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Do empreendedorismo ao legado do pai: conheça Nelson Marchezan Júnior

Candidato do PSDB à prefeitura de Porto Alegre é o terceiro perfil da série com os concorrentes

23/09/2016 - 06h05min | Atualizada em 23/09/2016 - 17h04min
Do empreendedorismo ao legado do pai: conheça Nelson Marchezan Júnior Diego Vara/Agencia RBS
Marchezan Júnior ajusta a agenda cheia para passear e se divertir com o filho de oito anos em Porto Alegre Foto: Diego Vara / Agencia RBS

– Oi Manezinho, tudo bem? Olha só, tu vai te apresentar hoje, né? Papai conseguiu trocar a passagem, tu vens hoje de noite, depois da apresentação, tá?

É sexta-feira, perto do meio-dia. Aos oito anos, Nelson Marchezan Neto recebe orientações para um dos momentos mais esperados pelo pai, Nelson Marchezan Júnior, 44 anos. O menino vai chegar à noite a Porto Alegre para passar o final de semana. 

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Enquanto fala ao telefone, Marchezan repassa mentalmente a agenda, que irá equilibrar a campanha à prefeitura e o tempo livre com o filho. Nesse fim de semana, por exemplo, Neto veio de Ijuí, e eles foram ao Acampamento Farroupilha: corpo a corpo para Marchezan, passeio para o menino.

– Tá tudo bem aí, meu amor? Pede para tua mãe filmar que eu quero ver a apresentação, hein? O que tá fazendo que não tá me dando atenção? – cobra o pai.

– Comendo doce de leite – diz Neto.

– Doce de leite, cara? Doce todo dia, meu?

Pausa.

– Mané? Mané?

Neto, uma homenagem ao avô, o deputado Nelson Marchezan (Arena, depois PDS e PSDB), já passou o telefone para a mãe, Nadine, e voltou para o doce de leite. Separados há seis anos, os dois combinam sobre o horário do ônibus. Marchezan Júnior não estará presente à apresentação da Semana Farroupilha em Ijuí, mas já começa a desacelerar a agenda para reservar minutos para aproveitar com o filho.

Bolas e raquetes no porta-malas e ensinamentos do pai na memória

Neto está longe, mas sempre presente: ao alcance do WhatsApp ou no desenho feito em recorte de folha de ofício colado à porta do gabinete de Marchezan, no 10º andar de um prédio no centro da Capital. Há dois rostos rabiscados em caneta: um tem cabelo liso, o outro, encaracolado. A inscrição entrega: "Sala do Júnior. E do Nelson". No porta-malas do carro de Marchezan, há bolas de futebol e basquete e um par de raquetes de frescobol. Tecnologia, desenho e ¿kit esporte¿ ajudam a preencher a ausência que enfrenta como pai, mas que já experimentou como filho:

– Na família, a gente sempre teve uma visão meio estranha da política, porque a gente não trabalhava com o pai, só nas campanhas e nos finais de semana. Fora isso, a gente via a coisa ruim: o cara trabalhador para burro, sério para caramba e que tinha frustrações, porque não conseguia fazer as mudanças que queria. Tinha muito essa parte do meu pai ausente.

Recorrente nas falas de Marchezan, o pai, falecido em 2002 de uma parada cardíaca, está sempre presente no discurso do filho da dona Maria Helena, 75 anos. A mãe ainda mora no bairro Menino Deus, onde Marchezan, o único político dos cinco irmãos, passou a maior parte da vida em Porto Alegre. Peço uma lembrança do pai. Vêm várias:

– Aprendi a andar a cavalo, usar a pá na lavoura, dirigir trator, carro. Foi ele quem me ensinou.

Alfabetizado na Escola Estadual Presidente Roosevelt, na Rua Botafogo, pela mãos da professora Zoé, Marchezan Júnior fazia ponte aérea enquanto o pai estava na Câmara, tendo estudado em dois colégios em Brasília. Mais tarde, voltou à Capital para concluir o Ensino Médio no Colégio Rosário. 

Marchezan Júnior começou três faculdades, mas conclui apenas a de Direito Foto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

Esporte e três faculdades iniciadas antes de intercâmbio na Europa

A voz muda, e ele começa a imitar a rouquidão do professor Gil, de Matemática. Os professores, como sempre, tinham apelidos poucas vezes revelados. O de Química era "um lenhador", devido ao corpo de halterofilista. Tinha também a professora "Bactéria", de Química. Dias atrás, inclusive, Marchezan estava no comitê de um vereador, e foi surpreendido:

– Voto em ti desde que tu te lançaste candidato, porque te conheci. Sou a "Bactéria", tua professora.

Física, diz ele, "sabia tudo". Mas Química...

– Tirava 10 em uma prova e zero na outra. Era um horror. Acho até que minha primeira namorada foi uma menina que me ensinou Química – confessa.

Marchezan começou Direito na Unisinos e Educação Física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Fez natação, boxe, arco e flecha, capoeira, kung fu e foi professor de ginástica aeróbica. Até que, em 1990, veio a derrota do pai na eleição para governador. Alceu Colares (PDT) foi eleito.

– Eu pensava: poxa, não conseguiram mostrar quem é meu pai. Vou estudar isso – lembra.

