Usinas com menos água

Cresce o risco de racionamento de energia no país

Especialistas apontam que risco de racionamento no segundo semestre é alto se as águas de março não chegarem e o nível dos reservatórios continuar caindo

07/03/2014 | 04h57

Depois de dois meses de seca, o governo espera receber um alento de São Pedro neste mês, o último do chamado período de chuva. Se as águas de março não chegarem e o nível dos reservatórios continuar caindo, o risco de racionamento de energia no segundo semestre é alto, apontam analistas.

Em abril, começa no Sudeste o período seco, em que o volume de precipitação diminui. Treze anos após o racionamento de 2001, o sistema está mais robusto, garantem especialistas. Mais usinas térmicas, que não dependem de condições climáticas, foram construídas. O consumo maior, porém, reforça o temor de racionamento.

A chuva em janeiro e fevereiro ficou em 54% e 39% da média histórica, respectivamente. O índice de fevereiro é o segundo pior para o mês em 84 anos, e o de janeiro foi o terceiro pior. Para março, o Operador Nacional do Sistema Elétrico projeta quantidade de água equivalente a 67% do habitual no período.

Diretor-executivo do Grupo Safira, Mikio Kawai Jr. critica algumas decisões tomadas pelo governo nos últimos anos, como redução do tamanho dos reservatórios construídos, o que acentua a dependência da boa vontade de São Pedro.

– Hoje, o nível mínimo do reservatório permite geração de energia por cinco meses. Décadas atrás, era capaz de suprir a demanda por até cinco anos. É uma opção para reduzir o impacto ambiental, mas é uma contradição. O uso frequente de termelétricas também causa emissões – pondera.

Pelos cálculos da consultoria Safira, se o volume de chuva continuar tão abaixo da média histórica, em julho o país será obrigado a enfrentar racionamento.

Roberto Schaeffer, especialista em planejamento energético da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lembra que a situação já não era confortável em 2013:

– O governo evitou ao máximo utilizar a potência das térmicas para fugir de eventuais aumentos de custo. A falta de chuva não é só de agora, é de dois anos. Foi um erro de estratégia no ano passado.

Garantia pode doer no bolso

O acionamento das usinas térmicas em potência máxima tem elevado os custos na geração de energia, mas o aumento na conta de luz deve ficar para depois de outubro, avaliam especialistas. A razão seria a eleição presidencial.

Aumentar a tarifa é uma medida considerada antipática pela classe média. Além disso, pressiona a inflação, mantida perto de 6% ao ano só com medidas duras como a elevação do juro.

Teria sido esse também o motivo do adiamento da implantação das bandeiras tarifárias nas contas de luz. Marcado para começar em janeiro passado, o sistema prevê símbolos coloridos nas faturas indicando aumento no preço da energia caso o país passe por aperto de oferta – como o atual. A pedido da Agência Nacional de Energia Elétrica, o governo decidiu adiar a proposta para janeiro de 2015.

– A energia tem um custo, e a sociedade tem o direito de saber. O governo obscurece o debate quando diz que não há risco de racionamento. Os dados técnicos mostram que há – afirma Claudio Sales, presidente do Instituto Acende Brasil.

Walfredo Ávila, presidente da consultoria Trade Energy, diz que, do ponto de vista técnico, a tarifa ao consumidor já deveria estar maior. O uso de geração térmica em vez de hidrelétrica encarece no mínimo cinco vezes o custo da energia. Se a bandeira tarifária passasse a vigorar em 1º de janeiro, como previsto incialmente, já começaria com bandeira vermelha, o que indicaria acréscimo de R$ 3 para cada 100 kWh consumidos.

– O prudente seria o governo assumir que estamos em uma situação delicada e lançar agora uma campanha para conscientizar a população sobre o consumo. Mas isso tem um complicador político, porque o tema pode ser usado na campanha eleitoral. – avalia Roberto Schaeffer, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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