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Crise na Ucrânia

Ucrânia passa por problemas em cidade retomada dos rebeldes

Slovyansk se tornou um teste para saber se o governo central em Kiev pode ganhar no campo de batalha e recuperar a lealdade do leste rebelde

14/08/2014 | 03h41
Ucrânia passa por problemas em cidade retomada dos rebeldes Mauricio Lima/NYTNS
Ruínas de orfanato em Slovyansk, na Ucrânia Foto: Mauricio Lima / NYTNS

Quando Denis Bigunov, funcionário público, voltou recentemente ao trabalho depois uma longa pausa, encontrou três capuzes de prisioneiros embalados com fita crepe escondidos em seu escritório na prefeitura, lembretes sinistros deixados para trás pelos rebeldes que apoiam a Rússia e controlaram esta cidade oriental da Ucrânia durante quase três meses.

Ele doou os capuzes para o museu de história local "para lembrar às pessoas o que realmente aconteceu" aqui depois que homens armados mascarados assumiram o controle em 12 de abril e, saudados inicialmente por muitos moradores, começaram uma guinada brutal para criar uma nova ordem ancorada na lealdade fanática à Rússia.

Com a cidade agora de volta às mãos do governo e os militares ucranianos avançando gradualmente contra outros povoados vizinhos que neste ano haviam aderido à causa a favor da Rússia, Slovyansk se tornou um teste para saber se o governo central em Kiev pode ganhar no campo de batalha e recuperar a lealdade do leste rebelde.

— Não podemos apenas liberar esses lugares pela força das armas, é necessário mudar a visão das pessoas — disse Anton Gerashenko, funcionário do Ministério do Interior que visitou a cidade em julho.

Ele veio chefiar a exumação de cadáveres de uma cova coletiva que teria sido deixada para trás pelos rebeldes antes de fugirem para o sul no dia cinco de julho, rumo a Donetsk, ainda mantida pelos separatistas.

Depois de um dia de escavação, os operários desenterraram 14 cadáveres em decomposição, todos envoltos em frágil mortalha branca.

Enquanto tentava garantir o consentimento, se não a confiança, da população em grande medida de etnia russa de Slovyansk, a Ucrânia descobriu que sua melhor arma foi dada pelos próprios rebeldes – um legado de brutalidade e caos que serviu para indispor todo mundo.

— Foi um horror. Um horror total. Ninguém quer a repetição daquilo — afirmou Arkady Glushenko, cirurgião-chefe do Hospital Lenin, o maior da cidade.

Outra arma poderosa nas mãos das autoridades ucranianas é o medo que muitos moradores têm da retaliação por colaborarem com a liderança pró-Rússia que perdeu o lugar.

As novas autoridades criaram um número telefônico para os moradores informarem, sob a promessa de anonimato, a respeito de colaboradores rebeldes; também foram impressos folhetos alertando que uma nova lei estabelece até 15 anos de prisão por separatismo.

— É claro que as pessoas têm medo. É o medo de serem punidas — disse Glushenko. Embora acredite piamente que a Ucrânia deva permanecer unida e se orgulhe dos dois filhos nas forças armadas ucranianas, o cirurgião alertou para que a vingança contra os colaboradores seja controlada. O médico afirmou ter permanecido em Slovyansk durante o período de controle separatista e que cuidou várias vezes de rebeldes feridos, não porque quisesse ajudá-los, mas por ser necessário.

Quando os rebeldes conquistaram Slovyansk em abril, foram hasteadas bandeiras russas, a prefeita eleita foi presa, traidores foram caçados e foi proclamado que a cidade era um "símbolo da batalha pela dignidade humana". Milhares de moradores se reuniram na praça grande diante da prefeitura e saudaram o golpe favorável à Rússia, cantando o nome do país vizinho e posando para fotografias com os pistoleiros que elogiavam como salvadores dos fascistas que tomaram o poder em Kiev, com a derrubada, em fevereiro, do presidente Viktor Yanukovych, falante russo de Donetsk.

Depois que homens armados pró-Rússia fugiram à medida que as forças armadas ucranianas avançavam, muitas das mesmas pessoas correram para a mesma praça para saudar os caminhões ucranianos enquanto soldados distribuíam alimentos gratuitos. Praticamente ninguém agora admite ter apoiado os separatistas.

As autoridades ucranianas restauraram a eletricidade, a água, os salários dos trabalhadores municipais e o pagamento das aposentadorias de idosos, que agora respondem por quase metade da população reduzida da cidade de aproximadamente 80 mil pessoas, perto de dois terços do número que ali morava antes da chegada dos rebeldes.

