Perfil dos candidatos

Adão Villaverde: uma vida dividida em duas partes

Conheça a trajetória de vida do candidato petista à prefeitura de Porto Alegre

22/09/2012 | 16h01
Adão Villaverde: uma vida dividida em duas partes Ricardo Duarte/Agencia RBS
Villa lidou com o câncer com pragmatismo de engenheiro e fibra de militante Foto: Ricardo Duarte / Agencia RBS

Na estreia da série que vai apresentar os perfis dos candidatos à prefeitura de Porto Alegre, que serão publicados em ordem alfabética ao longo dos próximos dias, o personagem em destaque deste domingo é Adão Villaverde. Nascido em Alegrete em 1958, Villa mudou-se para a Capital em 1975, para estudar no colégio Júlio de Castilhos. Casado com Maria Teresa e pai de Pedro, 15 anos, o candidato do PT começou a interessar-se por política ainda na infância, sob influência do pai, militante do Partido Comunista.



"Troço" cortou a vida de Adão Villaverde em duas partes.



De um lado, a infância em Alegrete, a militância do pai no Partidão, os primeiros passos no movimento estudantil, o Julinho, a Engenharia, Maria Teresa, a eleição do primeiro prefeito petista em Porto Alegre.



Do outro, a adoção de Pedro, o convite para ocupar a secretaria da Ciência e Tecnologia no governo Olívio, a eleição para a Assembleia, a candidatura a prefeito de Porto Alegre



Não existe hora boa para deparar com o "troço", tampouco aviso prévio ou manual do proprietário, mas para um petista de 31 anos que militava desde os 15 e ajudara a fundar o partido deve ter soado como uma piada de mau gosto descobrir um câncer justamente no emblemático ano de 1989 — quando o PT estreava na prefeitura da Capital e Lula preparava sua primeira campanha à Presidência.

Em vídeo, entenda o que três símbolos representam para Villa:

Villa lidou com a doença com pragmatismo de engenheiro e fibra de militante. Mudou o estilo de vida, aprendeu a cozinhar para seguir a dieta recomendada e leu tudo que encontrou sobre o traiçoeiro inimigo íntimo que estava determinado a derrotar. Referia-se ao seminoma como "o troço" — algo que estava nele, mas não era ele.



Para muitas pessoas que conviveram com Villa naquela época, e mesmo para as que souberam sobre a doença mais tarde, firmou-se como uma espécie de modelo de atitude digna e corajosa diante do sofrimento. Não por acaso, tornou-se um interlocutor muito especial para Lula e Dilma quando ambos passaram por situações parecidas.



— Eu via o quanto estava mal pelo olhar assustado dos amigos. Teve dois, que eu não vou citar o nome, que chegaram a desmaiar na minha frente — diverte-se Villa, que hoje consegue até rir quando fala sobre o assunto.



Maria Teresa, que ele conheceu nos tempos de faculdade e com quem passou a morar em 1983, sem cartório ou igreja, ainda se emociona ao lembrar dos dias difíceis em que o hospital tornou-se o segundo endereço do casal.



— Ninguém sai igual de uma experiência como essa — reflete a dentista, que no período da quimioterapia pediu licença do emprego para cuidar do companheiro.



Sete anos depois do primeiro diagnóstico, em outubro de 1996, o médico anunciou que Villa estava curado. Um mês depois, Pedro, recém-nascido, entrou na família, marcando oficialmente o fim de um longo e tenebroso inverno e o início de uma nova etapa — a segunda parte da vida de Adão Villaverde, esta que o conduziu agora à primeira disputa para um cargo majoritário.



Formado em Engenharia Civil pela PUCRS em 1981, Villa especializou-se na área de estruturas, mantendo a carreira como engenheiro e professor universitário em paralelo às atividades na política. A área de estruturas é aquela parte da engenharia que cuida do que não aparece em um projeto. Se o engenheiro faz bem o seu trabalho, é provável que ninguém lembre do seu nome no futuro. Um cálculo malfeito, porém, é o suficiente para que vá parar nas manchetes dos jornais. Quanto mais sutil é o seu trabalho, mais valorizado ele é.



Durante a maior parte da sua vida pública, Villa operou como um discreto engenheiro de estruturas dentro do PT. Logo que o partido foi fundado, militou na Democracia Socialista (DS). Mais tarde, aproximou-se da chamada "ala majoritária" do partido. Presidiu o diretório municipal do PT durante o primeiro governo do partido em Porto Alegre, e entre 1999 e 2002 foi secretário estadual de Ciência e Tecnologia e titular da pasta da Coordenação e Planejamento do governo Olívio Dutra. Em 2002, concorreu pela primeira vez, elegendo-se para deputado estadual em três mandatos consecutivos.



