Entrevista exclusiva

"Um avião de dinheiro e não deu para pagar!", diz protagonista da maior crise bancária no RS

Depois de 28 anos, o empresário Péricles Druck fala pela primeira vez sobre a liquidação dos bancos Sulbrasileiro e Habitasul na década de 80

Por: Maria Isabel Hammes
06/10/2013 - 12h02min
"Um avião de dinheiro e não deu para pagar!", diz protagonista da maior crise bancária no RS Fernando Gomes/Agencia RBS
Quase três décadas depois de se tornar protagonista de uma das maiores crises bancárias da história, Druck convive com os quatro filhos e os cinco netos, à frente de um grupo com negócios em quatro Estados e 3,2 mil funcionários Foto: Fernando Gomes / Agencia RBS  

Às vezes, do céu ao inferno são apenas alguns passos. E a vida pode mudar rapidamente. Mesmo. Péricles de Freitas Druck era um dos empresários mais badalados do Estado na década de 1980. Frequentava altas rodas e tinha a confiança dos gaúchos. Seu banco, Habitasul, chegou a ter 1,6 milhão de cadernetas de poupança. Habitué de colunas sociais e alvo do noticiário econômico, enfrentou uma reviravolta em 1985 quando o sistema financeiro gaúcho quase quebrou – com ele como um dos protagonistas. Depois da intervenção no Sulbrasileiro, mais tarde estatizado e transformado no Meridional, quebraram também Habitasul, Maisonnave e instituições menores.

A crise foi tão grande que foi preciso que um avião aterrissasse no Salgado Filho carregado de dinheiro. Nem isso foi suficiente para fazer frente à corrida de poupadores e correntistas, temerosos de novas quebras.

Pela primeira vez em 28 anos, o advogado e jornalista porto-alegrense fala sobre detalhes do episódio que marcou a história econômica do Estado e o impediu de atuar no mercado financeiro por décadas e dos processos que sofreu.

No mesmo escritório de onde acompanhou a intervenção do Banco Central, com uma bela vista do Guaíba, no centro de Porto Alegre, concedeu longa entrevista a ZH, dividida em dois dias. Conta que 1985 ainda lhe reservaria uma dor maior, impensável para qualquer pai ou mãe. No final do ano, a filha Adriana, 18 anos, morreu em um acidente de carro. E comenta a prisão "midiática" por outro caso – denúncias de venda de licenças ambientais em Florianópolis. Aos 72 anos, tem os filhos Péricles e Andrea para dirigir as indústrias e o empreendimento de Jurerê (SC). Ainda passa tempo com as filhas gêmeas de nove anos Caetana e Marina – o último nome, escolhido por gostar de serestas e da música Marina Morena, de Dorival Caymmi – e os cinco netos.

"Bidivorciado" e hoje sem namorada, tem projetos imobiliários bilionários no Estado e em Santa Catarina. Diz que sua "reconstrução", pessoal e profissional, segue até hoje. Afirma ter vendido 80% de seu patrimônio para pagar dívidas. Mas ainda comanda um grupo empresarial dividido em negócios industriais e imobiliários que empregam 3,2 mil funcionários em quatro Estados.


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Por que o senhor aceitou falar agora, 28 anos depois da quebra do banco Habitasul?
Simplesmente porque me perguntaste e eu estou respondendo. Não sou de não responder até porque não existem perguntas indiscretas. As respostas que, eventualmente, podem ser indiscretas.

É a hora de contar a história da maior crise dos bancos gaúchos?
Um dia esta página da história ainda vai ser contada, talvez tenha chegado o momento de começar a falar sobre ela. São episódios históricos que, realmente, precisam de um tempo maior para ser escritos de forma completa.

O que fez o sistema financeiro gaúcho quase quebrar em 1985?
Em 1984 e 1985, o sistema financeiro da habitação foi enfraquecido. O Banco Nacional de Habitação (BNH) foi filho dileto da revolução e a primeira vítima da abertura. Foi liquidado em 1986, mas começaram a matá-lo em 1984.

