Cara a cara 

Apesar dos discursos diferentes, candidatos à prefeitura de Porto Alegre têm propostas semelhantes

Adversários no segundo turno, Nelson Marchezan Júnior (PSDB) e Sebastião Melo (PMDB) têm maioria da sugestões parecidas para tentar solucionar os problemas da Capital em gestão à frente do Executivo

15/10/2016 - 02h06min | Atualizada em 15/10/2016 - 15h38min
Apesar dos discursos diferentes, candidatos à prefeitura de Porto Alegre têm propostas semelhantes Gabriel Renner / Arte ZH/Arte ZH
Foto: Gabriel Renner / Arte ZH / Arte ZH  

Quando a Justiça Eleitoral anunciar o resultado das urnas, no dia 30 de outubro, Porto Alegre terá eleito um candidato que promete pagar horas extras para brigadianos, abrir postos de saúde até as 22h, desburocratizar a prefeitura, concluir as obras em andamento, apostar em parcerias com a iniciativa privada e manter a Carris como empresa pública. Embora a propaganda eleitoral reforce as diferenças existentes entre Nelson Marchezan Júnior (PSDB) e Sebastião Melo (PMDB), os adversários têm propostas bastante semelhantes para os próximos quatro anos de gestão à frente da Capital. As divergências se escondem nos detalhes.

Das 26 sugestões para 10 temas analisados por ZH nos planos de governo e em entrevistas concedidas por ambos, há convergência em 20. Nas seis restantes, há discrepâncias claras, como na utilização de corredores de ônibus para táxis e sobre a necessidade de reestruturação do currículo escolar municipal.

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Para o sociólogo Aloísio Ruscheinsky, a apresentação de programas de governo equivalentes demonstra a opção pelo pragmatismo eleitoral. O professor de Ciências Sociais da Unisinos entende que a similitude das propostas revela disposição de Marchezan e Melo em estabelecer promessas que atendam às expectativas da população.

— Qual eleitor não quer mais policiais nas ruas? Então, os candidatos se esforçam para representar o que o eleitor espera deles. Na luta pela hegemonia, usam todos os artifícios possíveis, inclusive copiar propostas dos outros — comenta Ruscheinsky.

Essa paridade também é fruto da natureza das próprias candidaturas. PMDB e PSDB são aliados históricos no Estado, compartilhando espaços em praticamente todas as coalizões à frente do Piratini e na oposição ao PT durante a gestão de Tarso Genro. Também estiveram juntos nas três últimas administrações municipais da Capital — principais sustentáculos de Marchezan nesse segundo turno, PP e PTB ainda hoje ocupam cargos na gestão de José Fortunati (PDT).

Separados nessa eleição, Melo e Marchezan trocam ataques na campanha, mas por vezes têm assumido compromissos que confrontam seus próprios ideais programáticos. Marchezan, por exemplo, segue cartilha liberal, mas nega peremptoriamente que vá privatizar a Carris ou o Departamento Municipal de Água e Esgoto (Dmae). Melo defende maior participação do setor público nas políticas assistenciais à população carente, mas promete ampliar as parcerias com a iniciativa privada na área social.

— Essa postura torna muito difícil para o eleitor diferenciar um candidato do outro, pois eles prometem o que rende voto. Pode acontecer inclusive de se cair na armadilha de votar em alguém que, na essência, seja contrário ao que o eleitor espera — diz Ruscheinsky.

Programa genérico para evitar prejuízo na urna

Nos núcleos das campanhas, a semelhança entre as plataformas causa incômodo. Mas as reações à comparação são distintas. O coordenador da chapa do PMDB, Antenor Ferrari, relativiza a simetria e tenta desconstruir o adversário.

— Temos programas muito diferentes. O deputado Marchezan só fala coisas genéricas, é pura retórica. Não diz como vai fazer. Algumas propostas podem coincidir, mas ele não especifica, ao contrário da nossa candidatura — critica Ferrari.

Do lado tucano, o principal estrategista, Kevin Krieger (PP), admite a afinidade nas sugestões, com o diferencial de que Marchezan teria condições de fazer o que Melo, como vice-prefeito, não teria feito:

— Todo mundo sabe os problemas da cidade, então as soluções acabam mesmo sendo parecidas. Estamos pedindo oportunidade de fazer as melhorias que apontamos. Os dois candidatos conhecem os problemas, mas a diferença é que o Melo já teve a oportunidade de resolvê-los.

Segundo o professor Fernando Schüler, especialista em políticas públicas e gestão governamental, em geral os programas de governo tendem a ser genéricos por receio dos candidatos em falar de temas que provoquem prejuízos eleitorais:

— O custo político de se especificar um programa é muito alto. Ninguém vai dizer que irá aumentar impostos, por exemplo. Cabe ao eleitor buscar outros aspectos do candidato, como o retrospecto, o tom da campanha, as alianças que fez, para se ter uma perspectiva do perfil de gestão que será adotado.


 
 
 
 
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