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Conferências do projeto Wisdom 2.0 oferecem "cura" para o vício em tecnologia

Eventos têm lista de espera com centenas de interessados

15/02/2014 | 11h01
Conferências do projeto Wisdom 2.0 oferecem "cura" para o vício em tecnologia Heidi Schumann/NYTNS
Foto: Heidi Schumann / NYTNS

Enquanto Soren Gordhamer, com toda a calma do mundo, tentava silenciar o público de um evento Wisdom 2.0 em San Francisco (EUA) para uma meditação guiada, alguns espertinhos não puderam esperar para mandar mensagens antes de deixar o sagrado aparelho de lado.

Uma morena magrinha de camiseta preta teve a capacidade de fazer um vídeo da multidão com o iPad da primeira fila, onde estava sentada. Mesmo depois de Gordhamer pedir ao grupo para "ir à presença", o telefone de alguém ainda zumbia feito uma libélula.

Gordhamer começou o Wisdom 2.0 em 2009 para analisar como podemos conviver com a tecnologia sem nos deixar ser consumidos por ela. Hoje, a lista de espera para suas conferências e debates já chega a centenas. A reunião Disconnect to Connect foi típica. O público, na maioria jovem, era do ramo da tecnologia do Vale do Silício e se confessava cansado de receber ordens de Siri, o software da Apple que permite fazer ligações e enviar mensagem por comandos de voz.

— Houve um tempo em que os telefones não me diziam o que fazer o tempo todo. Já não dá mais para saber o que é trabalho e o que não é — disse Gordhamer, 45 anos, logo na abertura.

Apesar disso, o problema oferece uma solução. Loïc Le Meur, blogueiro, empresário francês e convidado da noite, recomendou um aplicativo de meditação chamado Get Some Headspace. Ele estava usando o Google Glass com apenas um traço de ironia:

— É um jeito de praticar a meditação sem se sentir esquisito. Você nem precisa se sentar na posição de lótus. Basta apertar o play e relaxar — explicou Le Meur.

Um pouco antes, naquela mesma manhã na sede do Google, em Mountain View, na Califórnia, Chade-Meng Tan, engenheiro experiente, estava rindo sozinho com a procura por um curso interno que ele tinha criado chamado Search Inside Yourself. Durante sete semanas, o app ensina a despertar a consciência, termo vago que aborda exercícios relacionados à atenção. O Google naturalmente encara a atividade como um lance útil que pode lhe trazer benefícios.

— Toda vez que disponibilizamos a aula online, as reservas se esgotam em 30 segundos — explica Tan.

E não é só coisa de geek. O jornalista George Stephanopoulos, o rapper 50 Cent e a atriz Lena Dunham também estão promovendo seus métodos de meditação:

— Venho de uma linhagem de mulheres judias neuróticas que precisam relaxar.

Teve também o tuíte do magnata da mídia @rupertmurdoch anunciando:

— Tentando aprender meditação transcendental. Todo mundo recomenda. No começo não é fácil, mas dizem que melhora tudo!

A vontade de encontrar o equilíbrio é especialmente forte no berço da revolução digital. O cofundador do Facebook, Dustin Moskovitz, disse ao público do Wisdom 2.0 que montou sua empresa atual de software, a Asana, depois das lições que aprendeu nas aulas de ioga. No mesmo encontro, o fundador e presidente do eBay, Pierre Omidyar aproveitou para afirmar que o sucesso do site se dá graças à bondade humana e à confiança em estranhos.

Thich Nhat Hanh, o líder budista vietnamita que introduziu o conceito de conscientização aos ocidentais (o Google foi a primeira empresa a convidá-lo para fazer uma palestra), uma vez disse:

— O presente mais valioso que podemos oferecer a alguém é a nossa atenção. Apesar disso, para a maioria dos seres antenados hoje em dia conseguir assistir a um episódio de The Big Bang Theory sem checar pelo menos duas telas o tempo todo é tarefa quase impossível.

— Não tem nada a ver com o lance hippie antigo de San Francisco — explica Tan, que fundou o Search Inside Yourself Leadership Institute como um programa extracurricular em 2007.

Mais de mil funcionários do Google passaram pelo curso, que usa pesquisa científica para atrair programadores e codificadores.

Empresas como Goldman Sachs e Farmers Insurance também contratam Tan para ensinar técnicas de como fazer uma pausa antes de enviar e-mails importantes e desejar a felicidade em silêncio a colegas difíceis.

O cargo oficial de Tan no Google é bom camarada, o que ninguém pode negar. Durante a entrevista, ele se sentou de pernas cruzadas, descalço, à mesa de reuniões do Googleplex, e jura que sempre tem uma dica útil a oferecer:

— O pessoal chega para mim com dúvidas terríveis, tipo, como cobrir os 211 itens da lista de coisas para fazer. Eu digo para fazerem uma coisa de cada vez. Óbvio, não?

É fácil para Tan fazer piada. Com os benefícios financeiros de ser o empregado número 107 do Google, ele trabalha somente três dias por semana e se preocupa mais em gastar sua fortuna do que em aumentá-la.

— Não acho a menor graça em gente rica miserável porque gastar dinheiro é a chave para a felicidade. A riqueza foi uma experiência maravilhosa, mas aí, pensei: e agora?

Essa é uma pergunta que Evan Williams também se faz constantemente. Um dos fundadores do Twitter, ele é arroz de festa nos eventos da Wisdom 2.0. A prática já gerou impactos radicais. Em outubro, quando o Twitter finalizava a papelada para fazer sua oferta pública de ações, ele fez algo impensável: saiu para uma caminhada de 20 minutos por San Francisco sem levar o telefone.

— Eu consegui enxergar as coisas à minha volta e pensar. Se fosse há um ano eu teria ficado mais ansioso, mas agora já estou me acostumando com os silêncios.

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