Final de um ciclo

Desgaste por 12 anos no poder e desejo de mudança selaram a derrota de Sebastião Melo 

Mesmo com uma aliança de 14 partidos, atual vice-prefeito não conseguiu articular estratégia de campanha que conquistasse a maioria dos eleitores

Por: Fábio Schaffner
30/10/2016 - 19h00min | Atualizada em 30/10/2016 - 22h19min
Desgaste por 12 anos no poder e desejo de mudança selaram a derrota de Sebastião Melo  André Ávila/Agencia RBS
Sebastião Melo apresentava discurso dizendo que era, ao mesmo tempo, "o candidato da mudança e da continuidade" Foto: André Ávila / Agencia RBS  

A três dias do fim da campanha na TV, Nelson Marchezan Júnior (PSDB) encerrou sua propaganda com uma frase provocativa: "Vem aí um programa que já dura 12 anos". A sentença, exibida um segundo antes da veiculação do programa de Sebastião Melo (PMDB), é também síntese da derrota do peemedebista. Representante de uma coalizão que desde 2004 governa Porto Alegre, Melo montou aliança de 14 partidos, mas viu essa máquina eleitoral ser suplantada pelo desejo de mudança expresso nas urnas.

No primeiro turno, mesmo com praticamente o dobro do tempo de propaganda do tucano, mostrou-se incapaz de responder às expectativas de um eleitor cada vez mais refratário à forma tradicional de se fazer política. 

Leia mais
Sebastião Melo vota ao lado da mulher e do prefeito Fortunati
"Tenho uma identidade com a esquerda", afirma Melo
Da cozinha goiana ao tempero político: conheça Sebastião Melo

Enquanto Marchezan se apresentava como o jovem destemido que tinha "uma nova atitude para um novo tempo", slogan de sua campanha, Melo mostrava um discurso confuso, afirmando que era, ao mesmo tempo, "o candidato da mudança e da continuidade".

— A campanha mostrou que essa seria a eleição do pulso firme, da atitude, um atributo considerado importante para 40% dos eleitores. A população espera alguém que resolva o que precisa ser resolvido, que cobre o que precisa ser cobrado. Marchezan simbolizou isso, mesmo fazendo promessas que talvez não possa cumprir — analisa a socióloga Elis Radmann, diretoria do Instituto de Pesquisas de Opinião (IPO).

Enquanto o marketing da campanha de Marchezan explorava essa imagem de alguém capaz de solucionar os problemas da cidade, com o candidato caminhando resoluto e a passos largos enquanto desfiava críticas à atual gestão, Melo, por vezes, aparecia taciturno, com olheiras profundas e uma dicção claudicante. O direcionamento da propaganda para as classes mais pobres, nas quais o peemedebista tinha bons índices de intenção de voto e baseado no sugestivo apelo de que Melo era "povão", tampouco rendeu os resultados esperados. Boa parte desse nicho eleitoral acabou cooptado pelo PTB que, embora ainda faça parte da atual gestão, lançou candidatura própria e apoiou Marchezan no segundo turno.

Nos bastidores do comitê peemedebista, houve severas discussões sobre a condução da publicidade eleitoral. No primeiro turno, a escassez de recursos não permitiu a contratação de um marqueteiro profissional. A surpreendente virada de Marchezan, contudo, alarmou os estrategistas. O jornalista Marcos Martinelli, responsável pelas vitórias de José Fortunati à prefeitura em 2012 e de José Ivo Sartori ao Piratini em 2014, foi chamado, mas declinou do convite, alegando compromisso com a eleição em Manaus (AM).

Sem o mago das campanhas anteriores, o PMDB abriu o segundo turno atacando Marchezan. Acusou o adversário de falsificar sua ficha de filiação partidária e de gastar toda a verba disponível para contratação de assessores. A estratégia permitiu ao tucano, conhecido pelo temperamento explosivo, se colocar no papel de vítima e atribuir as críticas ao desespero de Melo diante de uma derrota definitiva.

Duas semanas após o primeiro turno, a morte de um dos principais assessores da campanha, Plínio Zalewski, abalou ainda mais Melo e equipe. Atordoado, o staff peemedebista viu Marchezan angariar para si até mesmo o protagonismo do luto. No dia seguinte, enquanto Melo fez uma rápida homenagem ao amigo morto e deu sequência ao programa, com jingle festivo e a repetição de promessas, Marchezan usou uma tarja preta com seu nome e número em metade da propaganda eleitoral.

Na última semana de campanha, Melo recebeu o apoio do PMN, do PC do B e de intelectuais de esquerda. Ao mesmo tempo em que conseguiu calibrar o tom das críticas, passou a combater o voto nulo e a tentar atrair os eleitores de Luciana Genro (PSOL) e Raul Pont (PT) que, juntos, haviam conquistado 28% dos votos no primeiro turno.

Era tarde demais. Às 17h deste domingo, quando a votação se encerrou, Marchezan havia obtido o aval de 402 mil porto-alegrenses, 60,50% dos votos válidos. De uma só vez, adiou o sonho do adversário de chegar ao comando da Capital e pôs fim ao segundo maior ciclo de um grupo político à frente da prefeitura (2005-2016), só superado pelos 16 anos do PT (1989-2004).


 
 
 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.