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Após morte de Campos, eleição ganha novos contornos

Escolha de substituto do candidato do PSB vai redesenhar corrida eleitoral para a presidência da República

14/08/2014 - 08h46min
Após morte de Campos, eleição ganha novos contornos Bruno Alencastro/Agencia RBS
Marina Silva é o nome natural para assumir candidatura no lugar de Eduardo Campos Foto: Bruno Alencastro / Agencia RBS

A morte trágica de Eduardo Campos, candidato do PSB à presidência, pode alterar o rumo da corrida eleitoral. Especialistas acreditam que, a partir da fatalidade, o esboço de uma nova eleição começa a ser desenhado, aumentando o grau de incerteza sobre o resultado do pleito de outubro.

Além disso, a consternação em torno da perda de um jovem líder político provoca um efeito emocional que pode impactar o desempenho dos demais candidatos.

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Nos próximos dias, o PSB terá de decidir — ainda em luto e correndo contra o tempo, já que a propaganda na TV começa na terça-feira, dia 19 — quem irá substituir Campos. E o nome natural é o de Marina Silva, candidata a vice na chapa.

— É difícil prever o que vai acontecer, mas uma coisa é certa: não é mais a mesma eleição — diz o cientista político Alexandre Gouveia, da Universidade de Brasília (UnB).

Para o cientista político Valeriano Costa, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), embora a opção por Marina seja a tendência, não será uma decisão fácil para o PSB. Ele lembra que era Campos quem bancava a presença dela no partido, com o qual a ex-senadora tem divergências e onde estava de passagem. Marina se filiou ao PSB porque não obteve o registro do seu partido, a Rede Sustentabilidade, a tempo de concorrer. Alas do PSB podem também pressionar por um eventual apoio a Dilma Rousseff (PT) ou Aécio Neves (PSDB).

— Se Marina for a candidata, pode embaralhar, e muito, o cenário eleitoral. Ela tem potencial para ter o dobro do percentual de Campos nas pesquisas — afirma Costa.

Antigos aliados, Campos e Dilma estiveram juntos nos governos de Lula e da atual presidente até a definição da candidatura
Foto: Chico Porto/LEIAJÁIMAGENS

Eleitorado do Nordeste tende a migrar para Dilma

A saída de Eduardo Campos da disputa presidencial terá forte impacto no Nordeste, região em que o ex-governador de Pernambuco e a presidente Dilma Rousseff registram seus maiores percentuais nas pesquisas de intenção de voto.

Em sondagem do Ibope realizada entre os dias 3 e 6 de agosto, a atual presidente tinha 51%, e Campos, 12%, no Nordeste. Nacionalmente, eles tinham índices mais baixos, 38% e 9%, respectivamente.

A tendência, segundo especialistas, é que boa parte do eleitorado de Campos nessa área do país migre para a candidatura petista. Essa mudança pode ocorrer principalmente entre os eleitores de baixo poder aquisitivo, beneficiados por programas sociais do governo federal.

Segundo o cientista político Valeriano Costa, da Unicamp, embora seja uma candidata forte Marina Silva (PSB) não tem a dimensão de Campos e Dilma no Nordeste, o que afetaria seu desempenho nestes Estados caso seja a substituta do ex-governador. Campos comandou Pernambuco por duas vezes consecutivas (2007-2014) e deixou o cargo com mais de 80% de aprovação.

No entanto, há quem acredite que Marina possa herdar os votos do socialista, uma vez que sua candidatura representava uma alternativa ao governo Dilma. Embora tenham sido ministros do governo Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e aliados até o ano passado, Campos e Dilma estavam em rota de colisão. O socialista definiu como linha de campanha a crítica à gestão da ex-colega de Esplanada.

Segundo o cientista político Rodrigo Gonzalez, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o impacto da morte pode gerar uma “onda de simpatia” — especialmente no reduto de Campos, o Nordeste — que impulsionaria a candidatura de seu substituto.

Conforme o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Carlos Pereira, se Marina não concorrer são grandes as chances de a polarização PT-PSDB favorecer Dilma e, com isso, a eleição pode acabar se decidindo no primeiro turno.

Novos aliados, Campos e Aécio se aproximaram no início da campanha em uma estratégia para tentar derrotar o PT
Foto: Ailton de Freitas/Agência O Globo

Desejo de renovação pode favorecer chapa de Aécio

Netos de políticos famosos e administradores estaduais aprovados nas urnas, Eduardo Campos e Aécio Neves construíram trajetórias políticas em posições divergentes.

Enquanto o ex-governador de Pernambuco passou anos como aliado dos governos de Lula e Dilma, o ex-governador de Minas Gerais esteve sempre na trincheira da oposição. Ainda assim, as características que os aproximam podem beneficiar a candidatura do tucano na corrida presidencial daqui para a frente.

Para o cientista político Alexandre Gouveia, da Universidade de Brasília (UnB), Campos e Aécio representavam, até agora, duas vias de renovação, críticas ao governo Dilma. Além disso, ambos cultivavam a imagem de bons gestores, focados em tornar a máquina pública mais eficiente e capaz de entregar resultados à população.

É por isso que candidato do PSDB pode se tornar o único concorrente com esses apelos eleitorais daqui para a frente.

— Toda a campanha de Eduardo Campos vinha sendo focada no perfil de gestor do candidato, e Marina Silva, que é sua substituta natural, não tem essa mesma característica — ressalta Gouveia.

Mas a avaliação não é consenso. Segundo o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Marco Antonio Carvalho Teixeira, se Marina assumir o lugar de Campos na disputa, Aécio deve ser o principal afetado na corrida eleitoral. O também cientista político acredita que a ex-senadora consegue agregar eleitores que tendiam a votar no tucano apenas no segundo turno e que, agora, podem fazer a opção pela ex-senadora já no primeiro turno.

Aécio, na largada da campanha, chegou a insinuar que Campos e Marina estariam com ele em um eventual segundo turno. A fala do tucano irritou o socialista e sua vice, determinando o fim da lua de mel entre as duas candidaturas de oposição e levando a uma reorientação de rumos da campanha. Campos se distanciou de Aécio e passou a se apresentar como terceira via destinada a quebrar a polarização PT-PSDB.

Veja o infográfico do acidente:

 
 
 
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