Força feminina

As mulheres é que mandam: o município em que elas predominam na prefeitura

Em São João do Polêsine, homens coadjuvantes: nos últimos 20 anos, elas governaram em 16

20/09/2012 | 07h41
As mulheres é que mandam: o município em que elas predominam na prefeitura Diego Vara/Agencia RBS
A prefeita Denise não usa saia nem salto alto e prefere trabalhar com homens no secretariado Foto: Diego Vara / Agencia RBS

Em roteiro de visitas a eleitores, a prefeita de São João do Polêsine, Denise Predebon Milanesi (PP), 49 anos, chega à casa da viúva Clementina Cassol Brondani, de 87 anos. Papo vai, papo vem, e a candidata à reeleição pergunta:

— Vó, quantos filhos a senhora teve?

— Foram 13... quase um por ano.

— Nossa, a senhora gostava de transar, hein? — espanta-se a candidata.

A vovó não se faz de rogada:

— É... — diz ela, sorridente, balançando a cabeça afirmativamente.

— E naquele tempo não tinha dor de cabeça?

— Ah, às vezes eu até fazia de conta que estava dormindo, mas ele vinha e me cercava.


Saiba mais:

Clique para ler todas as reportagens da série Sete histórias eleitas
> Acesse a capa de notícias de Eleições 2012

Testemunhado por ZH na tarde do dia 1º de setembro, o papo sem pudores entre as duas mulheres é revelador da política em um município onde os homens têm papel coadjuvante. Por tradição, são elas que detêm o poder por ali. Nestes 20 anos de existência da cidade de 2,6 mil habitantes, foram elas quem governaram em 16. E, na eleição atual, são novamente duas candidatas: Denise, que busca o segundo mandato, e Valserina Gassen (PMDB), 70 anos, que foi prefeita por três mandatos.

Há quem diga que o poder feminino vem do sangue italiano das matriarcas, conhecidas pelo temperamento forte e pelo pulso firme de uma gente acostumada a falar até com as mãos. Soma-se a isso um protagonismo local impulsionado por uma categoria profissional majoritariamente feminina que teve papel decisivo na criação da cidade: o magistério. Mobilizadas para que a única escola do município passasse a ter o nível de Ensino Médio, que na época era chamado de "segundo grau", as professoras se engajaram na luta pela emancipação de Polêsine, no início da década de 1990.

Em vídeo, veja como as mulheres dominam a política na cidade: 

O elo foi tão forte que a então professora de economia doméstica Valserina foi eleita presidente da comissão de emancipação. O grupo tinha como sede de suas reuniões a própria Escola João XXIII, o que facilitou a adesão de outras colegas. E foi assim que, depois de três tentativas frustradas de criar o município, em 1964, 1981 e 1985 — todas conduzidas por homens, diga-se de passagem — a quarta foi finalmente bem-sucedida, garantindo a separação de Faxinal do Soturno em 1992. Liderada por uma mulher, a conquista contribuiu para atribuir ao gênero a fama de boa gestão. Como reconhecimento, a presidente da comissão foi eleita a primeira prefeita, inaugurando a tradição.

— A mulher tem um carisma de mãe, né? Nossa forma de atender é diferente, a gente faz tudo ao mesmo tempo — diz a ex-prefeita e atual candidata Valserina, que neste ano teve sua candidatura indeferida por apontamentos na gestão de um consórcio de municípios que presidia, mas segue em campanha, apostando que conseguirá reverter a decisão na Justiça.

Município teve apenas um prefeito homem

No primeiro mandato de Valserina como prefeita, o município chegou a ter ao mesmo tempo também uma juíza, uma promotora, uma delegada e uma presidente da Câmara. Inspirada no exemplo das precursoras, a participação das mulheres na política local anda tão em alta que ali ninguém tem problema para preencher as cotas de 30% de candidaturas femininas. Dos 32 candidatos a vereador na cidade, 43% são mulheres. Na coligação de Valserina, o índice chega a 50%.

— Aqui não tem mulher "laranja", sobra mulher para concorrer— diz o coordenador da campanha de Denise, Marcos Antonio Cera, atual secretário da Administração.

Em sua história, o município teve um único prefeito homem, Sidnei Luiz Rosso, 52 anos. E ele mesmo brinca que se sente uma exceção por ter "tido a oportunidade de estar no meio das mulheres", entre 1997 e 2000. Na época, como ainda não existia reeleição, a prefeita Valserina (foto abaixo) apoiou o seu nome para substituí-la no comando da prefeitura. Embora ache que as mulheres, às vezes, "exageram um pouquinho" e "passam demais a mão na cabeça das pessoas" quando estão no comando, está resignado.


FOTO: Diego Vara 

— É a mesma coisa lá em casa, com minha mulher e minha filha. A última palavra é minha, mas é sempre sim — resume ele, que atuou durante 10 anos como sargento em Santa Maria e atualmente é vereador (PMDB).

A maioria dos homens não parece se importar com o protagonismo das companheiras. Enquanto as mulheres se ocupam da política, sobra mais tempo para eles fazerem o que mais gostam: se divertir nos bolichos.

— As mulheres têm mais coragem para encarar o desafio de governar... Aqui é a verdadeira política do homem — diz o violeiro José Almeri Ribeiro, 46 anos, apontando o braço para uma cancha de bocha lotada, onde dezenas de homens se revezavam, entre goles de cerveja e cachaça, numa tarde de sábado, 1º de setembro.

Brincadeiras à parte, a explicação tem um fundo de verdade. Como a principal atividade econômica da cidade é o cultivo de arroz, os polesinenses costumam se dedicar integralmente às lavouras durante quatro ou cinco meses. No restante do tempo, quando ficam ociosos, o que mais querem é descansar. Em vez de se enfurnarem em discussões políticas em gabinetes, preferem aproveitar o tempo com um carteado de quatrilho, cinquilho ou canastra com amigos. O movimento é tanto que os jogadores precisam chegar cedo no bolicho, para garantir lugar nas mesas.

— Aqui o homem é mais para o trabalho braçal, a mulher é mais para usar a cabeça — resume o professor Ari Sonego, 60 anos.

Elas estão metidas até nos bolichos

O curioso é que, até no bolicho, as mulheres estão metidas. Enquanto seu marido, Ademar de Oliveira, 60 anos, jogava uma partida de canastra com os amigos, no dia 3 de setembro, a comerciante Marli de Oliveira, 56 anos, cuidava do caixa e servia as bebidas do negócio da família. O ponto, que já foi chamado de "bolicho do Nico", em referência ao apelido de Ademar, hoje virou "bolicho da Tia Marli".

— Aqui já é consenso que as mulheres é que mandam — constata o escritor e comerciante Romoaldo Dal Molin, 79 anos, frequentador do estabelecimento.

Filho de um dos homens que lutaram pela emancipação do município, o motorista aposentado Dirceu José Guarienti, 79 anos, que já foi vereador em Faxinal de Soturno, se ressente pela perda de espaço político masculino. Diz que o pai deixou "o pão pronto para botar no forno", que as mulheres só abriram a porta do fogão. Mas já está conformado.

— Eu sempre apoiei homem, não deu certo. Acho que elas têm mais liderança, mais "acato" do povo... O que se vai "fazê"? Vamos "acata" isso aí e pronto, né? Os homens... "fiquemo" de lado agora — constata.

> Para ler mais notícias sobre Eleições 2012, clique aqui

Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.