Expodireto

África quer importar produtores gaúchos

Presença constante na feira, estrangeiros vêm agora em busca de novo tipo de negociação

06/03/2014 | 15h49
África quer importar produtores gaúchos Ivo de Paula/Especial
Produtor de arroz em Santo Antônio da Patrulha, Jairo Barcelos é um dos interessados em plantar na Nigéria Foto: Ivo de Paula / Especial

Já virou costume ver estrangeiros passeando pela Expodireto, em Não-Me-Toque, em busca de grãos, de carne e de tecnologia. Mas neste ano, a feira promete ter  negociações internacionais inéditas. Além da compra de produtos e serviços, os visitantes, mais especificamente os africanos, querem importar produtores do Rio Grande do Sul.

A Nigéria, por exemplo, tenta atrair agricultores daqui para plantarem lá. A ideia é que os produtores levem tecnologia, como o plantio direto, para que as lavouras africanas possam atingir maior produtividade, segundo o coordenador da área internacional da feira, Evaldo Silva Junior, que até a semana passada estava no país africano com um grupo de gaúchos. Além disso, a intenção é que os agricultores e pecuaristas utilizem mão de obra local, gerando empregos e capacitação.

— O governo nigeriano está concedendo, em comodato por 99 anos, terras para que sejam desenvolvidos projetos em agricultura. Eles têm interesse no plantio de grãos, principalmente arroz, mas também no trabalho com frangos, ovos e gado — explica Evaldo.

O programa deve ser implantado em três anos, conforme Antônio Monteiro, produtor de Palmares do Sul que trabalha com comércio exterior e está reunindo agricultores interessados no negócio. O primeiro passo seria deixar de exportar o arroz pronto para consumo e vender o arroz com casca, para ser industrializado na Nigéria. Depois, os produtores passariam a plantar no país, levando técnicos capacitados para ensinar os nigerianos a cultivar arroz. A produção serviria para abastecer a indústria local. Monteiro planeja levar até 30 produtores de arroz do Litoral Norte para conhecer a Nigéria depois da colheita desta safra. A intenção é ver de perto a qualidade do solo, que já está sendo analisado, e as condições de trabalho no país:

— A maioria desses arrozeiros têm pequenas propriedades. Seria uma maneira de aumentar a produção, com garantia de venda.

Produtor em Santo Antônio da Patrulha, Jairo Barcelos, 62 anos, é um dos interessados. Sem a possibilidade de aumentar a área plantada, de 500 hectares, e com dificuldades de mão de obra, ele conta que foi atraído pela oferta da Nigéria, onde haveria terra em abundância e pessoas em busca de trabalho e conhecimento na área.

— Comprei máquinas maiores por causa da falta de mão de obra. O projeto ainda está em negociação, mas é uma janela que se abre — diz Barcelos.

A proposta de parceria feita pela Nigéria foi antecedida por uma recente barreira para as importações, que afetou as vendas brasileiras para lá. Presidente da Federação das Associações de Arrozeiros (Federarroz), Henrique Dornelles relata que o país africano, principal importador de arroz do mundo, aumentou em cerca de 100% as taxas de importação do produto para, segundo ele, tentar fortificar a produção do grão no país, que ainda é feita com pouca tecnologia. Em troca do conhecimento e da tecnologia que os agricultores gaúchos levariam ao país, o governo sinalizou que baixará a taxas de importação do grão brasileiro.

— Somos favoráveis à transferência de conhecimento desde que tenhamos tratamento diferenciado na hora de vender — destaca Dornelles.

Segundo ele, o país costumava exportar até 300 mil toneladas de arroz por ano à Nigéria, mas com as barreiras criadas não vendeu nada em 2013.

Feira e negócios cada vez mais internacionais

O projeto com a Nigéria é reflexo da internacionalização da Expodireto. Um mês antes da feira, a organização já comemorava a confirmação de 77 países, três a mais do que na última edição. O deverá ter a presença de 19 embaixadores — sendo 18 deles africanos — e três presidentes — do Gabão, da Guiné Equatorial e do Togo.

O presidente da feira, Nei César Mânica, ressalta que a internacionalização do evento tem relação com o sucesso das negociações da última edição. Em 2013, o setor internacional foi o segundo que mais cresceu em volume de negócios na Expodireto. O que colaborou para que o último ano registrasse aumento de 128% nas vendas, que passaram de R$ 1,11 bilhão para R$ 2,5 bilhões. Os 74 países visitantes movimentaram R$ 237 milhões, valor 132% superior ao obtido em 2012. A expectativa para este ano é de superação do valor.

Com 54 países e mais de 1 bilhão de consumidores em potencial, a África é considerada a “bola da vez” das relações internacionais no setor do agronegócio, comemora o presidente da Câmara de Comércio Afro-brasileira (Afrochamber), Abel Domingos. Segundo ele, por ter clima parecido com o Brasil, o continente vê o país – e o Rio Grande do Sul — como referência.

Neste ano, Domingos explica que Não-Me-Toque será um lugar onde os africanos buscarão adquirir conhecimento na área agrícola, principalmente em relação ao tratamento dedicado ao solo.

Confira no mapa os países visitantes que serão destaques na feira:
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