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A mudança da política de preços para a gasolina e o diesel anunciada nesta sexta-feira pela Petrobras trouxe euforia ao mercado pela sinalização de que a empresa não sofrerá mais a ingerência do governo federal para tomar decisões, mas a interpretação não é unânime entre os especialistas do setor. A decisão comunicada de ter, a partir de agora, os valores praticados nas refinarias alinhados com as cotações internacionais significam, por exemplo, que a estatal não terá mais prejuízos ao subsidiar os combustíveis no mercado interno, praticando preços inferiores aos do Exterior.
A redução na refinaria do valor da gasolina em 3,2% e do diesel em 2,7%, o que pode gerar uma queda no preço da bomba de R$ 0,05, significa uma pressão inflacionária menor e elevou as apostas na redução no juro básico da economia, hoje em 14,25%. A percepção de independência, porém, é posta em dúvida exatamente pela coincidência com a proximidade da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, na semana que vem, que pode começar um ciclo de corte na taxa Selic. Com a decisão, cresceu a expectativa por um corte maior, de 0,5 ponto percentual, e não de 0,25.
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João Luiz Zuñeda, diretor da consultoria Maxiquim, ressalta que é positivo para a Petrobras ter os preços colados com o mercado internacional, mas mostra desconforto com o anúncio tão perto da reunião do Copom. Se houver razão na desconfiança, entende, seria sinal de que a ingerência, em algum grau, ainda permaneceria.
– É preciso ficar com um pé atrás por isso ter ocorrido pouco antes de uma reunião tão importante – diz Zuñeda.
O pesquisador Mauricio Canêdo, do Centro de Economia e Petróleo da Fundação Getulio Vargas (FGV), mostra cautela semelhante.
– Para baixo é sempre mais fácil. Vamos ver quando os preços internacionais subirem – pondera Canedo.
Conforme informou a Petrobras, a decisão agora é não praticar mais preços abaixo da paridade internacional, política que dilapidou o caixa da empresa nos últimos anos e ajudou a empresa a acumular uma dívida de R$ 397 bilhões. Os preços serão reavaliados pelo menos uma vez por mês. Isso indica a possibilidade de redução, manutenção ou aumento dos preços. O barril do petróleo usado como referência pela estatal, que estava na casa dos US$ 100 até setembro de 2014, despencou para US$ 28 no início de 2016 e depois iniciou lenta reação. Agora, está em US$ 51.
Mais entusiasmado, o estrategista-chefe da XP Investimentos, Celson Plácido, avalia que a decisão é muito mais importante para o Brasil pelo que indica aos mercados internacionais do que para a própria Petrobras:
– O investidor estrangeiro quer entrar no Brasil, mas espera regras claras, e é isso que essa decisão sinaliza. A decisão ajuda a termos uma inflação menor no próximo ano, ao Copom baixar o juro, torna as captações das empresas brasileiras mais baratas.
Para Plácido, além de a Petrobras deixar de perder quando as cotações internacionais subirem, a redução dos preços ajuda a barrar importações e é uma resposta para a perda de participação dos postos de combustível da estatal. Com isso, a estatal valoriza a BR Distribuidora, braço que pretende vender como parte do seu plano de recuperação da saúde financeira.