Quem tinha interesse em matá-lo?
O sistema, principalmente as empresas independentes, se enfraqueceu porque o modelo de operação mudou, quando os conglomerados financeiros passaram a ser prestigiados. As empresas de crédito imobiliário regionais se enfraqueceram muito. No Rio Grande do Sul, o sistema financeiro sumiu com a crise – Sulbrasileiro, Maisonnave e nós do Habitasul. Entramos em regime de intervenção. Na verdade, solicitamos, porque não iríamos resistir à pressão. Estávamos nos associando ao Sulbrasileiro. A Habitasul tinha uma carteira muito grande de financiamentos com verbas do Fundo de Garantia, do BNH, sobretudo para financiamentos de interesse social. Justamente os mais atingidos pela crise, já que os mutuários perderam a condição de pagar. Mas o governo tem uma característica, desde o Getulio Vargas, de dar casa de presente para os mutuários.

Como assim dar casa de presente?
Se não dá toda, pelo menos boa parte. Vamos ver este filme de novo com o Minha Casa, Minha Vida. Costumo dizer aos mais jovens que este filme já vi em preto e branco, em tecnicolor, três dimensões, mas o filme é o mesmo. Aí o BC (Banco Central) aprovou a figura das repassadoras, era lógico, tínhamos quase 100 mil créditos sob gestão. É sólido porque tem a garantia do imóvel e tem um fluxo de caixa interessante, embora a margem (seja) pequena. A minha ideia até pegou, andou, mas aí a Caixa quis ficar com os créditos do sistema financeiro da habitação. No início, não queria, mas, quando viu que era um bom negócio, entrou.

Até um avião chegou ao Estado carregado de dinheiro para "salvar" o sistema financeiro gaúcho.
Lembro, sim, chegou cheio de dinheiro, mas no dia da corrida. Esse dinheiro veio e faltou para pagar os caras que estavam na fila, não foi suficiente. Um avião de dinheiro e não deu para pagar! A corrida começou lá (no Sulbrasileiro) e veio para cá. No dia seguinte à intervenção no Sulbrasileiro, eu pedi também porque senão quebrava, ficava sem dinheiro. Ao fazer isso, me organizei, vendi coisas, retomei os pagamentos, baixei a cabeça e voltei a trabalhar. Entre mortos e feridos, vi o que sobrou. Sabe o que de mais valioso me sobrou?

Não tenho ideia.
Minha equipe. Tínhamos valores, princípios. Não houve defecção, nenhuma. Eu circulei na rua, não sofri nada. Ao contrário, recebi estímulo, principalmente depois das entrevistas que dei. Não tive restrição no meu ir e vir. É claro que eu não me expus, só faltava tu me veres no Carnaval de fantasia! Eu me recolhi à minha insignificância.

Falar do episódio traz mágoa ou dá para lembrar sem ressentimento?
A vida da gente tem coisas boas, nem tão boas, mais ou menos. Não há problema algum em falar sobre isso. Quem está na chuva se molha, é a vida.

Lembra de todos os momentos do dia da intervenção?
Eles (Banco Central) entraram correndo, foram direto abrir o cofre e não viram nada. Não, eu não lembro de tudo. Esses foram os comentários que eu ouvi. Quando se faz intervenção em uma empresa, há uma praxe, vão a locais pré-determinados, mas não fizeram nada do que fariam em outros tipos de empresa. Depois, eles mesmos, os fiscais, o pessoal todo que trabalhou, disseram não ter encontrado nada.

Fez questão de esquecer?
Não, não é isso. Algumas coisas eu me lembro bem, como o fato de que a nossa foi a única empresa em intervenção na qual o presidente manteve o seu gabinete e continuou trabalhando do princípio ao fim. Geralmente, isso não acontece.

Até porque surgem denúncias de que provas podem ser alteradas.
Não precisava ser diferente. Muitas vezes, eles afastam. No nosso caso, não havia razão para isso. Tinha que ser cumprido um carnê, um script.

