Trajetória

Da rebeldia ao afeto: conheça Luciana Genro

Candidata do PSOL à prefeitura de Porto Alegre abre a série que trará perfis de todos os concorrentes

21/09/2016 - 06h04min | Atualizada em 23/09/2016 - 10h20min
Da rebeldia ao afeto: conheça Luciana Genro André Ávila/Agencia RBS
Em casa, distração com cozinha e seriados e amor pelos cães e gatos que resgata da rua Foto: André Ávila / Agencia RBS

Em meados de 1984, quando a ditadura militar dava seus últimos passos no país, as freiras responsáveis pelo Colégio Maria Imaculada, em Porto Alegre, se ouriçaram. Um jornal impresso em fotocópia e distribuído entre os alunos da escola, chamado Manifesto Estudantil, trazia editorial apaixonado em defesa da Teologia da Libertação – movimento rejeitado pelo Vaticano à época por considerá-lo interpretação marxista do Evangelho. 

Incomodadas, as religiosas convocaram a responsável pelo libelo para cobrar esclarecimentos. Cruzou a porta da diretoria uma menina de 13 anos, estudante da 8ª série, com vasta cabeleira crespa. Ao se dar conta de que a autora do manifesto não se calaria, uma das irmãs quis saber:

– Tu pretendes continuar estudando na nossa escola no ano que vem?

– Não, quero sair – respondeu a militante precoce, que sonhava levar suas bandeiras de esquerda para o efervescente Colégio Estadual Júlio de Castilhos.

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As freiras se entreolharam e suspiraram aliviadas. A aluna que tirava o sono das religiosas, Luciana Genro, construiria nas décadas seguintes trajetória política marcada pelas mesmas características demonstradas no início da adolescência: rebeldia e vocação para o embate ideológico. 

Mas a pecha de militante radical destoa da visão revelada pela atual candidata à prefeitura de Porto Alegre pelo PSOL em sua vida íntima – quando o viés combativo dá lugar a um perfil classificado como afável e emotivo por familiares e amigos mais próximos.

– Algumas vezes, quando fala de alguma coisa que mexe muito com ela, como suas lutas políticas, chega a chorar – conta a mãe, Sandra Genro.

Carinho no resgate de animais de rua

Esse traço de sua personalidade faz com que não resista ao olhar desamparado de bichos de rua. Costuma abrigar animais que encontra sem rumo pelas calçadas. A família já teve sete cachorros e gatos. Hoje, são três: os cães Guria e Cheiroso (também conhecido como Gordo pelo porte avantajado) e a gata Grimi.

Luciana saía de um debate na Zero Hora, em 2008, quando topou com Grimi, ainda filhote, aninhada em um vaso de flores. Não teve dúvidas: tomou o animalzinho de pelagem branca e preta em mãos e levou-o para casa. Os cães também foram resgatados da rua.

Na casa que divide com os bichos e o marido, o jornalista Sérgio Bueno, Luciana substitui o palanque pela cozinha. Realiza-se preparando salmão ao molho de mel, sua especialidade, e se desliga da política em meio aos enredos de seriados assistidos via Netflix, como House of Cards, de preferência degustando vinho. 

Nas reuniões de família, até os debates acirrados com o pai, o ex-governador petista Tarso Genro, ficaram no passado. Hoje, ajuda a serenar ânimos quando o único filho e também militante do PSOL, Fernando Genro, 28 anos, lança comentário mais agudo ao avô.

– Sou um pouco mais provocador. Minha mãe tem assumido o papel de conciliadora, embora meu avô saiba receber provocações com bom humor – conta Fernando, que trocou a carreira como jogador de futebol iniciada na base do Grêmio pelo curso de Direito.

Inspiração paterna e destaque no movimento estudantil

A relação de Luciana com Tarso, um dos temas mais recorrentes em sua biografia, jamais deixou de ser afetuosa, mas sempre foi complexa. Quando ela tinha apenas 13 dias de vida, em 1971, o pai teve de se refugiar no Uruguai para escapar da ditadura. 

Durante dois anos e oito meses, viram-se apenas nas poucas vezes em que Sandra conseguiu levar a filha ao país vizinho. Quando Tarso retornou do exílio, a menina, que já estava prestes a completar três anos, estranhou.

– Éramos eu e ela. Quando o Tarso voltou, como eu passava parte do tempo com ele, foi um pouco difícil para ela se adaptar – recorda a mãe.

Luciana nos braços de sua mãe, Sandra Foto: Reprodução / Arquivo pessoal

Com o tempo, o pai se tornaria inspiração para entrar na política. Mas foi preciso convencê-lo a autorizar a troca do Maria Imaculada pelo Julinho para dar fôlego à vocação no movimento estudantil.

– Ele queria que eu ficasse em um colégio particular por considerar que teria melhor qualidade de ensino. Até pediu a uma professora do Júlio de Castilhos para tentar me convencer a não ir para lá. Mas não adiantou, e fui – recorda Luciana.

Em 8 de março de 1985, o saguão do Julinho fervilhava com a agitação pelo fim do regime militar. Alunos do Grêmio Estudantil olhavam ao redor em busca de uma colega que pudesse discursar em homenagem ao Dia Internacional da Mulher – a aluna que faria o discurso passara mal, precisavam de substituta. Repararam naquela recém-chegada, ávida por se destacar na política estudantil. Aos 14 anos, Luciana equilibrou as pernas trêmulas de medo sobre uma cadeira e fez o primeiro discurso da promissora vida pública.

