Difícil de domar

Setor de serviços empurra inflação além da meta de 6,5%

Pela primeira vez no ano, analistas de mercado ouvidos pelo Banco Central projetam que o IPCA, índice usado pelo governo, ficará acima do limite da meta do governo

22/04/2014 - 22h56min

Por mais que tenha pesado no bolso do cidadão nos três primeiros meses do ano, não é o preço do tomate e da batata que tem tirado o sono da equipe econômica do governo em ano eleitoral. É a alta no custo dos serviços, um dragão considerado bem mais difícil de controlar, que acendeu a luz vermelha para políticos e empresários: o mercado, pela primeira vez, projeta inflação acima do teto da meta em 2014.

Pesquisa realizada semanalmente pelo Banco Central (BC) com mais de cem instituições financeiras aponta que a previsão para inflação no final do ano passou de 6,47% para 6,51%. É um indicativo de especialistas de que o governo não conseguirá manter os preços dentro do limite traçado para a inflação, que é de 6,50% ao ano. O resultado vem logo após a forte alta dos preços em março, a maior para o mês desde 2003.

Quem está com férias planejadas para o meio do ano ou pretendia fugir do agito da Copa já percebeu a mordida na carteira. Preços de passagens aéreas e hospedagem estão mais salgados por conta do mundial de futebol que se aproxima. Mas não é só isso. Mão de obra para reparos também está mais pesada, aponta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

– É uma tendência natural de um mercado de trabalho aquecido. Conforme as pessoas aumentam a renda, passam a utilizar serviços a que antes não tinham acesso, como plano de saúde e cursos de idiomas. A inflação, nesse caso, responde diretamente à renda dos trabalhadores – avalia Rafael Costa Lima, professor da USP e responsável pelo IPC-Fipe.

O dragão no setor de serviços é justamente o mais difícil de domar, afirmam economistas. Diferentemente do de produtos industrializados, não sente a prensa dada pela alta do juro e não reage à concorrência de mercadorias importadas.

Também não responde tão prontamente à lei da oferta e da procura, como é o caso dos alimentos, que tendem a baixar o valor assim que a nova safra chega às prateleiras. Depois que os preços dos serviços sobem, demoram a cair.

Desde 2004, o setor de serviços tem puxado a inflação para cima do centro da meta, de 4,50% ao ano. De 2009 para cá, a diferença entre a alta de custos no setor de serviços e produtos industriais tem ficado maior. Para segurar a inflação dentro da meta, o governo pode ser obrigado a abrir mão de índices de desemprego tão baixas, sua principal conquista no campo econômico.

O discurso, antes defendido apenas por economistas de visão mais liberal, começa a ganhar força também entre especialistas mais alinhados com a perspectiva do governo. Diante da escassez de trabalhadores, as empresas estariam arcando com salários mais altos para recrutar funcionários, criando um círculo de repasse de custos que chega ao bolso do consumidor.

– Para controlar os preços no setor de serviços, o governo será obrigado a tomar um remédio amargo. Ou convive com a taxa de desemprego maior ou muda a fórmula de reajuste do salário mínimo e para de dar ganhos reais (acima da inflação) aos trabalhadores – afirma Celso Pudwell, economista do BRDE e professor da PUCRS.

As pressões de cada grupo

Preços administrados
Faz algum tempo que o governo segura reajuste de preços e, assim, evita que a inflação estoure o teto da meta de 6,5% no ano. De olho nas eleições presidenciais - e no estrago que uma alta poderá causar nas urnas -, o Planalto deve segurar os preços um pouco mais e adiar o repasse para a tarifa do custo extra de energia devido ao uso das termelétricas. Independentemente de qual partido saia vencedor em outubro, especialistas dão como certo reajustes em 2015.

Alimentação
Com a safra agrícola afetada pela falta de mão de obra no campo e pelo calor intenso, os alimentos se tornaram os principais responsáveis pela alta expressiva da inflação em março, a maior para o mês em 11 anos. O tomate e a batata voltaram a ser os vilões da cesta básica, mas por pouco tempo, garantem analistas. É esperado um recuo de preços em maio e até queda em junho.

Serviços
Diferentemente dos alimentos, não há previsão para desaceleração do preço de itens como passagens aéreas - impulsionadas pelo aumento da procura devido ao Mundial -, empregados domésticos, aluguéis, mão de obra para reparos, hotéis e médicos, os que mais subiram em 12 meses. Sem concorrência de importados, os serviços respondem de forma mais lenta à lei de oferta e procura e à alta do juro.

Copa pode jogar preços para o alto

A dificuldade de segurar os preços em serviços fica ainda mais complicada com o início da Copa do Mundo no meio do ano. Ao trazer turistas para o país, o evento pode jogar ainda mais para cima preço de itens como alimentação fora de casa, passagens aéreas e hospedagem em junho e julho, dois meses em que o dragão costumava voar baixo.

Nos últimos anos, a desaceleração de preços no meio do ano foi fundamental para deixar o índice dentro da meta em dezembro.

– A safra de inverno, vai aumentar a oferta e impactar no custo dos alimentos, mas os preços não voltarão aos patamares anteriores. Quedas vão ocorrer, mas serão pontuais, principalmente onde houve as maiores altas, como no caso do tomate e da batata. Mesmo assim, já terão contaminado o índice de 2014 e vão comprometer a meta do governo. Ao longo do ano, a inflação deve romper a meta diversas vezes – diz Pedro Raffy, economista da Universidade Mackenzie.

Tema entrará na eleição...

Em ano eleitoral, a inflação acima da meta tem potencial para se tornar munição de opositores, que têm direcionado os canhões para a política econômica do governo, conforme se aproxima outubro.

O impacto nas urnas deve afastar a possibilidade de o governo diminuir o ritmo de abertura de vagas no mercado de trabalho neste ano. A aposta deve continuar sendo aumentar a taxa de juro. Desde abril de 2013, já foram oito altas consecutivas. Por enquanto, o discurso oficial do Planalto é que se trata de uma "inflação momentânea".

– Não existe saída no curto prazo para reduzir preços de serviços. A partir de agosto, após a Copa, os preços podem começar a ceder, mas é tudo expectativa. Não tem como garantir isso – diz Marcos Tadeu Caputi Lélis, professor de economia da Unisinos.

Sem conseguir domar o aumento de custos em serviços, o governo se empenha para manter sob controle os avanços de preços administrados – combustíveis, energia e transporte. Especialistas dão como certos reajustes a partir de 2015, independentemente de quem seja o presidente.

...mas agora câmbio ajuda

Depois de começar o ano próximo a R$ 2,40, o dólar teve forte queda em abril, fato que preocupa a indústria, mas serve de alento para o Planalto. A retração da moeda americana ajuda o governo a segurar a inflação. O dólar mais baixo permite que importados cheguem mais baratos ao Brasil, aumentando a concorrência.

Além das reações do mercado frente às pesquisas eleitorais, as atuações do Banco Central têm influenciado a cotação. A instituição mantém o programa de intervenções diárias, ajudando na derrubada do dólar.

– Para segurar a inflação, o governo recorre à antiga fórmula de apreciar o real e, com isso, conduz outra vez a uma situação caótica o setor exportador – afirma Sidnei Moura Nehme, economista especialista em câmbio.

Neste mês, o real teve a segunda maior valorização ante o dólar no mundo, com elevação de 4,63%.

 
 
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