Da propriedade ao frigorífico

Choque, agitação e berro: o tortuoso caminho do boi para o abate

O Campo e Lavoura acompanhou a viagem de uma carga de gado e constatou que o bem-estar animal e a preocupação com a qualidade final da carne ficam pela estrada

Por: Bruna Karpinski
07/10/2016 - 16h00min | Atualizada em 11/10/2016 - 11h01min


"Os homens de preto, trazendo a boiada
vêm vindo cantando dando gargalhada
E o bicho coitado não pensa nem nada só vem pela estrada (...)
O gado coitado, nasceu foi marcado
Aí vai condenado na estrada berrando, a querência deixando, os homens malvados, quebrando e gritando"

Paulo Ruschel, autor de Homens de Preto

Os versos de Paulo Ruschel, na música Homens de preto, trazem certo lirismo para uma dura realidade. Hoje, o "berro" dos homens para tocar a boiada a pé vem acompanhado pelo choque, utilizado pelos transportadores que levam o gado da propriedade ao frigorífico, e pelos machucados decorrentes da agitação e do cansaço dos animais dentro de caminhões e dos buracos nas estradas.

Leia a continuação da reportagem em:
Como o transporte impacta em perdas econômicas e na qualidade
Regulamentação do transporte de animais está em discussão

Estresse ocasionado pelo embarque e transporte impacta no bem-estar dos animais e na qualidade do produto final Foto: André Ávila / Agencia RBS

Inúmeros percalços fazem parte do transporte de bovinos, etapa mais crítica do sistema de produção. Se o trajeto percorrido já é árduo para os trabalhadores envolvidos, devido a problemas como a falta de condições das estradas e estrutura dos caminhões, a jornada é ainda mais agressiva para os animais.

A preocupação com o bem-estar dos bovinos que têm como destino o abate é uma via de mão dupla. Embora os cuidados com a saúde física e mental ainda não sejam uma exigência nacional, as boas práticas são tendência mundial. Mercados mais rigorosos, como Estados Unidos e União Europeia, já valorizam produtos vindos de sistemas de produção que respeitam os preceitos de bem-estar.

Um dos entraves para este avanço no Brasil é a falta de regulamentação. Atualmente, não existem regras específicas para a condução de cargas vivas. Pela legislação, o traslado de animais destinados ao abate atende às mesmas exigências que qualquer outro caminhão que transporta tijolos ou cimento, por exemplo.

A situação é mais preocupante em viagens longas. Quando frigoríficos de outros estados, como São Paulo, compram bovinos do Rio Grande do Sul, o trajeto pode durar até três dias. Mas não é necessário ir tão além para verificar as deficiências.

Para conhecer de perto como funciona o sistema, no último final de semana de setembro, a reportagem do Campo e Lavoura acompanhou o trajeto de dois caminhões que levaram 67 bovinos de uma propriedade em Rosário do Sul até um frigorífico da Marfrig, em Alegrete. Mesmo sabendo da presença da imprensa e prometendo maior capricho, o que se viu nos 184 quilômetros de estrada foram animais sendo chutados, machucados e conduzidos por bastões de choque. Até mesmo a norma — por parte do frigorífico — de os motoristas não subirem nos caminhões para evitar estresse, foi ignorada.

Diário de bordo

Chegamos na fazenda, em Rosário do Sul, às 9h30min. Em duas horas, os animais foram manejados e o embarque concluído. 

Os animais aspados não foram separados para evitar lesões — a separação é uma recomendação do Manual de Boas Práticas de Manejo — Transporte, elaborado pelo Ministério da Agricultura em 2013.

Com exceção do brete, as paredes laterais da mangueira não são fechadas. Esse cuidado evitaria que os animais fossem capazes de ver a movimentação externa, contribuindo para o menor estresse.

Os responsáveis pelo embarque na propriedade não utilizaram cachorro, o que é correto. O manejo do gado é feito com plástico colorido, que funciona como bandeiras sinalizadoras.

Equipamento de choque é utilizado sempre que algum bovino "empaca" durante o procedimento de embarque Foto: André Ávila / Agencia RBS

Durante o embarque, foi utilizado bastão elétrico para conduzir os bovinos. Embora, durante a entrevista, o comprador tenha enfatizado que não utilizam o método de choque, seguindo orientação do frigorífico, na prática foi constatado o contrário. O instrumento foi acionado todas as vezes em que algum animal "empacou" ou deitou durante o trajeto.

Trajeto

Os dois caminhões partiram da fazenda às 11h50min com destino a Alegrete. Cada caminhão possui dois reboques, totalizando quatro gaiolas por veículo. Cada compartimento acomoda, em média, oito bovinos. Assim, um caminhão percorreu o trajeto com 34 animais e outro, com 33. Os primeiros 35 quilômetros foram de estrada de chão batido, com velocidade média entre 10 e 20 quilômetros por hora, totalizando 3h15min de viagem. Nesta etapa, a jornada foi de muita tensão e exaustão.

Durante a viagem, transportador volta a utilizar o equipamento de choque para fazer animais deitados levantarem Foto: André Ávila / Agencia RBS

Na segunda parada, um dos motoristas verificou que dois animais haviam deitado. Para seguir viagem, é preciso fazer os bovinos levantarem, caso contrário, os demais podem pisotear e causar lesões ou até a morte. Diante da situação, foi utilizado bastão de choque. Solução, segundo especialistas, seriam caminhões melhor estruturados.

O motorista, atento ao comportamento dos animais no caminhão, percebeu que bovino havia trancado a pata dianteira  Foto: André Ávila / Agencia RBS

A terceira parada não estava prevista, mas um dos motoristas percebeu pelo espelho retrovisor a movimentação de uma corda e resolveu verificar, constatando que um dos animais estava com a pata dianteira presa à grade do compartimento. Para ajudá-lo, foi amarrada uma corda e a pata foi puxada. 

Imprevisto ao longo da viagem ocasionou machucado na pata dianteira do bovino transportado para o abate Foto: André Ávila / Agencia RBS

Superada a dificuldade, o animal lesionado tombou. Para evitar que permanecesse deitado, também foi usado o choque.

Os outros 149 quilômetros foram de estrada asfaltada, com velocidade média entre 40 e 80 quilômetros por hora, somando outras três horas de transporte. Chegando em Alegrete, o frigorífico não permitiu que a reportagem acompanhasse o desembarque dos animais.

O que diz a Marfrig e o Setcergs

A Marfrig Global Foods esclarece que atua no segmento, realiza treinamentos teóricos e práticos com transportadores sobre as boas práticas de manejo de bovinos, nas propriedades e durante o transporte. A companhia, informa ainda, que exige a inspeção dos veículos antes da efetivação do transporte.

O Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas e Logística do Rio Grande do Sul (Setcergs) informou que desconhece as particularidades do transporte de carga viva, pois a atividade é predominantemente realizada por motoristas autônomos.

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