Também inundaram a cidade com soldados, muitos deles mal treinados, e fortaleceram a polícia local – com lealdade sob suspeita – com policiais vindos das regiões ocidentais do país, onde o sentimento contra a Rússia é mais forte.

A Ucrânia foi auxiliada de forma estranha pela Rússia, cuja imprensa fortemente controlada veiculou uma série de histórias de arrepiar os cabelos alegando atrocidades que serviram para os moradores repelirem as autoridades rebeldes. O canal de televisão russo LifeNews transmitiu a reportagem "Caça às bruxas", afirmando que Slovyansk virou um grande campo de prisioneiros, como a Baía de Guantánamo, em Cuba, onde os Estados Unidos detêm terroristas. Já o Canal Um, em propaganda política particularmente medonha, informou que tropas ucranianas haviam crucificado um menino de três anos diante da mãe na praça central.

Até mesmo moradores que detestam o governo ucraniano em Kiev, a capital, descartam a história da crucificação como mentira grotesca. Até a reportagem da televisão russa, ninguém aqui havia ouvido falar desse incidente.

Verdade ou não, a propaganda russa ajudou a brecar a resistência aberta à nova ordem ucraniana. Quase todos os moradores que apoiaram ativamente os rebeldes fugiram.

Raiva e animosidade borbulham sob aparente calmaria. Em cada empresa, todos sabem quem fez o que durante o domínio rebelde, criando correntes de suspeita.

Nikolai Mishkin, técnico da usina de aquecimento comunitária, afirmou que o chefe trabalhou zelosamente com os rebeldes, chegando a convidá-los a guardar o armamento no pátio e a subir na chaminé de tijolos para localizar posições de militares ucranianos.

— Ele foi muito agressivo em seu entusiasmo — disse Mishkin, que disse não mais ter visto o chefe desde a chegada das forças ucranianas.

Moradores que sofreram durante o domínio rebelde reclamam que as autoridades ucranianas não fizeram o suficiente para punir quem se aliou aos separatistas. Um grupo local de ativistas pró-Ucrânia se reuniu diante da prefeitura para exigir o expurgo completo de todos os funcionários públicos que colaboraram com os rebeldes.

A única figura famosa que se sabe ter sido presa pelos ucranianos é Nelly Schtepa, ex-prefeita, que a princípio apoiou os pistoleiros pró-Rússia, mas depois passou três meses trancada pelos rebeldes na prefeitura. Ela agora é mantida cativa pelas autoridades nacionais em Kharkiv, maior cidade na porção leste do país, à espera do julgamento por acusações de separatismo.

O novo chefe de polícia de Slovyansk, Igor Ribalchenko, disse que investigadores começaram a coletar dados sobre residentes suspeitos de terem apoiado ativamente os rebeldes, mas acrescentou que a colaboração disseminada de pessoas comuns não seria punida.

— A maioria das pessoas simplesmente tinha medo porque havia terroristas armados andando por todo lado — segundo ele, não lhes restando alternativa além de obedecer.

Ribalchenko declarou que oito policiais que se aliaram abertamente aos rebeldes fugiram. Uma comissão do Ministério do Interior está investigando o resto dos 300 integrantes da polícia. O chefe acrescentou que não existe necessidade de expurgo amplo da força, apesar do fato de seus homens não terem se oposto quando os rebeldes tomaram a cidade e os ajudaram a concretizar a tomada de poder.

A posição cautelosa enfureceu gente como Victor Butko, proprietário de uma impressora e editor de um pequeno jornal fechado pelos rebeldes. Agarrado pelos pistoleiros pró-Rússia antes da chegada das tropas ucranianas, ele foi mantido durante dias num porão fétido debaixo da sede do serviço de segurança local.

Ao passar por três policiais vigiando a cova coletiva deixada pelos rebeldes, Butko os ofendeu por não resistirem aos separatistas. "Vocês são os culpados por tudo isto. Vocês não fizeram anda. Deveriam ter pegado as armas e atirado neles."

Os policiais olhavam nervosamente para os pés.

Enquanto moradores que fugiram durante a ocupação rebelde voltam paulatinamente para casa, uma aparência de normalidade vai tomando forma. Entretanto, Butko previu que seria preciso uma geração para Slovyansk se livrar do namoro com o nacionalismo russo.

— O maior problema aqui não é econômico nem físico. É moral. O problema aqui está na cabeça das pessoas — ele assegurou.

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