A escalada na política nacional foi vertiginosa – e repleta de episódios de confronto ideológico e rebeldia. Do grupo Partido Revolucionário Comunista, no qual havia ingressado na adolescência sob o codinome "Laura", seguiu para a corrente Convergência Socialista no Partido dos Trabalhadores (PT). 

A vida pessoal também seguia ritmo intenso: saiu de casa aos 15 anos para morar com Roberto Robaina, outro egresso do movimento estudantil e atual correligionário no PSOL. Tiveram o único filho, Fernando, e se separaram um ano e meio depois da união apoiada por Sandra, mas vista com reservas por Tarso.

– Foi minha a ideia de que os dois fossem morar juntos, porque o Tarso tinha dificuldade de aceitar a relação dela com o Roberto. Aluguei um JK para eles, e a Luciana saiu de casa – conta a mãe.

Luciana tenta se eleger prefeita, cargo que já foi ocupado por duas vezes pelo seu pai, Tarso Genro (à esquerda) Foto: Reprodução / Arquivo pessoal

Primeiro mandato foi conquistado aos 23 anos

Como Tarso apoia Raul Pont (PT) na corrida municipal, em outra faceta da complexa relação entre ele e a filha, o ex-governador preferiu não dar declarações. No curso de Direito da PUCRS, no final dos anos 1980, a jovem voltou a demonstrar seu temperamento público voltado ao enfrentamento político. Como a universidade ameaçava expulsar um grupo de estudantes, rumou com dezenas de colegas até a sala onde ocorreria o julgamento a fim de impedi-lo.

– Os alunos que seriam julgados tinham realizado protesto contra o aumento dos preços no restaurante universitário. Haviam invadido o lugar e servido a comida de graça – recorda a ex-aluna da PUCRS Christiane Russomano Freire, amiga de Luciana.

O grupo revoltoso trancafiou em uma sala de aula os integrantes da comissão de julgamento por quase 12 horas, e conseguiu suspender o expurgo.

– A Luciana era muito nova, mas já despontava como líder. Também tinha muita inserção nos movimentos sociais – relembra Christiane.

Em seguida, Luciana migrou do Direito para Letras na UFRGS, que também abandonou. Só mais tarde concluiria a graduação em Direito. Seu destino seria definido fora da academia, sobre palanques e carros de som. Assim, em 1994, com apenas 23 anos, conquistou o primeiro mandato – 17 mil votos e uma cadeira de deputada estadual integrando a Corrente Socialista dos Trabalhadores do PT (depois rebatizada Movimento Esquerda Socialista), para a qual foi após a Convergência Socialista ter sido expulsa da legenda.

– Naquele momento, avaliei que era hora de permanecer no PT – diz Luciana.

Pelo partido, seria reeleita deputada estadual com o dobro da votação anterior e chegaria ao Congresso como deputada federal, onde se tornaria figura de expressão nacional. A relação com o PT, porém, sofreria sucessivos abalos até o rompimento definitivo.

Expulsão do PT resultou na fundação do PSOL

Em 2003, em reunião com a chamada "ala xiita", na qual despontavam, além de Luciana, a senadora Heloísa Helena e os deputados federais João Fontes, João "Babá" Araújo e Lindbergh Farias, o então presidente nacional da sigla, José Genoino, sentenciou:

– Se vocês votarem contra a reforma da Previdência e continuarem criticando o governo Lula, serão expulsos. Escolham o caminho que querem.

Luciana repetiu a atitude adotada diante das freiras do Maria Imaculada duas décadas antes: não aceitou transigir e saiu para fundar o PSOL. A expulsão era consequência natural de prolongado desgaste. No governo Olívio Dutra (1999-2002), diversas vezes criticou o Piratini por não ceder a apelos do funcionalismo. 

Chegou a ser punida com a perda do cargo de vice-presidente da Comissão de Educação da Assembleia após negar voto que considerava contrário ao magistério. Nas eleições nacionais, reclamava das alianças cada vez mais abrangentes aceitas pelo PT.

– Não tenho decepções na política, mas avaliações. Nada do que é humano me é estranho – afirma Luciana, repetindo frase do dramaturgo latino Terêncio (195-159 a.C.) que Karl Marx costumava citar.

Candidata diz que, se eleita, saberá dosar a combatividade da vida pública com a faceta afável da intimidade Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

"Nunca me arrependi das minhas brigas"

Assegura não se arrepender de brigas que comprou:

– Meu mandato não pode ser usado para contrariar interesses de quem me elegeu, e não posso violentar meus princípios em defesa de um governo, seja qual for. Por isso, nunca me arrependi das minhas brigas.

Recentemente, desagradou a parte da esquerda ao defender novas eleições presidenciais quando o PT ainda tentava salvar Dilma Rousseff do impeachment.

– Se o PT tivesse investido nas eleições gerais, teríamos evitado a posse de Michel Temer – reafirma.

Para trocar o papel de opositora implacável pelo de gestora do Executivo, Luciana tenta compensar com campanha intensa o pouco tempo de propaganda na TV – 12 segundos.

Quarta-feira passada, distribuiu panfletos diante do Hospital Conceição mesmo sob o vento forte provocado pelo ciclone extratropical que passou pelo Estado. Um dos desafios era manter o cabelo, rebelde como ela, alinhado para fotos. Às eleitoras, ressaltava a importância de eleger uma prefeita:

– Precisamos empoderar as mulheres.

Caso eleita, garante que saberá dosar a combatividade da vida pública com a faceta afável da intimidade:

– Quando me chamam de radical, digo que sou no sentido de querer transformações que atinjam a raiz dos problemas. Não significa ser intransigente. Só não tive chance de exercer essas características ainda.

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