O senhor deixou dívidas?
Com ninguém, ninguém, ninguém. Perdemos 80% do nosso patrimônio. A gente teve de arrumar dinheiro do jeito que deu.

Todos os que tinham poupança Habitasul foram ressarcidos?
Para os poupadores, a mudança é que eles souberam que as cadernetas tinham sido transferidas para outros bancos, só isso. Não me pagaram nada pelos anos e anos de captação. Tivemos 1,6 milhão de cadernetas de poupança. O único que perdeu fui eu, mas quem está no negócio é para ganhar e para perder.

O senhor era muito badalado na época. Depois, sumiu. Seus amigos sumiram? Precisou se esconder?
Meus amigos não sumiram, não. Se alguém sumiu, não fez falta, até porque não era amigo. Simplesmente, eu me pus a trabalhar para recuperar as coisas. Eu acordei um dia devendo. Com a intervenção, vencem todas as dívidas, todas. Não são mais a longo prazo. Fui procurar as pessoas, dizia que não tinha dinheiro naquele momento e nem sabia quando pagaria. Mas prometia a todas que iria pagar, só não tinha prazo. E perguntava o que elas podiam me dar, qual a taxa de juro. É conversar com as pessoas, olhar no olho delas.

E elas olhavam nos seus olhos?
Se eu disser que acordo todos os dias às 6h, faço ginástica, isso não é notícia. A notícia é estares explodindo como o Eike Batista.

Mas o Eike é um bom exemplo?
Mas ele estava no alto até pouco tempo atrás. Não é o meu caso. É claro que eu tinha grande visibilidade. Então, o pessoal se divertiu. Ok, tudo bem, o que eu vou fazer? Mas eu tinha sofrido um choque mais violento (a morte da filha). Então, parti para trabalhar e reuni minhas tropas aqui.

E na rua, qual a reação das pessoas, muita hostilidade?
Eu vou te dizer uma coisa. As pessoas me cumprimentavam e diziam: acredito que você vai virar esses caras. Na sequência, fui para rádio, TV, e dei minha versão. Olhei para todo mundo e, como sou jornalista, sei que o importante é ganhar a tua versão. Se prevalece a dos teus inimigos, aí não tem jeito. Não deixei de frequentar nenhum lugar.

Mas não com a frequência anterior.
Obviamente, não ia me expor e ficar dançando na chuva. Soltando plumas e paetês. Era o momento de trabalhar, de me recuperar, paguei todo mundo, vendi patrimônio.

Chegou ao fundo do poço?
Foi uma situação muito difícil. Perdi a minha filha Adriana em um acidente em 1985. Então, eu te digo assim: não tem comparação.

Foi condenado pelo Banco Central?
Nada, não fui processado. Abriram o processo administrativo no Banco Central e encerraram, não tinha nada. Eu pedi a intervenção.

Mas não havia indícios de crime no Sulbrasileiro?
Eu tinha um acordo com eles, não fui sócio deles. Tinha feito um acordo para que fechássemos uma parceria para que conseguíssemos sobreviver. E a grande esperança era de que a nossa presença poderia mudar a gestão do Sulbrasileiro. Foi por isso que o BC apoiou, achava a nossa gestão competente e correta, mas acabou explodindo.

Olhando hoje, qual o seu balanço?
Cada um carrega seu carma. Já fiz várias revisões, análises, sobre onde eu teria errado, onde teria cometido equívocos.

E quais as conclusões?
A primeira delas é que, eu como jovem, acreditava que, se fizesse as coisas de forma certa, elas iriam acontecer. Desprezei, ou melhor, não valorizei de forma adequada os lobbies, as proteções. Sobrou ingenuidade e faltou experiência de vida. Só muito mais tarde aprendi que a realidade era diferente. Tinha certeza de que, se as coisas andassem de forma equilibrada, se fossem rentáveis, sustentáveis, dariam certo, mas é preciso também proteger os flancos de outros, da selva. E é uma selva. Eu nunca acreditei, mas existe.