Villa admite que seu projeto de militância política não contemplava a ideia de disputar um cargo eletivo. Acomodações e disputas internas do partido, porém, acabaram conduzindo o candidato para a Assembleia e agora para a eleição municipal: o engenheiro de estruturas foi chamado a sair dos bastidores para colocar seu nome na fachada do prédio.



Carta na manga



Para disputar uma eleição, porém, é preciso uma dose generosa de carisma — essa qualidade indefinível que abençoa ricos e pobres, gênios e tolos, homens honrados e pilantras, mas que, sozinha, é capaz de fazer um eleitor contrariar pesquisas e até mesmo o bom senso.



Villa não é exatamente um poço de carisma midiático — traço que quem está acompanhando a propaganda eleitoral do candidato talvez já tenha notado —, mas é daquele tipo de pessoa que tem facilidade para fazer amigos e manter uma conversa animada. Fala com segurança sobre literatura (A Montanha Mágica, o livro favorito, conta a história de um engenheiro, Hans Castorp, isolado do mundo para tratar uma doença), música (tango, jazz e bossa nova estão entre os gêneros preferidos) e bons vinhos (o enoturismo é um dos hobbies da família). A política o fascina, mas não a ponto de diminuir sua curiosidade e interesse por outros assuntos. Orgulha-se de ter recebido do pai, o funcionário público Thimoteo Villaverde, já falecido, a educação humanista que o levou a se interessar tanto por ciência quanto por arte — o lado prático e o lado contemplativo da vida.



— O Villa é o que aparenta ser, não tem nada escondido ali — descreve o advogado Celso Hagemann, que jogou bola com ele na escolinha do Grêmio nos anos 70, naquela que talvez tenha sido a primeira manifestação de pragmatismo esportivo dos dois filhos de velhos comunistas (Celso é filho do jornalista Lauro Hagemann), já que ambos são torcedores do Inter.



Hagemann faz parte da confraria de amigos, a maioria ligados à esquerda e com um histórico de militância na juventude, que se encontra às terças-feiras na casa do advogado Adroaldo Mesquita da Costa Neto. Apesar da afinidade política, o grupo reúne-se basicamente para rir, beber e comer bem.



Nesse grupo, Villa é um dos contadores de histórias mais apreciado, disputando espaço com o defensor público Carlos Frederico Guazzelli entre os mais falantes da turma. É considerado um tipo alegre, agregador, afetivo, que sabe ser alvo de piada sem nunca perder o bom humor.



— O Villa tem um grande otimismo diante da vida — define o advogado Abrão Blumberg, outro companheiro da confraria das terças-feiras.



Otimismo não cura nem opera milagres — mas, na política como na vida, sempre pode ser uma carta na manga.



3 realizações na vida pública




FOTO: Ricardo Duarte 




Pedimos ao deputado Adão Villaverde para selecionar três momentos marcantes da sua carreira política. Confira as escolhas do candidato:



1) Viabilização do Ceitec



Como secretário estadual de Ciência e Tecnologia do governo Olívio, Villaverde articulou a implementação do Centro Nacional de Excelência em Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), empresa pública federal criada em 2000 e inaugurada em 2010. A instalação do Ceitec no Estado exigiu a articulação entre os governos federal, estadual e municipal, instituições de ensino e a iniciativa privada.



2) Aprovação da Lei Villaverde



A Lei 12.980/08, conhecida como Lei Villaverde, dispõe sobre o registro das declarações de bens e o controle da variação patrimonial e de sinais de enriquecimento ilícito por agentes públicos estaduais. De autoria de Adão Villaverde, a lei considera como sinais de enriquecimento ilícito a posse de bens ou despesas que revelem gastos incompatíveis com o patrimônio e a remuneração do agente público.



3) Atuação como líder do governo Lula na Assembleia Legislativa



A partir de 2003, depois de quatro anos à frente do governo, o PT gaúcho viveu uma situação insólita: de volta à condição de maior bancada de oposição na Assembleia, justamente no momento em que Lula se tornava presidente. A criação da figura do "líder do governo Lula na Assembleia" teve caráter simbólico. Serviu para realçar o prestígio da bancada.

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