Memórias

Salve as pedras pisadas

Monumentos de Porto Alegre conservam lembranças dos antepassados

15/02/2017 - 05h00min | Atualizada em 15/02/2017 - 05h00min

É curioso como a nossa mente é quase que pura memória. Somos o que lembramos, disse Norberto Bobbio. Comprovo isso em caminhadas que faço com certa frequência no centro de Porto Alegre. Vou ao Mercado Público e passo pelo antigo abrigo de bondes. Os bondes são constantes nesses meus passeios ao passado. Inevitável também é lembrar do meu pai, Pedro Knapp (in memoriam). Ele andava comigo por ali e contava histórias de seus trabalhos e amigos da cidade. Eu era fascinado por essas lembranças. Acredito que certos prédios e até mesmo o piso de certas calçadas deveriam ser preservados como referências/símbolos em nossas memórias. Parece que esses lugares, essas pedras, todas gastas, deixam-nos pistas, marcas de nossos antepassados. 

Prédio da antiga Cervejaria Brahma, na Avenida Cristovão Colombo Foto: Paulo Lima / Banco de Dados

O antigo Correio (foto inferior) é um desses lugares que nos atiçam a memória. Por suas escadas, tenho a certeza de que todos os meus familiares alguma vez passaram para enviar uma carta ou receber uma encomenda. Dia desses, em um evento no local, não cansava de buscar vestígios de uma época. Passear no centro da cidade, para muitas pessoas, deve ser como uma agradável viagem no tempo. Para mim, faz lembrar da generosidade do meu pai, da pessoa que era, querido por todos que o conheciam. 

E vou adiante, aos tempos de veraneios em uma praia mais humana, quando Tramandaí dava peixe e os siris beliscavam nossos pés e existia o confortável silêncio da noite. O meu fim de semana transformava-se com a presença do meu pai. Uma simples casa de veraneio era pura alegria. Boas lembranças.

Prédio dos Correios, na Praça da Alfândega Foto: Robinson Estrásulas / Banco de Dados

Outro lugar que escancara esse tempo é o prédio da antiga Cervejaria Brahma (foto superior), hoje um grande shopping, que possui (compulsoriamente) a fachada original da fábrica, e felizmente está lá, como era no tempo da minha infância (60 anos atrás), quando morávamos na Cristóvão Colombo, diante daquela enorme edificação. Quando passo por ali, ainda sinto o aroma de cevada, fortalecido, lá no alto, por aquelas belas esculturas, que hoje quase ninguém percebe. Todo o conjunto de edifícios está no centro da minha memória. E como é bom e saudável a gente chamar, através de monumentos e construções históricas e até mesmo de calçadas, alegres histórias e personagens do passado, de momentos importantes de nossas vidas.

Uma cidade deve crescer, desenvolver-se, mas deve cuidar para que seus moradores consigam nela reconhecer suas histórias e lembrar de ocasiões, amigos e pessoas queridas. Caso contrário, torna-se uma cidade sem alma.

Colaboração de Inácio Knapp

 
 
 
 
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