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Dormindo bem

Vídeos na internet ajudam insones a pegar no sono

Algumas pessoas afirmam que a qualidade mundana e monótona dos vídeos nos ajuda a alcançar um estado de serenidade extremamente necessário

07/08/2014 | 04h01


Há alguns meses, eu estava em um trem indo para o trabalho quando um homem com um jornal na mão subiu no vagão e se sentou ao meu lado. Enquanto eu o via folheando o jornal, senti um arrepio passar pela minha cabeça como bolhas de refrigerante, fiquei tão relaxada que quase peguei no sono.

Não era a primeira vez que experimentava essa sensação ao escutar o som de folhas de papel – eu me lembro de sentir a mesma coisa desde muito pequena. Entretanto, tive um estalo e, como sempre sofri com a insônia, pensei que talvez pudesse reproduzir essa experiência digitalmente, sempre que encontrasse dificuldades para dormir.

Sob meus lençóis naquela noite, coloquei os fones de ouvido, abri o aplicativo do YouTube no celular e procurei "sons de papel". O que descobri me fez ficar de queixo caído.


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Havia quase 2,6 milhões de vídeos exibindo um fenômeno conhecido como Resposta Sensorial Meridiana Autônoma, ou ASMR na sigla em inglês, que evoca a sensação de formigamento que passa pelo couro cabeludo ou por outras partes do corpo em resposta a estímulos auditivos, olfativos ou visuais.

Descobri que o som de páginas raspando umas nas outras é apenas um dos muitos gatilhos que causam a ASMR. Os estímulos mais comuns incluem sussurros; batidas ou arranhões; a execução de tarefas comuns e repetitivas, como dobrar toalhas ou mexer em uma coleção de cartões; e fazer de conta – a pessoa responsável pelo vídeo, geralmente uma mulher tranquila, fala suavemente para a câmera e finge estar cortando o cabelo, por exemplo, ou fazendo um exame nos olhos. Os vídeos têm em média 30 minutos, mas alguns chegam a durar mais de uma hora.




Os vídeos e os personagens que os produzem – às vezes conhecidos como "ASMRtistas", ou "fazedores de cócegas" – podem parecer estranhos, assustadores, ou simplesmente chatos (tente convencer alguém dos prazeres de assistir um nerd alemão montando lentamente um computador durante 30 minutos). Muitos espectadores ficam assustados com a sensualidade dos vídeos – muitas vezes confundida com sexualidade. Duas das ASMRtistas mais conhecidas da web, "Maria", da GentleWhispering (com mais de 250,7 mil assinantes) e Heather Feather (com mais de 146,5 mil), afirmaram que embora recebam e-mails e pedidos lascivos de tempos em tempos, muitos de seus seguidores costumam escrever notas de agradecimento pelo alívio da ansiedade, da insônia e da melancolia que alcançaram por meio dos vídeos feitos por elas.

Algumas pessoas afirmam que a qualidade mundana e monótona dos vídeos nos ajuda a alcançar um estado de serenidade extremamente necessário. Outras se sentem reconfortadas por serem o foco exclusivo do carinho e atenção do ator da ASMR. Ou, é possível que o grande número de sons e cenários exibidos ajudem a despertar memórias prazerosas da infância. Quando eu era criança, peguei no sono muitas vezes enquanto meu pai trabalhava em casa: engenheiro de computadores, ele sempre mexia em papéis, apertava teclas e montava e desmontava computadores.

O Dr. Carl W. Bazil, especialista em desordens do sono da Universidade de Columbia, afirmou que os vídeos de ASMR forneciam novas formas de desligarmos nossos cérebros.

— As pessoas que têm insônia vivem em um estado constante de excitação. Tratamentos comportamentais, como imagens guiadas, relaxamento progressivo, hipnose e meditação, tentam enganar a consciência para que ela faça o que você deseja. Os vídeos de ASMR parecem ser uma forma alternativa de ajudar a desligar o cérebro — afirmou.

Até o momento, eles parecem estar funcionando para mim. Assim como muitas outras pessoas que sofrem de insônia, tentei diversos remédios naturais, como raiz de valeriana e melatonina, regimes vigorosos de exercício e soníferos poderosos como o Ambien e o Lunesta. Ainda assim eu raramente dormia. Nada funcionou tão bem e com tanta frequência como um homem observando uma coleção de selos, ou artigos ligados ao Titanic em vídeos de ASMR.

Entretanto, não será nada fácil encontrar as raízes neurológicas por trás dessa sensação maluca. Muitos dos cientistas a quem procurei fugiram do assunto, dizendo que isso não passa de uma pseudociência com poucos estudos a respeito.

Bryson Lochte, aluno de pós-graduação no Instituto Nacional do Uso de Drogas, observou a ASMR em seu projeto de conclusão do curso de neurociências do Dartmouth College, no ano passado e enviou o trabalho para ser publicado em uma revista científica. Lochte afirmou que "nos concentramos nas áreas do cérebro associadas à motivação, à emoção e à excitação para examinar os efeitos da ASMR nos 'sistema de recompensas' do cérebro" – um conjunto de estruturas neurais que levam a um aumento nos níveis de dopamina durante momentos de prazer, como a alimentação e o sexo.

Ele comparou a ASMR com outra sensação estranha mas muito bem estudada, conhecida como frisson musical, que provoca arrepios (conhecidos cientificamente como piloereções) como uma reação física ao estímulo emocional de determinada música. Mathias Benedek, assistente de pesquisa da Universidade de Graz, na Áustria, e coautor de dois estudos a respeito da piloereção causada pela música, afirmou que a ASMR pode ser uma versão mais tranquila do mesmo fenômeno.

— O frisson pode simplesmente ser uma reação mais forte — afirmou. E assim como a ASMR, as melodias que causam o frisson em uma pessoa, podem não ter o mesmo efeito em outra.

Robert J. Zatorre, professor de neurociências do Hospital e Instituto Neurológico de Montreal, na Universidade McGill, que também estudou o frisson musical, afirmou que "o ponto alto do meu estudo é que músicas prazerosas aumentam a liberação de dopamina no corpo estriado, que é um componente fundamental do sistema de recompensa do cérebro". Em um artigo para The New York Times publicado no ano passado, intitulado "Porque a música faz nosso cérebro cantar", ele destacou que "o mais interessante aqui é o momento em que o neurotransmissor é liberado: não apenas quando a música chega ao auge da emoção, mas também diversos segundos antes, durante a fase de antecipação".

É possível que as experiências do dia a dia capturadas pelos vídeos de ASMR - sussurros, tilintares, caixas sendo abertas e fechadas – evoquem um mecanismo de antecipação similar, trazendo memórias de prazeres do passado que nos levam a antecipar e relaxar todas as vezes que os assistimos.

— O assunto todo ainda é muito desconhecido. Tenho muito interesse em saber quais são os outros traços relacionados à sensibilidade à Resposta Sensorial Meridiana Autônoma, e se esse é um atributo hereditário e que tipo de efeito fisiológico essa sensação gera no corpo. Todas essas questões serão respondidas com facilidade através de estudos de acompanhamento. Esperamos que nosso estudo ajude a lançar as bases dessa pesquisa — afirmou Lochte.

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