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Opinião

J. A. Pinheiro Machado: ler, escrever à mão e comer sem pressa

Colunista substitui Luis Fernando Verissimo, que está em férias, às segundas-feiras em ZH

Por: J. A. Pinheiro Machado
20/10/2014 - 05h01min

Não faltam alertas contra a devastação das florestas, a poluição, os automóveis em excesso paralisando o trânsito, entre tantas desventuras. Acrescento pelo menos três outros valores permanentes, infelizmente negligenciados pela pressa e pela displicência destes tempos: o hábito da leitura, o ato de escrever a mão e as refeições demoradas.
Sobram resenhas insossas com a tentativa inútil de substituir, em 50 linhas, a aventura deslumbrante das 7177 páginas dos quatro volumes encadernados em couro da obra de Proust na Bibliotèque de la Pléiade. Entretanto, resumos pasteurizados são tão insuficientes quanto um sanduba solitário, de pé, à beira de um balcão. Os vagares da leitura são inexcedíveis.

Hoje se sabe que, além do prazer que proporciona, ler é um valioso esforço cerebral associado ao ato de escrever a mão. Pesquisas recentes sugerem que ler e também escrever a mão são atividades que funcionam como vigorosos exercícios de ginástica cerebral. E mais: quando as crianças, antes de sucumbirem à digitação, aprendem primeiro a escrever à mão, elas não apenas são alfabetizadas em menos tempo; também se mostram mais capazes de gerar ideias e reter informações.
Os benefícios de escrever à mão transcendem a infância: para os adultos, digitar por certo é mais rápido, mas pode reduzir a capacidade de processar informações novas.

Ler e escrever, em especial do jeito tradicional, são tarefas cognitivas complexas: juntam “numa única orquestra de neurônios” – na elegante imagem de um especialista – áreas cerebrais de ação motora, da linguagem e do raciocínio.
O outro item negligenciado nestes ásperos tempos faz parte dos rituais mais antigos da humanidade: refeições em grupos de amigos ou familiares, em horários certos. Os pequenos vínculos que unem as famílias e a estabilidade dos lares são forjados à mesa. Por isso, há quem diga que, do ponto de vista da unidade familiar, comer junto é mais importante do que a fidelidade conjugal. Quem come acompanhado, conversando animadamente com amigos e familiares, no mínimo tem que repartir o tempo entre a comida e os convivas. Aquele que come sozinho, afora o desencanto, tem só o prato de comida como companhia. Ou seja, jantares solitários, além de tudo, engordam.

 
 
 
 
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