Carreira

Executivos gaúchos têm dificuldades em conciliar trabalho e vida pessoal

Em um ambiente cada vez mais competitivo, pesquisa mostra que executivos temem ficar desatualizados, acumulam funções e têm sobrecarga de tarefas

27/05/2012 | 09h04
Executivos gaúchos têm dificuldades em conciliar trabalho e vida pessoal Fernando Gomes/Agencia RBS
Para dar conta dos compromissos, a empresária Simone Diefenthaeler organiza com antecedência tarefas da semana em escritório montado em casa Foto: Fernando Gomes / Agencia RBS

Depois de trabalhar 12 horas a 14 horas diárias, por vezes nos finais de semana, o empresário Gustavo Caleffi, 38 anos, costuma encarar outra luta: o boxe. O esporte foi a maneira que o sócio-diretor da Squadra Gestão de Riscos encontrou para descarregar a tensão. O executivo é responsável pela segurança estratégica de grandes eventos, a maioria fora do Rio Grande do Sul. Casado e pai de três filhos, Caleffi tem dificuldade em se desligar do trabalho, em parte pelo tipo de atuação. E, admite, por ser centralizador.

— Há situações que não podem ser controladas, não têm horário para acontecer, e eu preciso estar envolvido - justifica o executivo.

A sobrecarga de trabalho nos últimos anos, no entanto, obrigou Caleffi a redistribuir tarefas na empresa, depois de precisar tomar medicamento para hipertensão.

— Não sei se foi pelo estresse, mas depois disso decidi diminuir o ritmo e dar prioridade à qualidade de vida - conta o empresário.

Caleffi é um dos muitos executivos gaúchos desafiados a equilibrar a gangorra profissional e pessoal, conforme revela pesquisa exclusiva feita para ZH pela Produtive, agência de gestão de carreiras, com 220 profissionais que atuam como diretores, gerentes e coordenadores no Rio Grande do Sul. No levantamento, 54% dos entrevistados confessam que não conseguem conciliar de forma satisfatória o tempo para trabalho, família e questões pessoais. O motivo do desequilíbrio: 88% trabalham de oito a 12 horas por dia e 37% se envolvem com o trabalho seis dias por semana. Carga horária prolongada, instantaneidade da tecnologia e necessidade de ganhar espaço em mercados competitivos fazem os executivos lutar contra o tempo e o estresse.

 

A difícil busca do Equilíbrio

Em cargos de destaque nas empresas, executivos percebem sobrecarga de trabalho, acumulam funções e recebem reclamações da família pelo tempo escasso dedicado à vida pessoal. Na pesquisa feita pela Produtive, 60% dos entrevistados responderam que têm dificuldade de se desligar do trabalho, pelo temor de não ficar atualizado sobre algum assunto importante e pelo desejo de se destacar profissionalmente — em um ambiente cada vez mais competitivo.

— Os líderes de hoje querem ter crescimento vertical no menor tempo possível. E isso, inevitavelmente, compromete a vida pessoal — aponta Rafael Souto, diretor-geral da Produtive, empresa responsável pela pesquisa.

Aos 34 anos, Simone Diefenthaeler Leite divide-se em três para administrar a Urano, uma das maiores fabricantes de balanças eletrônicas do país, presidir a Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Canoas (CICS) e representar a vice-presidência de Integração da Federasul. Em casa, ainda dedica tempo ao filho Zenon, de sete anos, e ao marido Zenon Leite Neto.

— Estou no meu melhor momento profissional. Às vezes, tenho vontade de ter mais tempo para mim, mas sou muito feliz e realizada no que faço — conta Simone.

Para dar conta dos compromissos, que se estendem pelo interior gaúcho, a empresária usa a noite e os deslocamentos na estrada. Em um escritório montado em casa, Simone organiza as tarefas, checa e-mails e planeja ações.

— Coloco meu filho para dormir lá pelas 22h e vou até 1h da manhã organizando tudo — relata a empresária, que acorda todos os dias às 7h para ir à academia, três vezes na semana.

O lazer? Aos finais de semana, com a família, amigos e representantes de entidades empresariais.

— Gosto muito de receber amigos em casa, onde jantamos e acabamos falando sobre assuntos relacionados ao associativismo. São momentos de descontração — relata Simone.

