Mercado aquecido

Empresas brasileiras voltam a atrair investidores estrangeiros

No primeiro trimestre, foram realizadas 164 operações de fusões e aquisições no País

04/04/2014 | 11h03

A Hapvida, maior operadora de planos de saúde do Norte e Nordeste do País, tem sido sondada por fundos de investimentos interessados em comprar uma participação ou totalidade de seu negócio. A empresa de logística TPC, da Bahia, foi assediada por grupos europeus para aquisição de uma fatia da companhia. Esses dois casos não só ilustram o apetite de fundos e grupos estrangeiros por ativos brasileiros como são uma amostra do quanto as operações de fusões e aquisições no País estão aquecidas desde o início deste ano.

No primeiro trimestre, foram realizadas 164 operações de fusões e aquisições no País, 18% acima do mesmo período do ano passado. Em receita, essas transações somaram R$ 44 bilhões, ante R$ 9 bilhões no mesmo período de 2013, segundo levantamento do banco de investimento Greenhill, com base em dados da Capital IQ, PWC e CVM (Comissão de Valores Mobiliários).

– O número de transações privadas tem se mostrado a mais factível, sustentável e realista alternativa de capitalização e criação de liquidez para grande parte das empresas brasileiras – diz Daniel Wainstein, que está à frente do Greenhill no Brasil.

Ex-presidente de investimentos do Goldman Sachs, Wainstein está no comando do escritório da instituição no Brasil, inaugurado em outubro passado.

Segundo o executivo, muitas empresas brasileiras com faturamento entre R$ 300 milhões e R$ 400 milhões que estão distantes de atingir o tamanho mínimo para acessar o mercado de oferta pública de ações (IPO, na sigla em inglês) estão buscando outras formas de investimento que não o mercado de capitais. E são esses grupos que têm atraído a atenção da instituição.

Nenhuma operação de abertura de capital foi realizada este ano, diante do cenário desafiador projetado para 2014.

– O mercado de capitais deixou de ser uma alternativa para as empresas. O Brasil está mais barato e os preços dos ativos mais racionais. As multinacionais que olham o Brasil como investimento de longo prazo devem continuar fazendo negócios aqui. As eleições já estão precificadas pelo investidor – afirma um alto executivo que comanda operações de fusões e aquisições de um banco estrangeiro no País, acrescentando que operações relevantes deverão ser concluídas neste ano, mesmo com Copa do Mundo e eleições.

Empresas focadas em serviços, saúde e varejo estão entre as áreas consideradas atraentes para investidores, diz Ricardo Lacerda, presidente da BR Partners, um das principais assessoras financeiras e de investimentos do País. A BR Partners ficou em décimo lugar em volumes e em quinta no total de operações de fusões e aquisições em 2013.

A expectativa do mercado é de que as operações de fusões e aquisições repitam, no mínimo, o desempenho de 2013. Grandes transações, como a venda do laboratório Fleury, a área de seguro de grandes riscos do Itaú Unibanco, a venda de duas divisões da Tempo Participações para a Qualicorp, e a possível mudança de controle da Netshoes, são algumas das operações recém- anunciadas e que deverão ter desfecho nos próximos meses.

Com o dólar valorizado e a bolsa em baixa, os fundos de private equity (que compram participações em empresas) estão aumentando seus investimentos em ativos no Brasil. A participação dos private equities em transações envolvendo empresas brasileiras vem aumentando a cada ano. Em 2013, 21% das operações de fusões e aquisições tiveram participação desses fundos.

Investidor estratégico

Leonardo Barros, presidente da empresa de logística baiana TPC, não descarta a entrada de um parceiro estratégico. A empresa, que teve seu início como operadora portuária na Bahia em 2001, fez aquisições ao longo dos últimos anos na área de armazenagem e distribuição, tornando-se uma das maiores de aparelhos de celulares e cosméticos do País. No ano passado, encerrou com faturamento de R$ 340 milhões. Barros não descarta vender até 40% para promover sua expansão e alcançar receita de R$ 1 bilhão.

Já a Hapvida negou, por meio de sua assessoria, que irá vender fatia da empresa, mas não desmente o assédio de fundos. A empresa informou que não descarta abrir o capital em 2015.

Bovespa Mais

A BM&F Bovespa está tentando desenvolver o mercado de IPOs para pequenas empresas, mas a falta de cultura do investidor em apostar em ações, associada à atratividade das taxas de instrumentos de renda fixa, inibe ainda mais o desenvolvimento do Bovespa Mais em sua plenitude.

– No longo prazo, um mercado dessa natureza poderá ser algo importante para o País, mas até lá, transações com private equity ou investidores estratégicos vão permanecer como única alternativa viável no curto e médio prazo para a grande maioria das empresas – diz Wainstein.

 
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