
Dívidas impediram a Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) de reajustar a tarifa de energia em 25 de outubro, véspera do segundo turno da eleição. O alívio momentâneo no bolso, bem visto por consumidores, vai pesar em 2015. Em 21 dias, a companhia deixou de receber R$ 35,7 milhões. Quando vier, o reajuste ao redor de 28% não será retroativo, e a companhia deve perder o valor no período em que não o aplicou. Na próxima data de correção da tarifa, a diferença vai se traduzir em aumento maior.
O curto-circuito financeiro fica mais evidente diante do resultado da empresa nos últimos anos. Entre 2010 e 2013, a CEEE acumula prejuízo de R$ 843 milhões. Só no primeiro semestre de 2014, a perda chegou a R$ 117 milhões.
A escassez de chuva esvaziou reservatórios de hidrelétricas e forçou a utilização de usinas térmicas, mais caras. Distribuidoras como a CEEE foram obrigadas, nos últimos dois anos, a pagar mais pela energia que compram das empresas de geração. O maior desembolso obrigou o governo federal a intervir para evitar quebradeira no setor. Só em 2014, a ajuda custou R$ 26,6 bilhões acrescidos de juros. Nesse cenário, o reajuste anual da tarifa representa uma tomada de fôlego para continuar atuando sem enfrentar problemas.
- Por dia, era esperado um adicional de receita para a companhia (pelo reajuste que não ocorreu) de R$ 1,7 milhão - diz Paulo Steele, analista que atuou por cerca de cinco anos na Aneel, no desenvolvimento do cálculo dos custos de longo prazo para concessionárias.
No ano passado, a CEEE recebeu R$ 321 milhões da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), que compensa o desconto nas tarifas em 2013. Neste ano, financiou R$ 417 milhões da Conta no Ambiente de Contratação Regulada (ACR), que existe para cobrir o aumento de custos das empresas com o uso de térmicas.
A dívida deve começar a ser paga em 2015, com altas maiores na conta de luz ao menos até 2018. Diretor-executivo do Grupo Safira, especializado em energia, Mikio Kawai Jr, calcula que os reajustes das três concessionárias do Estado devem vir acima de 20% nos próximos quatro anos. A assessoria de imprensa da CEEE informa que o presidente Gerson Carrion está viajando e não há previsão para quitação do débito.
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Sem racionamento, com tarifaço
A chuva que se intensifica neste mês, com o início do período úmido na Região Sudeste, tende a afastar o fantasma de racionamento de energia. A seca dos últimos meses, no entanto, vai deixar lembranças dolorosas no bolso dos consumidores.
O reajuste foi amargo em todo o país este ano e deve manter a alta voltagem ao menos até 2018. No Rio Grande do Sul, o aumento aprovado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para as três distribuidoras ficou acima de 25% em 2014, anulando o desconto concedido pelo governo federal em 2013. O câmbio deve deixar a conta mais pesada, porque a energia de Itaipu é cotada em dólar. Para completar, começam a vigorar em janeiro as bandeiras tarifárias. Com condições desfavoráveis de geração, haverá acréscimo de R$ 1,50 a cada cem quilowatts hora consumidos quando a bandeira for amarela e de R$ 3 quando ficar vermelha - conforme a escassez de energia.
Para o presidente do Instituto Acende Brasil, Claudio Sales, o desconforto do setor ocorre pela dependência de chuva:
- O Brasil precisa adequar a oferta de energia. Fazer um planejamento mais realista, organizar os leilões e flexibilizar os licenciamentos ambientais, para que as obras não atrasem tanto.
À espera de São Pedro
Hoje, o nível dos reservatórios nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, responsáveis por 70% da geração no país, está em 18% da capacidade. Em igual período do ano passado, estava em 44%. Em 2001, ano do racionamento, estava em 23% em novembro.
Em 13 anos, o sistema ganhou mais linhas de transmissão, que permitem levar energia de uma região para outra, e a geração térmica aumentou de 3 mil para 20 mil MW. Diante do volume de chuva esperado para o período úmido, entre novembro e abril, e da capacidade térmica disponível, o nível dos reservatórios no Sudeste deve chegar ao final de abril em cerca de 60%. Para analistas, o cenário melhora, mas ainda não permite abrir mão da operação das usinas térmicas.