O segredo da administração do tempo, em uma sociedade que acelera seu ritmo, está ligado ao hábito de agir mais e reagir menos, avalia o especialista Jaime Wagner.

— Toda ação é consciente, pensada e programada. Já a reação é automática e impulsiva, e nem sempre resulta na melhor escolha — explica Wagner, diretor da Powerself, empresa especializada na gestão do tempo.

O mais importante, para o especialista, não é a quantidade de horas dispensada para cada atividade, mas a qualidade da atenção na execução das tarefas, no trabalho ou no lar. A sensação de que o tempo está mais curto é acentuada pelo uso de ferramentas que se tornaram indispensáveis — como internet, celular e redes sociais.

Estilo de vida mais flexível

Reuniões diárias, metas, ações, resultados, gestão de equipes, e-mails, família, filhos, lazer e descanso. Tudo em 24 horas. Uma missão quase impossível? Para alguns sim, para outros, nem tanto. Em meio à batalha travada contra o tempo, organização e disciplina são pilares para alcançar um estilo de vida mais flexível e menos estressante.

Diretor da rede de franquias de surf shop Trópico, o empresário Gustavo Schifino, 45 anos, acumula funções à frente da empresa e a presidência da Câmara de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre (CDL). Desde o ano passado, quando assumiu a entidade de classe, deixou de almoçar em casa em dias úteis e precisou assumir compromissos à noite.

— Tive de reorganizar toda a minha vida para dar atenção à família e ter alguns momentos de lazer — conta Schifino, casado com Angela e pai de Natália, 11 anos, e Lucas, 14 anos.

O equilíbrio é buscado todas as manhãs, antes das 8h, em aulas de ioga. Nos finais de semana, segue em caminhadas na praça da Encol e, quando consegue sair da Capital, o refúgio é o mar e a prancha de surfe. Schifino também se policia para trabalhar em média até oito horas por dia, hábito seguido por apenas 5% dos entrevistados.

Os profissionais com melhor qualidade de vida são justamente aqueles com maior estabilidade emocional, explica a psicóloga Simoni Missel, diretora da Missel Capacitação Empresarial.

— Pessoas extrovertidas, ou seja, gestores com mais facilidade de estabelecer relações sociais, dinâmicos e comunicativos, têm mais facilidade em conciliar o trabalho e questões pessoais — aponta Simoni, acrescentando que é preciso aprender a se permitir desfrutar os bons momentos da vida.

Dificuldade para reter talentos

A pressão sobre os executivos e gestores aumentou na mesma proporção do aquecimento da economia brasileira e da rotatividade de profissionais no mercado de trabalho — movimentada por uma geração mais jovem e ávida por mudanças. As principais dificuldades na gestão de pessoal, conforme resposta dos entrevistados, estão concentradas na retenção de talentos e na constante mudança de emprego.

— O risco de perder profissionais qualificados aumenta a tensão dos líderes, que precisam formar equipes eficientes para responder a demandas da empresa — aponta Rafael Souto, diretor-geral da Produtive.

A falta de qualificação técnica, perfil não adequado à organização e remuneração não condizente com a expectativa do profissional tornam o processo e a contratação ainda mais complexos, exigindo esforços maiores dos gestores, revela a pesquisa.

Organize sua rotina

— Aumente a produtividade para alcançar eficiência no trabalho

— O mais importante não é a quantidade de horas dispensada, mas a qualidade da atenção

— Administrar o tempo significa agir mais e reagir menos

— Faça uma parada diária, preferencialmente à noite, para planejar o dia seguinte

— Faça uma parada semanal, domingo à noite, para organizar tarefas da semana

— Não se foque em coisas pequenas, deixando para trás as atividades mais relevantes e que demandem maior esforço

— Não cometa exageros, busque o equilíbrio e o autoconhecimento

— Procure conciliar a rotina de trabalho com atividades físicas

— Estabeleça objetivos, mesmo sem perspectiva de resolução a curto prazo

— Persista em alguma meta, mesmo quando parece difícil de solucioná-la

— Mantenha relacionamentos saudáveis no ambiente de trabalho

Fontes: psicóloga Simoni Missel, diretora da Missel Capacitação Empresarial, e Jaime Wagner, diretor da Powerself

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