Remédio amargo

Juro sobe para 11% ao ano e BC indica que ciclo de alta ainda não terminou

Para conter a inflação, o Comitê de Política Monetária eleva a taxa Selic pela nona vez consecutiva

02/04/2014 | 22h23

Emparedado pela persistência da inflação de um lado e pelos sinais de fraco crescimento da economia de outro, o Banco Central (BC) optou nesta quarta-feira por mais um aumento moderado do juro básico do país. O Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou que a Selic passa a ser de 11% ao ano, alta de 0,25 ponto percentual esperada quase que por unanimidade no mercado.



Após a nova alta, a nona seguida desde abril do ano passado, permanece a curiosidade se foi a última elevação de 2014 ou se a pressão dos alimentos e dos preços administrados – como energia, passagens e combustíveis – pode levar a mais um aumento em maio. Ou após as eleições, já que o calendário do BC marca duas reuniões do Copom após o segundo turno. O comunicado divulgado junto com a decisão, ao mencionar os próximos passos, deixou uma porta aberta para novo aperto na reunião do colegiado no próximo mês.

O comunicado
"O Copom decidiu, por unanimidade, neste momento, elevar a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 11% ao ano, sem viés. O comitê irá monitorar a evolução do cenário macroeconômico até sua próxima reunião, para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária."

Para o economista Antonio Madeira, da LCA Consultores, seria temerário dar fim agora ao uso do juro para tentar controlar a inflação, correndo-se o risco de novas elevações após o pleito de outubro.

– Além dos alimentos, temos uma inflação represada nos preços administrados, que em algum momento terão de ser ajustados – diz Madeira, defendendo que uma elevação ainda maior neste ano poderia ajudar a segurar os índices inflacionários principalmente em 2015.

Mesmo que a alta do juro não seja capaz de conter o preço dos alimentos, consegue evitar efeitos secundários como repasses, lembra Alexandre Barbosa, economista-chefe do Banco Cooperativo Sicredi. Analista que apostava em maior possibilidade de o BC sinalizar ontem ter encerrado o movimento de alta da Selic, Barbosa lembra que permanecem pressões com maior impacto nos preços no médio prazo, como reajuste de passagens de ônibus em algumas capitais, o reconhecimento do BC de um possível aumento da gasolina e o aviso do governo de que a conta de luz vai subir em 2015.

Barbosa lembra que, ano passado, enquanto os preços livres aumentaram 7,3%, nos administrados o percentual foi de apenas 1,5%. A expectativa do governo é que subam 5% neste ano. Na semana passada, o BC reviu para cimas as projeções de inflação para 2014, agora de até 6,2%, e para 2015, da ordem de 5,5%.

Se a intenção do Planalto fosse chegar ao centro da meta (4,5%) da inflação até o final do próximo ano, a Selic teria de chegar a dezembro em 12%, avalia o economista. Para Barbosa, como os reflexos dos aumentos da taxa de juro demoram a ser sentidos na atividade econômica, novas altas teriam impacto quase imperceptível no Produto Interno Bruto (PIB) deste ano.

O governo não dispõe mais de mecanismos para segurar a inflação no curto prazo, entende Samy Dana, professor da Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas em São Paulo. A melhor saída, avalia, seria priorizar soluções de gargalos que elevam o custo Brasil, como infraestrutura, reforma tributária e investimento em educação para melhorar a produtividade da mão de obra.

– Não existe canetaço que resolve isso todos os dias. E não é culpa deste governo. É de todos os últimos – diz.

Cálculos da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) mostram que, para o consumidor, o impacto isolado da decisão de ontem é mínimo. A soma das sucessivas altas desde 2013, porém, preocupa:

– De hoje (quarta) para amanhã (quinta) o efeito é pequeno, cerca de R$ 2 na prestação mensal de um automóvel. Mas a taxa de juro sobe há um ano. Esses aumentos acumulados causam impacto – alerta Miguel Ribeiro de Oliveira, diretor executivo da Anefac.

Quanto ficou mais caro comprar um automóvel

Março de 2013: taxa Selic de 7,25% ao ano
O juro para a compra de automóvel estava em 1,52% ao mês. Com isso, quem adquirisse um carro de R$ 25 mil em 60 vezes pagaria parcelas de R$ 338,10 e, no final, gastaria R$ 38.286

Março de 2014: taxa Selic de 10,75% ao ano
O juro passou para 1,75% ao mês. Para comprar um automóvel do mesmo valor de R$ 25 mil em 60 vezes, o consumidor passou a desembolar parcelas de R$ 376,33 e, no final, pagaria R$ 40.579,80

Desembolso maior
Na prestação: R$ 38,23
No total do carro: R$ 2.293,80

VÍDEO: entenda a relação entre juro e inflação


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