Quais foram seus equívocos? O que não faria hoje?
Deixei de fazer lobby, deixei de acompanhar lobbies. Não achei que fosse necessário acompanhar um processo em geral. Você, quando está disputando um espaço, no meu caso, econômico, você tem inimigos. Eles também estão disputando o mesmo espaço, faz parte das regras do mercado.

Quem eram esses inimigos?
Inimigos, não. Na realidade, eram adversários do sistema financeiro, das empresas, todos interessados em ocupar o mesmo espaço. Faz parte do jogo, da competição.

Como assim?
Com o mínimo de paranoia indispensável, diríamos assim. Faltou isso. Sempre fiz as coisas corretamente e não imaginei que precisasse de sustentação política. Afinal, sou um empresário, estava fazendo negócios. Quando esses negócios atingem determinado porte, passam a ocupar espaços que outros gostariam. A partir disso, não tive um sistema de proteção política. Política com P maiúsculo. Aí podiam puxar o tapete.

E quem puxou seu tapete?
Puxar é no sentido da disputa de mercado. O espaço é um só. Há setores em que o teu negócio depende do governo, concessões, você deve ter mais cuidado com esse tipo de relacionamento.

Houve boicote, vingança?
Por que vingança?

É uma pergunta.
Não, não teve. Foi uma disputa de espaço, que é da regra do jogo. Não tem lamento de minha parte, mas uma constatação de que me protegi menos politicamente do que devia na medida em que eu vinha ocupando um espaço importante. Outros também queriam ocupá-lo.

Quem?
O mercado em geral. Na verdade, isso é normal.

O senhor teve medo de ser preso?
Não.

O senhor foi suspenso pelo BC?
Sim, sempre que há uma intervenção, tem um período de suspensão. A intervenção foi levantada um ano e pouco depois. E um ano e pouco depois não tinha mais nada. Não tem registro algum, examinaram as empresas e, depois, acabou.

Usou remédios, terapia, religião?
Eu me segurei em mim mesmo. Quem não deve, não teme. Nunca perdi o sono, claro que fiquei chateado, desgostoso, mas o que se vai fazer?

Em 2007, o senhor foi preso em operação da Polícia Federal que investigou negociação de licenças ambientais em Florianópolis.
Sim, mas fui preso em Porto Alegre. Tinham denúncias de que haveria irregularidades nas licenças, mas foi uma armação, que existiu midiaticamente. Tanto que, até hoje, não houve processo.

Como assim? Não foi processado?
Não, não fui. Apenas dei um depoimento na Polícia Federal. Não houve denúncia. O próprio delegado, depois de ouvir meu depoimento, perguntou o que fazer comigo. Ninguém entendia nada.

O senhor é religioso?
A meu modo, sou. Acredito no amor, nas virtudes. Sou católico, mas não praticante. O Deus ofertado pelas diversas religiões, estereotipado, esse não. Mas acredito em um ente superior, símbolo de todas as virtudes que devemos seguir.

O senhor pratica algum esporte?
Gosto muito de futebol, sou gremista. Jogo futebol sete, no verão, em Jurerê. Sou zagueiro. Mas, para entrar na partida hoje, tenho de ser dono do campo, da bola, das camisetas, de tudo (risos).

Costuma usar a internet?
Não tenho blog, nem Twitter ou Facebook. Mas uso de forma profissional, na comunicação interna do grupo. Prefiro material impresso, como os jornais diários e os livros. Eu leio o dia inteiro.

Qual sua leitura preferida?
Biografias. Terminei uma do Winston Churchill. É uma arma de defesa pessoal (referência ao tamanho do livro), fica na cabeceira da cama. Se entrar alguém no quarto, tenho como me defender (risos). Mas, falando sério, é importante saber como foi possível a vitória quando tudo parecia difícil. Ele não enganou ninguém, só prometeu o que era possível: sangue, suor e lágrimas.