O preço do crédito

Uma radiografia da inadimplência do brasileiro e seus efeitos para a economia

Facilidade para assumir empréstimos em lojas e bancos levou os brasileiros às compras, mas a conta começou a chegar e a parte mais visível dela é o atraso nos pagamentos

21/07/2012 | 16h13
Uma radiografia da inadimplência do brasileiro e seus efeitos para a economia Lauro Alves/Agencia RBS
Ana Leony de Campos Silveira tenta sair da inadimplência renegociando as dívidas Foto: Lauro Alves / Agencia RBS

A nova assombração do brasileiro se chama inadimplência, a situação em que se torna impossível honrar as dívidas assumidas. Dados do Banco Central apontam que o calote no cartão de crédito acima dos 90 dias atingiu 29,5% em maio — um recorde nos últimos 12 anos. Em Porto Alegre, no ano passado, o comprometimento da renda familiar para o pagamento de contas chegou a 31,25% — o mais alto índice entre as capitais da Região Sul.

Há várias causas para tanta gente estar encalacrada. O educador financeiro Edward Claudio Junior, do Instituto DSOP de Educação Financeira, de São Paulo, destaca que os consumidores precisam aprender a lidar com o orçamento doméstico, independentemente dos rendimentos. Alerta que estão sendo induzidos pela farra do crédito fácil e pelo marketing publicitário ao pior dos consumos: o inconsciente.

— Pessoas adquirem produtos que, na maioria das vezes, nem pensavam em comprar e com o dinheiro que não têm — lamenta Edward.

A inadimplência já interfere na economia. Programas do governo federal para estimular o consumo, exitosos na crise de 2008 e 2009, agora patinam. As prorrogações de isenções de impostos, para atrair consumidores e ativar a indústria nacional, não apresentam o efeito de antes. A lógica é simples: o endividamento beira a insolvência.

Mas a inadimplência estaria em um nível alarmante? A economista Marianne Hanson, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), diz que as pendências das famílias brasileiras não são elevadas, se comparadas às de outros países. O que preocupa é a taxa de juros do crédito para pessoas físicas, que comprometeu 22% da renda disponível com o serviço da dívida, pela estimativa do Banco Central. Marianne lembra que nos Estados Unidos, apesar do alto endividamento, o índice é de 16%.

Assunto de economistas, a inadimplência já parou nos tribunais e pode acabar no divã de psicanalistas. Há consumidores com transtorno do sono, dores de cabeça recorrentes e padecendo de estresse devido às peregrinações para renegociar as contas. Sem falar no constrangimento de passar por caloteiro. Mas as projeções são alentadoras para este semestre.

— Há indícios de redução do processo de endividamento das famílias — anuncia Marianne, em uma análise compartilhada por outros especialistas consultados por ZH.

 

Endividamento progressivo

Brasileiros foram às compras, passaram o cartão de crédito a rodo e pegaram dinheiro nos bancos além do necessário. O resultado de tantas facilidades agora emerge como pesadelo. A última pesquisa da Serasa Experian, de São Paulo, alerta que a inadimplência do consumidor cresceu 19,1% no primeiro semestre deste ano, na comparação com o mesmo período de 2011.

O endividamento progressivo ainda não configura uma bolha de crédito, que poderia estourar mais adiante na forma de um calote coletivo, gerando uma crise que afetaria o conjunto da população — mesmo aqueles com as contas em dia. Mas já é suficientemente robusto para interferir na economia. É a inadimplência que vem travando o programa de incentivos do governo federal para aumentar o consumo, a tática do momento para retomar a produção industrial.

— Houve uma freada. As pessoas estão mais pobres. O governo não pode exigir que consumam mais — avisa o consultor econômico Carlos Eduardo de Freitas, de Brasília.

Duas vezes diretor de área do Banco Central, Freitas observa que a expansão do crédito em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), tanto para pessoas quanto para empresas, cresceu de 23% para 50%, desde 2003.

No entanto, o economista não acredita em bolha do crédito e prevê que a inadimplência diminuirá no segundo semestre. Motivo: a concessão do crédito será mais rigorosa e os próprios consumidores estão de ressaca. Ou, pior ainda, com dor de cabeça.

Há dois anos lidando com dívidas, a comerciária Ana Leony de Campos Silveira, 52 anos, leva na bolsa um comprimido de duplo efeito — analgésico e relaxante muscular — para tratar a cefaleia que lhe aflige a cada telefonema dos cobradores. O cheque especial, o cartão de crédito e um empréstimo pessoal a conduziram à inadimplência.

Em férias desde o dia 1º, Ana Leony precisou cancelar a visita aos parentes que moram em Santana do Livramento e Caxias do Sul. Justamente no período mais aguardado do ano, quando esperava se divertir e descansar, está às voltas com renegociações. Teve de suspender a Faculdade de Biomedicina, por atraso nas mensalidades. Na terça-feira, estava na loja de atendimento do Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC), nos altos do Mercado Público, pedindo um histórico das contas.

