Agronegócio

Do charque à soja: federação de produtores mais antiga do Brasil chega aos 90 anos

Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) tem trajetória entrelaçada com o desenvolvimento do agronegócio brasileiro

20/05/2017 - 07h40min | Atualizada em 21/05/2017 - 16h36min
Do charque à soja: federação de produtores mais antiga do Brasil chega aos 90 anos /
Representatividade do setor começou na década de 1920, no período das charqueadas, e se estende até os dias atuais, com as recentes supersafras de grãos  

Com o charque em decadência, após longo ciclo de eldorado econômico protagonizado pela carne salgada pendurada em varais ao ar livre, a economia gaúcha se fortalecia com os primeiros frigoríficos e engenhos de arroz. Na época, a soja tinha relevância nula nas lavouras do Estado. Era a década de 1920, e a classe rural se organizava para tentar conter o contrabando de gado e implantar institutos de crédito rural no Brasil. Nesse cenário, há 90 anos, nascia a primeira federação da agricultura do país.

Um ano após a criação da Federação das Associações Rurais do Rio Grande do Sul (FAR), o Banrisul era fundado para atender reivindicação dos produtores — que clamavam por crédito. A representatividade da entidade recém começava.

Na década de 1940, quando o trigo se consolidava como principal cultura no Estado, o Banco do Brasil negou-se a financiar a safra com o charque em garantia — operação comum na época. Presidente da entidade, Balbino de Souza Mascarenhas colocou seus bens para avalizar toda a produção do Estado.

— Ele (Mascarenhas) ofereceu seus bens pessoais, uma fortuna, como garantia da safra gaúcha.

O banco então ficou constrangido e voltou atrás, aceitando o charque — conta Luís Fernando Cirne Lima, presidente da federação de 1968 a 1969.

O mandato de Cirne Lima na Farsul foi interrompido para assumir cargo de ministro da Agricultura — quando determinou a criação de grupo para estudar por que a agricultura não respondia aos estímulos do governo com o incremento de produtividade. A ação resultou na criação, em 1973, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

— Foi um divisor de águas. A atividade não remunerava e endividava o setor porque não estava tecnicamente preparada — recorda o escritor Alcy Cheuiche, autor de 28 livros, que está concluindo uma obra em homenagem aos 90 anos da Farsul.

Com ajuda da tecnologia, a soja se multiplicou no campo nos anos 1970, especialmente no Estado, que liderava a área cultivada no país. Passada a explosão da oleaginosa, a Farsul se viu diante de um dos principais embates, o da reforma agrária. Acordos e planos nacionais resultaram em invasões de terras nas décadas de 1980 e 1990 — provocando confrontos sangrentos entre ruralistas e Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).

Leia mais:
Preço baixo da soja faz produtor gaúcho segurar grão
Carne Fraca reduz ritmo de abates e impactos chegam aos produtores
Inovação amplia produção e qualidade nas lavouras 

Mais tarde, o avanço da soja transgênica no Brasil teve a Farsul no centro da polêmica. Sementes geneticamente modificadas, conhecidas como "maradonas", chegavam às lavouras contrabandeadas da Argentina. A entidade foi acusada de incentivar o plantio para forçar a legalização dos transgênicos no final dos anos 1990, utilizando a estratégia do "fato consumado". Favorável à regulamentação do plantio, a federação negou ter estimulado o cultivo. No período de ilegalidade, produtores chegaram a ser presos e a produção, apreendida.

Ao chegar aos 90 anos, a entidade apaga velinhas com vitórias, embates e também derrotas. Do charque à soja, a maior conquista veio da transformação do agronegócio — alçado a um dos principais pilares da economia brasileira nos últimos anos.

Entrevista: 
Carlos Sperotto: o grande momento foi a renegociação de dívidas do setor rural

Há exatos 20 anos no comando da Farsul, Carlos Sperotto tem seu nome marcado na história recente da entidade. Conhecido pelo perfil centralizador e por comprar brigas em defesa do setor, é uma das lideranças do agronegócio no Brasil.

Qual foi a principal vitória nesses 20 anos à frente da entidade?
O grande momento foi a renegociação de dívidas do setor rural no final da década de 1990. Na época, a securitização provocou uma mudança de postura do governo e dos produtores. A partir de então, houve uma conscientização da necessidade de maior zelo com a situação financeira. O produtor absorveu novas tecnologias e tomou cuidado para não endividar-se novamente daquela forma.

E a principal derrota?
Até hoje, não temos uma política agrícola voltada ao trigo. Considero isso um insucesso, pela importância da cultura para a autossuficiência e para manter as condições do solo. Não existe um ouvido dentro do governo federal que capte a realidade do trigo, desde preço mínimo até importações indevidas.

Como reage às críticas de falta de renovação na Farsul?
Em quatro eleições tive oposição, a disputa é livre. Na primeira eleição, ganhamos por nove votos de diferença. Nos pleitos seguintes, ganhamos por ampla maioria. Não reajo negativamente às críticas, muito pelo contrário. Opositores estão ao nosso lado hoje. Não consegui fazer inimigos.

Como o senhor enxerga a próxima década da entidade, chegando aos cem anos?
A qualidade dos alimentos está sendo colocada em xeque cada vez mais. O Brasil está sendo preparado para atender a demanda mundial por alimentos, com a tecnologia em constante evolução e avaliação. O produtor está receptivo a mudanças.

Frases de ex-presidentes da entidade:

"Ninguém pode se dar ao luxo de desconhecer a importância do setor agropecuário para a economia brasileira. O desafio é continuar mostrando que a produção é uma atividade importante, que muitas vezes é incompreendida."
Hugo Eduardo Giudice Paz
Ex-presidente, 1991 a 1997

"A produção primária no Brasil, até alguns anos atrás, era considerada uma atividade não econômica, tinha por função produzir, e barato ainda. A Farsul tem que continuar trabalhando para reduzir a carga tributária e também as importações indevidas."
Ary faria Marimon
Ex-presidente, 1985 a 1991

"Já foi provado por A mais B que o setor primário é fundamental para a economia brasileira. Não por acaso a Farsul tornou-se uma das entidades mais importantes do associativismo, representando atividades que se complementam."
Flor Amaral
Ex-presidente, 1979 a 1982

Leia as notícias de Campo e Lavoura

 
 
 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.