Em busca de explicações, começou Publicidade e Propaganda na PUCRS. Chegou a fazer os três cursos simultaneamente por um ano, mas concluiu só o de Direito. Antes da formatura, vendeu barraca de acampamento e um aparelho de som para estudar inglês e francês na Europa. Morou por um ano entre Londres e Paris, trabalhando como faxineiro e garçom de redes de lanchonetes. 

Lições ensinadas pelo pai inspiram trabalho de Marchezan Júnior como parlamentar Foto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

Morte repentina causa mudança de rumo e estímulo para a política

Voltou a Porto Alegre com a ideia de empreender. Abriu com um amigo a escola de idiomas Westminster. Era 1999. A morte do pai mudaria o foco do jovem advogado e empreendedor. Foi no sepultamento que começaram as primeiras vozes do PSDB a convocar o filho para concorrer nas eleições seguintes.

– Quando ele faleceu, a gente começou a ver algo muito legal, que eram suas conquistas. Acordei para a parte bonita, de realizações. Me motivei, e a família, prefeitos, vereadores e presidentes de entidades diziam: "Vamos continuar essa história" – conta.

Marchezan Júnior candidatou-se a deputado federal. Elegeu-se com 60 mil votos, mas foi cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) porque não estava filiado ao partido no prazo estipulado em lei. Foi chamado pelo governador eleito Germano Rigotto (PMDB) para ser diretor de desenvolvimento, agronegócios e governos no Banrisul. A carreira política só se concretizaria em 2007, quando foi eleito deputado estadual. Quatro anos depois, chegaria à Câmara.

Rótulo de "esquentado" e postura combativa como deputado federal

No gabinete, entre amigos e colegas de trabalho, Marchezan tem fama de pavio curto. Assessores já o deixaram por conta da rispidez que reage sob tensão.

– Não aceita respostas-padrão – diz uma assessora.

– Se querem respostas-padrão, não vão ligar para o deputado. Como posso ter uma assessoria que não se esforça ou me dá dados errados? Não sou perfeito. Talvez tenha pouca paciência e use palavras transparentes, como se fossem meus amigos – defende-se.

– O Nelson político é um homem de credibilidade, com coragem nos embates e posições bastante claras. Além disso, é um pai superpresente, extremamente carinhoso e preocupado em passar virtudes ao filho. E, tanto na vida política quanto na pessoal, tem grande dificuldade em aceitar os ¿nãos¿: o não consigo, não posso, não vou fazer. É um cara resolutivo – conta Nadine Dubal, 37 anos, empresária e ex-mulher do candidato.

A fama de irritadiço vira munição para os rivais. Uma de suas cenas públicas mais revoltadas está no YouTube: o bate-boca com o colega Paulo Pimenta (PT-RS), no contexto do impeachment de Dilma Rousseff. Após o petista chamá-lo de "filhote da ditadura" em referência ao fato de o pai ter sido líder do governo na Câmara pela Arena, Marchezan Júnior responde indignado. Mas diz que o tema está resolvido:

– Há 50 anos, todos se dividiram. Meu pai foi para a Arena, mas deixou de assumir muitos cargos por ser considerado comunista. Ele foi o líder da abertura.Quanto ao bate-boca com Pimenta, diz que foi "legítima defesa". O próprio petista afirma não ter problemas pessoais com o tucano e define a discussão como uma "divergência conceitual".

Em Brasília, Marchezan é uma espécie de cicerone do Movimento Brasil Livre (MBL), grupo que organizou as manifestações "Fora Dilma". Também carrega a bandeira da briga contra magistrados, procuradores e promotores. Após votar a favor do impeachment, cobrou coerência dos colegas de Casa que defendiam regime de urgência para o reajuste de 41,47% nos salários dos servidores do Judiciário. 

Entre um e outros compromisso de campanha, Marchezan Júnior diz se dedicar a muitas leituras sobre Porto Alegre Foto: Diego Vara / Agencia RBS

Das reuniões tarde da noite às leituras e aos filmes infantis

Com fama de workaholic, almoça e janta no meio do expediente, entre segunda e quinta-feira, quando é capaz de convocar reuniões com a equipe para as 23h. Em Porto Alegre, a mesa do gabinete não tem espaço vago para se debruçar. Há folhas e mais folhas. Na estante de livros, os dicionários de inglês e os calhamaços do Direito não são visitados há tempos:

– Leio projeto de lei e relatório de projeto de lei. E, agora, leio coisas sobre Porto Alegre, saúde, segurança, educação e notícias, muitas notícias.

– E para se distrair? – pergunto.

– Nada. Gosto de ler sobre gestão, histórias de pessoas. Barão de Mauá achei legal para entender o perfil de empreendedor e parte da história do Brasil – diz.

Nos últimos tempos, o admirador de Pink Floyd, U2, Paralamas do Sucesso e Capital Inicial virou especialista em filmes infantis. Culpa de Neto. Apesar de bom de papo, ele se diz tímido. Sobre a fama de namorador, desconversa e garante estar solteiro.

O almoço é um bauru do Tuin, tradicional bar da General Câmara, a Rua da Ladeira. Ele bebe água mineral. Com o apartamento em reformas, Marchezan tem ficado mais tempo com a mãe. Foi para a casa dela para passar alguns dias e ficou seis meses. 

Dali, segue, de bicicleta, com o filho, para passear pelo Parque Marinha do Brasil e pela orla do Guaíba. No porta-malas do carro, ficaram guardadas a bola de basquete, a de futebol e as raquetes de frescobol. Pelo menos até o próximo final de semana.

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