo a meta e ao que estão dispostos a renunciar para alcançá-la. O coach prescreve tarefas.

- Ocorrem de três a 12 sessões, semanais ou quinzenais, no escritório do coach ou em outro ambiente, com preços de R$ 100 a R$ 600. Alguns coaches estipulam o prazo de até um ano para os objetivos.

- A profissão não é regulamentada, por isso, Richeli Sachetti, instrutora da Sociedade Brasileira de Coaching (entidade que formou mais de 10 mil coaches em 15 anos), alerta: Desconfie de promessas milagrosas e de quem diz que vai te dar respostas. O coach desenvolve a pessoa com base nas soluções que ela mesma apresenta.

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