— Quero ver se me livro do vermelho até março — projetava a comerciária.

Posturas como a de Ana Leony, de repactuar as dívidas, sinalizam para o recuo da inadimplência. Analistas da Serasa Experian calculam que será uma diminuição lenta, devido ao inchaço do crédito concedido em 2010 e 2011, mas já palpável e irreversível.

Os empresários também estão cautelosos. O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Porto Alegre, Gustavo Schifino, lamenta os altos juros cobrados pelas operadoras de cartão de crédito, que sufocam os consumidores. Já a Federação das CDLs (FCDL-RS) lançou campanha pedindo mais cuidado na concessão do crédito, numa estratégia para não perder clientes por insolvência.

— O endividado é diferente do inadimplente, pois este deixa de ser um consumidor — lembra o presidente da FCDL-RS, Vitor Augusto Koch.

 

Inadimplência no país

— O Indicador Serasa Experian de Inadimplência do Consumidor aponta que o endividamento do brasileiro cresceu nos últimos três anos.

— 19,1% de alta no primeiro semestre deste ano, na comparação com igual período de 2011.

— Cada inadimplente carrega, em média, quatro dívidas.

— 60% dos inadimplentes têm dívidas acima de 100% de sua renda.

Porto Alegre no topo

— A Fecomércio de São Paulo calculou o comprometimento da renda familiar com o pagamento de dívidas, em 2011, na Região Sul.

— Curitiba: 26,4% da renda (2,3 ponto percentual a menos que em 2010).

— Florianópolis: 26,3% da renda (3,5 ponto percentual a menos que em 2010).

— Porto Alegre: 31,2% da renda (1,6 ponto percentual a mais que em 2010).

 

Gaúchos no vermelho

— Confira a inadimplência dos consumidores do Estado (medida pela CDL Porto Alegre)

2004 9,94%

2005 10,64%

2006 12,8 %

2007 10,38%

2008 10,7%

2009 11,6%

2010 10,5%

2011 10,8%

2012 11,6%

 

Causas do aperto

— Pesquisa da Boa Vista Serviços, que administra o Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC), aponta que a maior causa de endividamento dos consumidores é o cartão de crédito. Veja o levantamento, referente a junho, no país.

Cartão de crédito 31%

Cheque 24%

Carnê ou boleto 22%

Empréstimo pessoal 16%

Cartão de loja 7%

O avanço do dinheiro de plástico

— O país deve fechar o ano com 193,2 milhões de cartões de crédito, segundo projeções da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs). É mais do que os 190,7 milhões de brasileiros.

— Se forem considerados todos os cartões (de crédito, lojas, postos de combustíveis e supermercados), o ano fechará com 462 milhões de unidades de dinheiro de plástico, conforme a Abecs. A média será de 2,4 cartões por pessoa.

 

Dez dicas para sair da enrascada

As recomendações do educador financeiro Edward Claudio Junior, do Instituto DSOP de Educação Financeira, de São Paulo:

1- Primeiro, não adquira novas dívidas. Somente se for algo realmente necessário e urgente, que não possa esperar.

2- Guarde o cartão de crédito em casa, para evitar compras por impulso.

3- Faça um diagnóstico financeiro da sua vida. Anote todos os gastos mensais (não deixe escapar nada, real por real) e verifique quais deles você pode reduzir ou eliminar por determinado tempo, para poder voltar ao equilíbrio e encontrar recursos para quitar as suas dívidas.

4- Ainda dentro do diagnóstico, anote todas as dívidas de forma precisa: quem é o credor, o valor, as parcelas em atraso, as parcelas a pagar, a taxa de juros. Também se a dívida tem algum bem em garantia, ou se é essencial, como água e luz.

5- Analise quais são as dívidas que devem ter prioridade para negociar, de preferência as essenciais, aquelas com algum bem em garantia e as de maior taxa de juros.

6- Coloque dentro do seu orçamento a parcela que será utilizada para quitar as dívidas e respeite esse valor.

7- Só depois de retomar o controle da sua vida financeira, seguindo os passos anteriores, procure os credores e renegocie de forma que possa honrar o compromisso assumido.

8- Durante a negociação, se o valor ofertado pelo credor for superior ao que você tem capacidade de pagar, não aceite a negociação. No entanto, seja proativo e comece a guardar a parcela que tem capacidade de assumir, para futura negociação com o credor. Com o dinheiro reservado, terá boas chances de realizar uma negociação satisfatória.

9- Depois de quitar as dívidas e reassumir o controle das suas contas, planeje melhor as compras. Reserve uma parcela mensal para realizar os desejos de consumo, comprando à vista e com desconto. Mas, para isso ocorrer, o valor a ser poupado deve estar dentro do seu orçamento.

10- Não tenha ansiedade. Não será de um dia para o outro que tudo estará resolvido, mas dê o primeiro passo para retomar o controle financeiro. O quanto antes começar, mais rápido e menos sofrido será o percurso. Não deixe para depois o que pode fazer agora.

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