Empurrão do emprego

Bons indicadores animam perspectivas econômicas para este ano no Brasil

Dados de emprego, indústria e crescimento divulgados em janeiro e fevereiro são inspiradores, mas há o risco de juros e inflação em alta no horizonte

20/03/2014 | 05h01

O bom desempenho da produção industrial e o aumento nas vagas de trabalho mostram que a economia brasileira tem navegado com ventos mais favoráveis nesses primeiros meses do ano. A força das rajadas, no entanto, ainda não são suficientes para deixar o céu mais limpo: crise energética, inflação alta e taxa de juro de dois dígitos são nuvens carregadas no horizonte.

Os resultados positivos são um alento para o Planalto, principalmente depois do tímido Produto Interno Bruto (PIB) e do recuo da indústria verificados em 2013. Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego mostram que cerca de 260 mil vagas foram criadas em fevereiro. O Banco Central (BC) foi responsável por trazer a outra boa nova. O índice de atividade econômica calculado mensalmente pela instituição, o IBC-Br, apontou forte crescimento no mês de janeiro, contrariando a expectativa da maioria dos analistas do mercado, que andavam bastante pessimistas em relação à capacidade da economia de alcançar uma velocidade razoável no primeiro trimestre.

A descrença substituiu o otimismo de 2012 e 2013 quando projeções animadas de início de ano foram jogadas ao mar, após a economia não apresentar sinais consistentes de força. Mesmo frente a números mais positivos que o esperado, especialistas preferem adotar a cautela. O avanço na produção industrial em janeiro de 2014, melhor resultado em 12 meses, por exemplo, não recupera a queda em novembro e dezembro.

— A comparação com o mês anterior está prejudicada pelo excesso de feriados de Natal e virada do ano. Sem contar as férias coletivas adotadas por várias fábricas. Outro fator importante é o aumento na taxa de juro que começou no ano passado, mas que deve causar impacto agora — pondera Anselmo Santos, professor do Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho da Universidade de Campinas (Unicamp).

Com potencial para causar uma grande tempestade, a nuvem da inflação segue cada vez mais carregada e pressiona o Planalto. Com avanço de 0,69% em fevereiro, a taxa acumulada em 12 meses chega a 5,68%, bem acima do centro da meta do governo, de 4,5% — mesmo após consecutivas altas no juro básico.

Alimentos põem pressão na inflação

Parte dessa resistência vem dos alimentos. O preço do tomate, vilão da cesta básica no ano passado, voltou a disparar com a queda na safra, que sofreu avarias devido às altas temperaturas. De acordo com a Fundação Getulio Vargas (FGV), o valor do fruto saltou 40% em um mês na capital gaúcha. A alface subiu 31%.

A pressão foi assumida pelo presidente do Banco Central (BC) em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado no início da semana. Alexandre Tombini admitiu que o tema é alvo de atenção, mas avaliou que a situação deve ser controlada no curto prazo. O mercado não tem a mesma certeza. Economistas do Itaú Unibanco revisaram para cima suas projeções de inflação para março (de 0,70% para 0,80%) e para o acumulado em 12 meses até março (de 5,68% para 6,03%).

— O esperado é que os preços dessem uma desacelerada forte agora, o que não aconteceu. Com a Copa do Mundo, a pressão aumenta mais. Com mais gente consumindo, o custo das coisas aumenta. É uma questão que vai persistir por mais alguns meses, com certeza — afirma Rafael Costa Lima, professor da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do IPC-Fipe.

Emprego é alívio no cenário

Depois que o Banco Central passou a reforçar o grilhão da taxa de juro para tentar conter o dragão da inflação, os altos níveis de emprego no país se transformaram na principal âncora econômica do governo em ano eleitoral.

O mercado de trabalho manteve-se aquecido a despeito de dois anos de crescimento baixo. Mesmo desconfiados do ritmo lento, empresários continuaram contratando, desafiando os mandamentos dos principais manuais de economia e confundindo especialistas. A taxa de desocupação no Brasil foi de 4,8% em janeiro, o menor índice da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na região metropolitana de Porto Alegre foi ainda menor, 3,8%.

Quanto tempo o mercado de trabalho permanecerá imune a esse cenário é a pergunta de um milhão de dólares. Grande parte dos analistas esperava aumento nos índices de desemprego em 2014. Os mais otimistas projetavam — no máximo— estabilidade nos índices.

— O resultado surpreende sim, mas é preciso ser avaliado com desconfiança. A maioria das vagas preenchidas foi concentrada em São Paulo e no setor de serviços, não na indústria. Empregos nas fábricas costumam ser mais estáveis, pois os empresários evitam demissões de olho nos altos custos. No comércio é mais volátil — afirma Giácomo Balbinotto Neto, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

A Copa do Mundo no Brasil também pode estar contribuindo para o aumento nas contratações no mercado de trabalho, sugere Balbinotto. Conforme se aproxima a data do evento, donos de restaurantes e hotéis situados nas cidades-sede, por exemplo, passam a contratar mais tendo em vista o aumento de turistas.

— Até o que parece ruim, como o atraso nas obras, nesse caso conta a favor. Sinaliza que a construção civil continuará aquecida por mais tempo. Grandes construções, que já deveriam estar concluídas, mantêm os operários mais tempo empregados — diz.

Pelo menos por enquanto, a meta do ministro do Trabalho, Manoel Dias, de criar neste ano de 1,4 milhão a 1,5 milhão de novos empregos, parece menos distante. Mesmo assim, continua ambiciosa. No ano passado, foram 1,1 milhão de vagas.

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